Attack on Titan: o vale da estranheza

O medo e a estranheza nem sempre estão associados a efeitos especiais avançados, a terrores cosmológicos ou a monstruosidades. Às vezes, para nos incomodarmos com algo, basta que nosso cérebro nos diga; e muitas vezes, são pequenos detalhes, talvez até inconscientes, que nos fazem reagir dessa forma! Esse fenômeno pode ser observado em diversos meios, de fantoches e modelos, a filmes e animes. Um dos animes que utiliza dessa técnica conhecida como “vale da estranheza” é Attack on Titan (進撃の巨人, ”Shingeki no Kyojin”)! Espero que vocês estejam gostando do final da última temporada e venham entender um pouco mais sobre isso com a gente do Minuto Otaku!

O Vale da Estranheza

Ainda que eu andasse pelo vale da estranheza dos titãs, não temeria mal algum, porque Mikasa estás comigo (Salmos 23:4a)

O vale da estranheza (do japonês 不気味の谷 bukimi no tani) foi descrito pela primeira vez pelo roboticista Masahiro Mori (森 政弘); para descrever esse conceito, ele demonstra a relação hipotética entre o grau de semelhança de um objeto com um ser humano e a resposta emocional ao objeto.

Mori Uncanny Valley, baseado na imagem de Masahiro Mori e Karl MacDorman at, por Smurrayinchester, (2007), traduzido pelos autores. CC BY-SA 3.0.

O crescimento tecnológico, a realidade aumentada e a virtual e processos de animação, cada vez mais detalhados, como as animações fotorrealistas, vêm causando sensações de estranheza. Esse fenômeno de estranheza é explicado como uma reação adversa quando a criação se aproxima quase que indistinguível da realidade, ou seja, coisas “quase humanas”, que podem provocar sentimentos incômodos, aversão, inquietação e repulsa nos espectadores. Curiosamente, o vale denota que há uma queda brusca nessa percepção dependendo do grau de semelhança, pois coisas menos parecidas com humanos ou humanos em si não provocam esse sentimento! E em Attack on Titan podemos observar o quanto isso é utilizado, tanto no mangá quanto no anime. Vejamos a seguir alguns exemplos disso, preparem-se porque vamos citar alguns Spoilers!

A imagem e semelhança

O autor da obra, Hajime Isayama (諫山 創), utiliza com maestria imagens que evocam o vale da estranheza, principalmente no desenhos dos titãs: a grande maioria deles é humanoide, nua — sem os órgãos sexuais —, deformada, alta, muitas vezes com sorriso perpétuo que nunca se desfaz mesmo quando estão sendo picotados pela Divisão de Reconhecimento.

Além disso, os traços dos Nove Titãs (九つの巨人) têm suas particularidades; podemos falar sobre alguns para demonstrar ainda mais esses detalhes. Por exemplo, a Titã Fêmea e o Colossal são baseados em modelos anatômicos humanos, muito semelhantes ao que é encontrado em cadáveres sem a pele. O Bestial possui traços humanos mas membros longos e uma cabeça pequena; em geral, possuem traços desproporcionais e que causam a estranheza a quem observa.

Imagem/Reprodução: Attack on Titan Guidebook: INSIDE & OUTSIDE

Adicionalmente, outras mídias como o Live Action deixam ainda mais claro essa estranheza, adicionando uma coloração esbranquiçada, fazendo nosso consciente perceber ainda mais que algo está “estranho”.

Imagem/Reprodução: Attack on Titan live-action (2015)

Detalhes como dentes e a quantidade que conseguimos observar normalmente em uma boca, proporção da face, do tórax, dos membros… tudo isso acaba evocando, na maioria das pessoas, um sentimento de repulsão.

O autor original do conceito acreditava que as criações — no seu caso robôs — não deveriam ser excessivamente realistas em aparência e movimento, exatamente para evitar esse fenômeno da estranheza. Além disso, ainda é muito discutido o que leva o nosso cérebro a ter esse comportamento: áreas que estão envolvidas na seleção de um parceiro? Um medo sobre a nossa mortalidade? Uma forma de evitar contatos com organismos que podem “parecer” doentes e transmitirem doenças? Uma violação das normas ou da identidade humana? Conflitos da nossa própria percepção? Diversas teorias são discutidas, assim como diversas críticas! O fenômeno em si é extremamente diverso, com objetos que caem nessa categoria sendo totalmente distintos; além disso ele pode estar associado a uma questão geracional, na qual pessoas que cresceram em contato com essas entidades não sentem repulsa! Isso pode estar ligado a questões culturais ou efeitos meramente expositivos que vêm sendo estudados.

Apesar disso tudo, quando usado de forma correta, o efeito pode ser bastante interessante, como no caso de Attack on Titan!

Co-autor do artigo: André Almo

Referência Bibliográficas 

The Uncanny Valley: The Original Essay by Masahiro Mori – IEEE Spectrum. ([s.d.]). Recuperado 24 de março de 2022, de https://spectrum.ieee.org/the-uncanny-valley

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