Noções sobre natureza, emoções e memória no animê Kimi no na wa

Nossa relação com a natureza pode estar relacionada à complexidade de experiências acadêmicas, comunitárias, culturais e sociais que influenciam as nossas expectativas e intenções nas formas de lidar com as suas manifestações. Para pensar sobre nossas interações com a natureza, podemos nos perguntar: como interagimos cotidianamente com a natureza? Quais noções de natureza perpassam a nossa relação com os elementos que compõe a sua biodiversidade? Algumas reflexões sobre essas questões também podem ser encontradas no filme de animação japonesa e mangá Your Name (君の名は, Kimi no na wa) lançado enquanto filme em 2016 e reimpresso no Brasil em 2021, escrito e dirigido por Makoto Shinkai.

O filme apresenta como protagonistas a jovem estudante Mitsuha Miyamizu,  que mora numa casa próxima ao templo xintoísta na região chamada Itomori, e o jovem Taki Tachibana, estudante e funcionário em restaurante na Metrópole de Tóquio. A primeira personagem é retratada como uma pessoa que está inconformada com as oportunidades que a região Itomori tem proporcionado. Mitsuha se sente obrigada tanto a participar da realização de cerimônias e cuidados com o templo xintoísta, junto a sua irmã Yotsuha e a sua avó Hitoha, quanto a aceitar as escassas opções de trabalho nessa região rural.

Imagem/Divulgação – Mitsuha e sua irmã Yotsuha a pé indo à escola em Itomori/Makoto Shinkai

Enquanto o jovem Taki é representado como um estudante no colegial que mora com o pai no apartamento e que trabalha como garçom, tendo uma paixão secreta pela colega de trabalho.

Como será que Mitsuha e Taki se conheceram? Será que ambos estavam insatisfeitos com as próprias rotinas e decidiram conscientemente trocar de lugar?

Imagem/Divulgação –Taki dentro no metrô indo à escola em Tóquio /Makoto Shinkai

Os afetos que movem na animação japonesa

[ATENÇÃO: SPOILER ]

Uma cena que representa fortemente a insatisfação de Mitsuha acontece na imagem a seguir, onde a personagem está próxima ao Torii. Esse é um portão que costuma estar próximo ao santuário xintoísta e indica passagem de um território profano para um divino. Nessa situação, a personagem implora para se tornar um rapaz que mora e estuda em Tóquio. Caso ela conseguisse viver como um rapaz nessa região, será que ela continuaria sendo a mesma pessoa? Com os mesmos sonhos e objetivos de vida?

 Imagem/Divulgação – Mitsuha deseja em voz alta se tornar um colegial em Tóquio/Makoto Shinkai

A princípio, durante alguns dias, Mitsuha acreditava que era apenas um sonho o fato de enxergar a si própria como um rapaz e ser tratada pelos outros como um colegial chamado Taki. Ela começou a levar esse sonho a sério quando retornou a consciência de viver como Mitsuha na região de Itomori e descobriu pelos familiares e colegas que, durante alguns dias da semana, estava agindo como se fosse outra pessoa. Enquanto o colegial Taki também descobriu pelos comentários dos colegas e do pai que estava se comportando como se estivesse fora de si.

Imagem/Divulgação – Mitsuha e Taki escrevem mensagens para compartilharem suas rotinas entre si/Makoto Shinkai

Mitsuha e Taki começaram a escrever no celular, caderno e até na pele de cada um os próprios nomes para se identificarem, estabelecendo esclarecimentos e regras necessárias para estarem no lugar do outro respeitando suas rotinas, desejos e interações diárias.

Imagem/Divulgação – Mitsuha lê as anotações de Taki sobre suas experiências quando ele estava no lugar da personagem /Makoto Shinkai
Imagem/Divulgação –Taki lê as anotações de Mitsuha sobre suas experiências quando ela estava no lugar do personagem/Makoto Shinkai

Conforme essas experiências foram se desenvolvendo, Mitsuha e Taki construíram uma relação de confiança e respeito pelas experiências de cada um, valorizando as relações com as diferentes pessoas com quem estavam convivendo. Essas vivências eram compartilhadas entre os personagens pelas anotações que deixavam antes de dormir, para poderem ter conhecimento sobre como deveriam lidar com novos acontecimentos logo que retornassem para os próprios lugares de origem. No entanto, ainda nesses momentos de troca, os personagens começaram a ter dificuldade para lembrarem das memórias que tinham dessas relações e das próprias pessoas com quem conviviam. Havia o esquecimento até dos nomes próprios de cada um. O que será que pode trazer à tona as memórias dessas experiências?

Hitoha, avó de Mitsuha, pode ter dito algo que se aproxima de uma possível reposta. Ela ensina para Mitsuha e a sua irmã sobre a importância de dedicar atenção e cuidado ao enrolar os fios enquanto parte da tradição do santuário xintoísta chamado Miyamizu.  Nessa conversa, a avó enfatiza que é preciso ouvir esses fios, porque as emoções começam a fluir entre as pessoas mediante essa prática de trançá-los. Nesse sentido, Hitoha define esse enrolar dos fios como musubi que também afirma representar o fluxo do tempo:

Atrelar os fios é musubi. As ligações entre as pessoas também. Inclusive, o fluxo do tempo é musubi. […] Eles vão se juntando e ganhando forma, eles se torcem, embaraçam e, às vezes, voltam ao normal. Eles acabam se rompendo e voltam a se ligar (Your Name, 2017, n. p).

Esse sentido de entrelaçar os fios também se aproxima da relação entre Mitsuha e Taki. Entre encontros e desencontros, embora acabem esquecendo das memórias que construíram no lugar do outro, conseguem lembrá-las aos poucos conforme entram em contato com objetos que provocam emoções e remetem a essas memórias.

Alguns estudos relacionados às emoções verificam que essas estão relacionadas às experiências que construímos socialmente com base em valores, crenças e hábitos que compartilhamos e aprendemos. As emoções também podem influenciar a forma como interpretamos os fenômenos, nas nossas relações com o outro e o ambiente onde estamos inseridos, e  a forma como estruturamos a nossa memória e realizamos escolhas importantes.

Portanto, as emoções também podem ser consideradas como expressões que nos orientam. Como exemplo, a fita que prende o cabelo de Mitsuha e a paisagem das florestas em Itomori desenhada por Taki são elementos que remetem ao sentimento de cuidado gerado em situações de convivência com os colegas e familiares. É importante mencionar que essa fita foi um presente da mãe de Mitsuha antes de falecer, quando ela disse que a fita seria importante para ajudar a filha nos momentos em que precisasse reencontrar alguém importante. Por isso, Mitsuha presenteia Taki com essa mesma fita antes de se despedir.

Imagem/Divulgação – Mitsuha e Taki /Makoto Shinkai

Sentidos de Natureza na cultura ocidental e na cultura japonesa

Imagem/Divulgação – Mitsuha, Yotsuha e Hitoha caminhando em Itomori para realizar um ritual do santuário xintoísta /Makoto Shinkai

O que a relação dos personagens com a fita e as florestas em Itomori tem a ver com os possíveis sentidos de natureza que podem influenciar as nossas relações? Primeiramente, pode-se compreender que essas relações no filme de animação japonesa remetem aos valores culturais do Xintoísmo que valoriza a relação da comunidade com a natureza, prezando por rituais que buscam promover a fertilidade da natureza e manutenção da comunidade que a integra.

No Japão, o conceito de Natureza é considerado diferente daquele que compartilhamos no Ocidente. Como exemplo, os elementos considerados naturais na cultura ocidental geralmente são qualificados como recursos para fins utilitários e como forma de aperfeiçoar a razão humana. Antes dos japoneses se apropriarem dessa noção ocidental sobre Natureza, usavam expressões como sansensomoku. Literalmente, significa “as montanhas, rios, gramíneas e árvores” (KAWAI, 1995 p.292).

A palavra shizen também era usada no Japão, antes da apropriação dessa concepção ocidental de natureza. Pode-se dizer que o shizen expressa um estado de fluidez, como um fluxo em constante mudança no qual os elementos da natureza e os seres vivos estão integrados. Essa mudança pode ser situada num processo contínuo e, devido a essa fluidez, não pode ser apreendida espacialmente e temporalmente.

Pode-se concluir que as formas como as relações dos personagens são desenvolvidas com a fita e as manifestações da natureza em Itomori remete à própria noção japonesa. Essa concepção reconhece tanto os limites da intervenção diante das suas manifestações naturais quanto valoriza os vínculos afetivos e ancestrais com os elementos da natureza, também integrados à manutenção da existência humana.

Referências

BROSCH, Tobias et al. The impact of emotion on perception, attention, memory, and decision-making. Swiss medical weekly, v. 143, p. w13786, 2013.

KAWAI, H. Dreams, myths and fairy tales in Japan. Daimon, 1995.

OKANO, M. Prefácio: Dô – Caminho da Arte. In: SHIODA, C. K. J; YOSHIURA, E. V.; NAGAE, N. H. (Org.). Dô – caminho da arte: do belo do Japão ao Brasil. São Paulo: Editora Unesp, 2013. p-9-14.

REZENDE, C. B.; COELHO, M. C. Antropologia das emoções. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010.

READER, I., ANDREASEN, E.; STEFANSSON, F. Japanese Religions: Past and Present. Folkestone : Japan Library. 1993.

SHINKAI, M; KOTONE, R. Your Name. Edição Única. Tradução de Karen Kazumi Hayashida. Editora JBC. 2021.

Your Name. Direção: Makoto Shinkai, Produção: Noritaka Kawaguchi e Genki Kawamura. Japão: Toho Company Ltd., 2016, 1 DVD.

Artigos Relacionados

Comentários