Dia dos namorados: O amor romântico nos mangás shounen!

Em nosso artigo anterior , destrinchamos algumas das características marcantes dos mangás shounen, dentre elas os relacionamentos entre o protagonista e os demais personagens. Nos shounen, a relação que vemos ser predominante é a de amizade, sendo muitas vezes uma das bases essenciais na construção narrativa da maior parte das histórias, mas isso não significa que demais relações e formas de amor estão ausentes. Não é incomum a presença de personagens com interesses românticos e formações de casais, o modo como essas relações se desenvolvem, contudo, é o que muitas vezes diferencia um relacionamento típico de um mangá shounen do que um tradicional shoujo, por exemplo.

[ATENÇÃO: SPOILER ]

  Texto contém spoilers do final de Bakuman, Fullmetal Alchemist e Shokugeki no Souma.

Amor idealizado como motivação e o amor manifesto como pilar

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Uma das histórias mais populares em que podemos ver relacionamentos amorosos sendo explorados desde o início é o mangá Bakuman, dos mangakás Tsugumi Ohba e Takeshi Obata, no qual acompanhamos a trajetória de Moritaka Mashiro e Akito Takagi, dois adolescentes que almejam se tornarem mangakás (autores profissionais de mangá). Além da realização profissional, Mashiro objetiva tornar-se mangaká para poder oficializar seu relacionamento com Miho Azuki, sua colega de colégio que está se preparando para se tornar uma dubladora. Os dois fazem a promessa de que, quando uma das histórias de Mashiro ganhar a versão de animê, Azuki dublará a protagonista, e somente quando esse sonho tiver se realizado, eles irão se casar e, até que essa meta seja alcançada, eles se irão se falar apenas por mensagens para assim se manterem focados em seus objetivos.

Mashiro já tinha, desde a sua infância, o desejo de se tornar mangaká, mas devido a história repleta de percalços de seu tio, na profissão, ele não conseguia ver como uma possibilidade real. O seu relacionamento com Azuki é, portanto, como uma motivação extra que ele precisava para encarar a luta pelo seu sonho. Um ponto interessante e importante a ser ressaltado é que não há dúvidas entre o sentimento de um pelo outro, por isso, ainda que a história tenha como um dos focos o relacionamento deles, não é no desenvolvimento ou dúvidas com relação ao afeto mas, sim, a trajetória que terão que percorrer para poderem, então, ficar juntos. O relacionamento de Mashiro e Azuki é, em muitos momentos, extremamente romântico e idealizado, e nós só veremos eles ficando juntos fisicamente no último quadro da obra, mas, ainda assim, situações em que eles demonstram a profundidade dos seus sentimentos no modo como apoiam um ao outro no desenvolvimento de suas carreiras. Um dos momentos mais emocionantes do mangá é justamente, quando Mashiro encontra-se hospitalizado, mas persiste em continuar trabalhando, e seu editor e mãe discutem em como ele deveria parar e descansar, ainda que isso implicasse no cancelamento do seu mangá, nesse momento, Azuki o ajuda a segurar o marcador que ele está usando para colorir uma página, esse é um momento importante porque até então eles não haviam tido contato físico por questões “românticas”, eles são muito tímidos e discretos quanto a isto, mas para ajudá-lo a cumprir com a sua missão, Azuki supera essa barreira auto imposta, pois é sobre isso que o relacionamento deles está construído: no apoio e motivação mútuos.  

Ao mesmo tempo que em Bakuman acompanhamos e torcemos pelo romance de Mashiro e Azuki, também acompanhamos o desenvolvimento da relação de Takagi com Kaya Miyoshi. Os dois iniciam o namoro após Miyoshi se demonstrar interessada por ele, ao mesmo tempo em que Aiko Iwase, a rival de Takagi no colégio, também o faz. A escolha entre as duas dá-se quando Takagi declara sua ambição de tornar-se mangaká e, enquanto Iwase se recusa a apoiá-lo, Miyoshi aceita a decisão do rapaz, ainda que isso implique em ele não ir para uma faculdade renomada ou ter uma profissão de status. O crescimento que Miyoshi passa a ter na história é incrível. Takagi deixa claro desde o início que ele não terá muito tempo para questões de namoro e que ele precisará se dedicar aos mangás, mas a garota não apenas o respeita,  como também passa a se envolver e ajudar no processo, primeiramente auxiliando a manter o estúdio dele e de Mashiro organizado, e depois ajudando na finalização das páginas dos mangás. Em outro momento bastante bonito da obra, quando os protagonistas recebem uma homenagem pelos 50 capítulos publicados na shonen jump, a editora envia flores e agradecimentos para Miyoshi reconhecendo a sua importância na serialização da obra. Takagi e ela possuem uma relação muito mais usual do que a de Mashiro e Azuki, pois eles têm encontros, contato físico, e inclusive no meio da obra, vemos eles se casarem. O que torna realmente interessante de acompanhar a relação deles é o modo como essa união impulsiona a concretização do sonho dele e de Mashiro de se tornarem mangakás bem sucedidos. Se Mashiro e Azuki são um exemplo do amor sincero que espera e motiva o futuro e o sucesso do outro, Miyoshi e Takagi são um modelo de que os relacionamentos não são necessariamente um empecilho que deve ser abandonado em nome de um sonho. Em Bakuman podemos ver que há diferentes modos de amor e de relações românticas e que, de acordo com a singularidade de cada um, todas podem levar ao crescimento e avanço pessoal. 

O amor como construção e apoio

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Um outro padrão que vemos acontecer nos shounen e que costumam formar os casais mais populares e queridos pelos leitores, são os casais que se formam de modo gradual e até inesperados. Por exemplo, temos os icônicos Bulma e Vegeta, um dos maiores plot twist que já tivemos; afinal, quem esperaria que o príncipe dos Sayajins fosse ficar com uma terráquea? Nós não vemos como “romanticamente” os dois se aproximaram e ficaram juntos, contudo, podemos observar como eles vão gradualmente se aproximando e como Bulma será responsável por ajudar não apenas na reabilitação social de Vegeta, mas mesmo no seu desenvolvimento enquanto guerreiro. Novamente, a beleza de acompanharmos a relação deles dá-se em ver como ela é fundamental para o crescimento de Vegeta. Outro exemplo é  em Fullmetal Alchemist, no qual temos Winry Rockbell e Edward Elric. Ainda que, nesse caso, desde o começo possamos suspeitar de um amor de infância, é ao longo da obra que Winry tem seus sentimentos românticos por Edward despertados (pelo menos de modo consciente), mas, desde o início da história, ela é uma das responsáveis pela recuperação de Edward, é aquela que lhe dá um braço e uma perna provisórios que os permite seguir em direção a realização do seu sonho de recuperar o corpo do seu irmão. 

O contrário também costuma sofrer uma certa rejeição por parte dos leitores: um exemplo é a relação de Sakura e Sasuke, de Naruto, principalmente antes do timeskip. Sakura ama Sasuke incondicionalmente, briga com sua melhor amiga e torna-se ninja apenas para poder ficar próxima do rapaz. Talvez, se pegássemos esse plot de forma isolada, até seria possível construir um romance interessante com ele, contudo, no contexto do mangá, essa relação não é muito bem digerida. Apenas estar ao lado e tentar chamar a atenção soa como uma motivação superficial. A menina não parece realmente conhecer Sasuke, e muito menos entende as motivações dele e/ou  o auxilia a alcançar a sua ambição. Tudo o que ela quer é tê-lo para si. Se pensarmos que ela é uma menina de 13 anos, isso até é compreensível, mas, novamente, pelo tipo da obra em que ela se encontra, o sentimento acaba parecendo um pouco deslocado.

É amor ou amizade?

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Diferentemente do que muitas vezes vemos ser dito, romances em shounen são bastante presentes, mas o modo como eles se manifestam é o que se difere, e pode causar a sensação de ausência para aqueles acostumados com a expressão do amor apenas em sua forma mais “apaixonada” ou física. Para compreender o modo como os relacionamentos se dão, é necessário resgatar o conceito de nakama, o de um amigo tão próximo quanto um membro familiar, alguém que é um verdadeiro companheiro. Podemos entender que esse conceito de relação de confiança e união se manifesta, também, nas relações românticas, os casais não são apenas apaixonados um pelo outro, eles são companheiros que irão se apoiar mutuamente sempre que precisarem, que irão fazer de tudo para ajudar o outro a realizar o seu sonho/meta. 

Às vezes, auxiliar um ao outro pode significar, inclusive, agir como rival. Em Shokugeki no Souma (Food Wars na edição brasileira), o pai do protagonista Soma Yukihira tenta o orientar desde o começo de que o segredo para se tornar um ótimo cozinheiro é “conhecer a mulher certa e dedicar tudo que cozinhar a ela”. Em pouco tempo o rapaz conhece Erina Nakiri, com quem o protagonista irá construir uma relação ao ponto de afirmar que deseja ter ela sempre perto de si como alguém a quem superar, pois assim ele mesmo continuará evoluindo, concretizando o conselho de seu pai, mesmo que de modo não proposital. Apesar de em vários momentos da obra nos serem dados indícios dos sentimentos românticos entre os personagens, nós não os vemos se tornarem um “casal oficial”. Erina é alguém em quem Soma confia, se inspira e cuja aprovação final é essencial para se tornar o cozinheiro que ele deseja ser, e o fato de vermos eles se relacionando assim, já nos basta para entendê-los como um casal, pelo menos no que estamos acostumados a ver sendo desenvolvidos em mangás shounen. O romance físico, às vezes, pode ser apenas um detalhe dispensável perto de certos sentimentos e ações que os personagens desprendem um com o outro. 

Nos mangás shounen, acompanhamos o desenvolvimento do protagonista não apenas em questão cronológica e física, mas também a sua evolução psicológica e, muitas vezes, ainda que não de forma compulsória, relacionamentos românticos fazem parte desse processo de amadurecimento emocional. É natural, portanto, que nesses mangás também possamos observar como os personagens vivenciam essa forma de amar para se apoiarem e evoluírem. A manifestação dos romances irá variar, pois cada pessoa é singular e possui personalidades e sonhos únicos, e de modo semelhante a expressão do amor também é muito particular a cada pessoa. Pode ser um relacionamento idealizado quase ao ponto de ser platônico, ou bastante usual, pode até não se concretizar na forma de namoro/casamento, e no desenvolvimento do mangá podemos nunca ver alguma troca de carinho física íntima entre os personagens, mas sempre veremos esses casais cuidando, amparando (tanto de forma física quanto mental), e sendo leais um ao outro.

 

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Comentários

  1. Nadaja, parabéns pelo texto! Fiquei pensando em várias coisas enquanto lia, até mesmo não diretamente relacionadas.
    Por exemplo, me perguntei se existem mulheres protagonistas em produções shounen. Assisti/li pouca coisa, mas não consigo evocar uma protagonista em um shounen, talvez seja só falta de conhecimento mesmo. Mas em relação aos shoujos eu já consigo pensar naquela expressão “shoujo harém”, e inclusive tem animes/mangás que debocham do fato de o protagonista nessas situações ser totalmente sem graça e, mesmo assim, conquistar todas as meninas rs
    Mas, falando sobre a questão do romance, fiquei com a sensação de que a maioria esmagadora das produções shounen vai focar em relações heterossexuais. Me pergunto se isso tem haver com uma possível construção de masculinidade no Japão, ou se é por motivos de buscar vender melhor, ou mesmo um pouco de cada.
    De qualquer forma, relembrando shounens que já assisti e vendo teu texto, me parece evidente que o conteúdo “voltado para garotos” enfoca mais um aspecto de conquista, conflito, poder, e coisas relacionadas, já em relação a produções “voltadas para garotas” a coisa costuma girar mais em torno do romance. É como se as expectativas sobre os papeis sociais estivessem sendo reafirmadas de maneira sutil.
    Também penso sobre a questão do tipo de relacionamento, mas agora me refiro ao aspecto monogâmico. Confesso que não conheço nenhum animê/mangá que foge da lógica monogâmica. Mesmo nesses “shoujos harém” parece que impera a escolha de uma pessoa para compor o par romântico, como se a relação romântica só pudesse começar quando só há uma única pessoa. Na verdade parece que a própria lógica de jogos do gênero Visual Novel giram em torno desse conceito de monogamia, o que é curioso no mínimo. De toda forma, talvez seja até paradoxal esperar que uma relação romântica fuga do padrão monogâmico, uma vez que pode estar na própria fundação do romantismo a ideia da “alma gêmea” ou coisas afins.

    1. Olá, Dangelles! Muito obrigada pela leitura e pelo comentário com questões tão interessantes, até me inspirei para textos futuros. 🙂

      No Japão, se adotou essa política de demografias que visa produzir mangás que provoquem o máximo de identificação entre os persongens/histórias e os leitores de gêneros e idades diferentes. No caso dos shounens, o público que se busca são meninos jovens, e por isso a maior parte não só dos protagonistas, mas também dos personagens como um todo, será constituída por meninos na idade aproximada dos leitores que se busca fidelizar. Isso não é algo totalmente específico do mundo editoral dos mangás, na literatura, por exemplo, temos os livros voltados para o público infanto-juvenil, neles os protagonistas serão crianças e adolescentes, adultos existem, são importantes, mas a narrativa precisa partir das crianças/adolescentes para que haja uma identificação direta. Ainda assim, mesmo sendo uma minoria, pode-se encontrar protagonistas femininas mesmo em revistas de grandes editoras como a Ema de Yakusoku no Neverland (Shueisha) e a Lucy em Fairy Tail (Kodansha). Além disso, podemos perceber que apesar de personagens femininas não serem sempre as principais protagonistas, em certos arcos, elas tomam essa posição, como acontece nos flashbacks da Nami, no arco do Arlong Park, com a Robin, no arco de Water 7, e a Rainha Otohime da ilha dos Tritões, acho bem interessante que elas são as donas de suas narrativas.
      Além disso temos personagens como a Mikasa, de SnK, que é a soldado mais forte de sua turma (na verdade, entre os 10 mais, quatro são mulheres, quase metade) e luta lado a lado com o Levi que é o maior soldado da humanidade ou a própria Erina que cito nesse artigo que em vários momentos tem momentos de liderança, inclusive sobre o protagonista, entre outros exemplos em que as personagens femininas são essênciais para o desenvolvimento da história e do personagem. Claro, existem shounens que realmente apresentam uma falta de personagens femininas com uma maior atuação, mas também acredito que isso é mais relacionado ao estilo e experiência dos mangakás. O próprio Kishimoto-sensei, em uma entrevista, comentou que ele tem dificuldade em desenvolver personagens femininas.

      Não sou leitora de shoujo e por isso não conseguiria trazer (ou não) possibilidades que fogem desse padrão de romances. O que vejo muitos teóricos apontando é o quanto os conflitos se dão mais em uma esfera íntima, enquanto nos shounens os conflitos assumem uma plataforma de batalhas/conflitos externos. Nos shounens, as metas a serem alcançadas tendem (ainda que tenhamos exceções como Death Note) a requerer um desenvolvimento físico e de habilidades do personagem, mas não necessariamente implica que o objetivo é ter poder ou ser o mais forte. O Eren, por exemplo, em essência, deseja saber a verdade sobre o mundo e poder ser livre, o Naruto quer se tornar Hokage para finalmente ter a aceitação das pessoas da Vila, o Hinata quer se tornar um jogador completo, pois ele deseja jogar o máximo de tempo e de partidas possíveis, mas isso devido a sua paixão pelo Volêi.
      Quanto aos relacionamentos mono/poligâmicos, é bem provável que esteja vinculado à políticca editorial de se buscar abranger a identificação do maior grupo leitor possível. Mas, novamente, ainda assim é possível encontrar exemplos nas grandes editoras de relacionamentos não monogâmicos, o que agora lembro de cabeça é o personagem Tengen Uzui de Kimetsu no Yaiba. Na história, mostra que ele é casado com três mulheres, e a relação entre os quatro é retratada de uma forma bem diferente dessa coisa de harem, os quatro parecem se gostar bastante e não haver competição entre elas, por sinal as três são shinobis e são do tipo que vão para a linha de frente.
      Nossa, o comentário ficou GIGANTE, peço desculpas! É que achei o seu tão repleto de reflexões importantes, e o mínimo que poderia fazer seria reciprocar a atenção dada!
      Mais uma vez, obrigada!

      Abraços,
      Devahuti Dasi

      1. Sem problemas, Deva!! Amei teu comentário e teu texto!
        Acredito que há mesmo esse claro objetivo de gerar identificação, de repente se ver capaz por observar o personagem conquistando coisas e etc, e as conquistas são guiadas a partir do que seria pertinente para determinado gênero, talvez. Homens em relação à questão física e do espaço, mulheres em relação à emoções e relacionamentos, provavelmente.
        Mas acho interessante como que, na prática, a pessoa lê aquilo que mais é interessante pra ela, mas gostaria de ver mais mulheres protagonistas nesses tipos de histórias. Na verdade eu nem curto muito esses termos “shounen” e “shoujo” por questões de gênero.
        Tu parece conhecer muita coisa :0