Animê e Mangá podem ensinar? Uma experiência em sala de aula

No dia 09/05/2022 visitei o CIEP Clementina de Jesus, Caxias/RJ, para apresentar sobre o tema “Animê e Mangá podem ensinar?” a convite da professora Roberta Damasco. Tive a oportunidade de levar alguns quadrinhos como Nausicaä do Vale do Vento, 1 Litro de Lágrimas, Your Name, Louco: Fuga e Penadinho: Vida e Turma da Mônica Jovem para mostrar algumas diferenças e similaridades em relação aos quadrinhos que seguem o estilo mangá ou outros estilos. Também levei o diário 1 Litro de Lágrimas para mostrar que é possível encontrar as histórias de mangás em diferentes modalidades de produção.

Antes da apresentação, a professora teve a ideia de colocar todos esses quadrinhos numa mesa onde os estudantes pudessem manuseá-los. Alguns estudantes compartilharam que preferiam assistir os animês a ler os mangás. Outros estudantes ainda não conheciam os mangás e estavam ali tendo seu primeiro contato com esse mundo da cultura japonesa.

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Perguntei para eles quais características dos mangás chamavam mais atenção e alguns comentaram sobre as cenas de lutas que são muito detalhadas. Também conversamos sobre como os conflitos dos personagens aparecem nos mangás como passíveis de mudança dependendo do contexto, quando os personagens aprendem a lidar com esses de forma coletiva, citando como exemplo as experiências de Naruto com os seus professores. Inclusive, em relação ao mangá Naruto, o estudante que havia dito preferir assistir animês do que ler mangás reconheceu que costuma ler os mangás por serem mais detalhados do que os animês em relação às narrativas.

Comentei sobre como o mangá moderno tem muitas metáforas sobre impactos do desenvolvimento científico e tecnológico no ambiente. Como exemplo, falamos sobre o primeiro volume do mangá Nausicaa do Vale do Vento. Esse mangá representa um contexto datado em mil anos, após uma guerra que exterminou a maior parte da civilização humana e que provocou o surgimento de uma floresta tóxica que se alastra na superfície da terra. As armas utilizadas nessa guerra, que teve como motivação o controle de territórios, utilizaram tecnologias que remetem ao poder da energia atômica para dizimar cidades e subjugá-las ao controle do grupo que deseja impor seu modelo de desenvolvimento industrializado.

Os sobreviventes são representados como divididos em três grupos sociais. Dentre esses, Pejite e Torumekia tratam a floresta tóxica como um inimigo a ser eliminado. Embora tenham em comum a atitude de combater os insetos que moram na floresta tóxica, as duas nações vivem em disputa para dominar territórios ainda não tomados pela toxicidade da floresta. Enquanto o grupo Vale do Vento trata essa floresta com respeito e temor. Esse grupo até utiliza e enxerga os recursos dessa floresta como renováveis e importantes para fabricar seus armamentos e vestimentas. Eles também têm como referência as atitudes da princesa Nausicaä que reconhece a interpendência entre os humanos e a floresta tóxica.

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A partir desse mangá, mostrei as páginas em que existe total falta de diálogo ou narração. Enfatizei a importância de identificar as emoções nesse aspecto estético. Nos termos do antropólogo Lévi-Strauss, a emoção estética está presente em imagens que podem tanto provocar interesse e evidenciar o tema do enredo como também ilustrar uma ideia ou argumento relacionado ao fenômeno abordado. Nesse sentido, as imagens abrem mão das dimensões sensíveis para tornar mais instigante a compreensão dos sentidos do fenômeno que está representando.

Aproveitei essa discussão das semânticas das emoções para compartilhar sobre como as diferentes formas de acessar conhecimentos podem suscitar emoções que aproximam seus conteúdos de nossas experiências.  Especialmente, uma estudante compartilhou sobre como se identifica com algumas histórias de mangás em que os personagens comunicam diferentes sentimentos e comportamentos. Ela refletiu que embora sejamos indivíduos, reconhecidos por comunicar determinadas emoções e comportamentos, podemos comunicar outras emoções e comportamentos dependendo do contexto. Esse relato também faz refletir sobre como as emoções são formas de linguagens que aprendemos.

Referências

LÉVI-STRAUSS, C. Natureza e Cultura. In: LÉVI-STRAUSS, C. (Org.) Estruturas elementares do parentesco. 3.ed. Petrópolis: Vozes, 1982.

SANTOS, Bruna Navarone; SAWADA, Anunciata. Contextos históricos e sociopolíticos dos Mangás e Animês e sua potencialidade no ensino. in: BUENO, Andre; CREMA, Everton; MARIA NETO, José (org.). Ensino de história e diálogos transversais. Rio de Janeiro: Sobre Ontens/UERJ, 2020. p. 39-47.

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