Dia Internacional da Mulher: mulheres que revolucionaram a indústria dos mangás

Hoje se comemora o Dia Internacional da Mulher, então por que não relembrar algumas mulheres que marcaram a história dos mangás? 

Antes de falar de mangás, é preciso considerar que antes dos anos 80 as leis trabalhistas japonesas eram repletas de restrições para mulheres e que apenas com o fim dessas restrições as mulheres definitivamente adentraram em massa na indústria do mangá, por mais que o shoujo já fosse um gênero forte e presente.

Lá nas primeiras décadas do século XX surgiram as primeiras revistas shoujo (direcionadas a um público de garotas jovens), porém as histórias presentes eram majoritariamente escritas por homens. As temáticas giravam sempre em torno de romance ou moda e as personagens eram passivas e consideradas desinteressantes pelos críticos. Por conta disso até os anos 60 a audiência era muito pequena.

Inclusive, muitos desses escritores usavam o shoujo como uma “etapa” de início de carreira e após consolidarem um nome, migravam para revistas shounen, o que deixa bem nítido como o shoujo e o público feminino eram subestimados. Em contrapartida, Osamu Tezuka tentou mudar esse cenário com o mangá Princess Knight, que fugia das temáticas superficiais de “garotas sendo salvas por caras fortes” ao trazer uma protagonista que tinha um “coração masculino e um feminino” e fingia ser um príncipe para salvar o trono de um duque malvado, sendo assim sua própria heroína. 

Apesar dessa tentativa de Tezuka, foi apenas quando mulheres realmente começaram a escrever nas revistas shoujo e trouxeram uma diversidade de gêneros e temáticas que as revistas começaram a fazer um crescente sucesso, inclusive entre o público masculino, e atraíram a atenção de críticos. Vamos conhecer quem foram essas mulheres!

Machiko Hasegawa e Machiko Satonaka

É impossível falar de mulheres no mundo dos mangás sem falar de Machiko Hasegawa, a primeira mangaká japonesa a obter sucesso. Hasegawa é a criadora da história Sazae-san, iniciada em 1946 e publicada por décadas no jornal Asahi Shinbun. Sazae-san tinha um formato de tirinha e contava a vida da personagem Sazae-san, uma dona de casa japonesa. A história fez tanto sucesso que foi adaptada a uma série de rádio em 1955 e em uma animação semanal iniciada em 1969.

Apesar do sucesso de Hasegawa, ela foi uma imensa exceção. Não se viam outras mulheres mangakás no Japão até pelo menos os anos 60, que foi quando Machiko Satonaka ganhou um concurso da editora Kodansha e publicou o primeiro mangá escrito totalmente por uma mulher, Pia no Shouzou.

Yoshiko Nishitani e Hideko Mizuno

Outras duas mulheres notáveis foram Yoshiko Nishitani e Hideko Mizuno. É possível dizer que ambas começaram nos anos 60 o processo de “pavimentação” do caminho que o shoujo trilhou mais tarde com o Grupo do Ano 24.

Nishitani foi quem criou os primeiros mangás com protagonistas adolescentes glamurosas em enredos recheados de tabus românticos. Já Mizuno, com sua obra Fire, publicada em 1969, trouxe um menino como protagonista e também quebrou tabus ao trazer cenas sexuais e um maior aprofundamento das relações humanas dentro do shoujo. 

Além disso, Hideko Mizuno também começou a apresentar um estilo artístico que depois foi aprofundado e popularizado pelo Grupo do Ano 24. Ela fugia daquela estrutura limitada dos quadrinhos e explorava a página inteira sem limites, criando assim certa fluidez visual.

Grupo do Ano 24 (24nen-gumi)

O chamado Grupo do Ano 24 é definitivamente o maior ponto de virada na trajetória do shoujo e da indústria dos mangás no geral. O grupo na verdade não um coletivo de mangakás ou algo do tipo, esse foi apenas um termo criado pela mídia para identificar coletivamente as mulheres que literalmente fizeram história nesse periodo. 

O nome deriva do 24º ano da Era Showa (1949), que representa bem o ponto em comum entre as mangakás do grupo: terem nascido neste ano. Não se sabe ao certo quantas mangakás fazem parte, mas os nomes “fixos” mencionados são sempre os de Moto Hagio, Keiko Takemiya e Yumiko Oshima. Outras autoras comumente incluidas no grupo são Riyoko Ikeda, Sumika Yamamoto, Ryoko Yamagishi, Ichijo Yukari, Minori Kimuta, Toshie Kihara e Yasuko Aoike.

Diversos mangás dessas autoras da época são hoje considerados clássicos, mas por que isso ocorreu e elas são consideradas tão revolucionárias?

O primeiro motivo é o aspecto visual e artístico dos mangás em si. Com o Grupo do Ano 24, todo o estilo de disposição, tamanho e formato dos quadros nas páginas mudou drasticamente para dar mais sensibilidade e representar artisticamente o psicológico dos personagens. Aquele clássico uso de flores nos fundos e o uso intenso de espaço negativo para deixar a cena mais emocional também começaram com essas ilustradoras. Uma curiosidade interessante também é que o estilo de personagens com características felinas nos mangás começou a partir do mangá Wata no Kunihoshi de Yumiko Oshima.

O segundo motivo são as temáticas e gêneros diversos dos enredos. Foi com elas que se popularizaram histórias de gêneros como ficção científica, histórico e aventura no shoujo. E em todas as suas histórias estavam presentes temas políticos, filosóficos e questões de gênero e sexualidade. Mangás do gênero genderbender, por exemplo,  podem ser considerados mais uma herança do Grupo do Ano 24.

O terceiro motivo é que foi a partir de diversas autoras dessa geração que nasceram os subgêneros de mangá shoujo mais conhecidos atualmente. Inclusive foi nessa mesma época que, com a alta demanda, surgiram mais revistas shoujo de serialização semanal.

Keiko Takemiya, Toshie Kihara e Moto Hagio, por exemplo, foram pioneiras na escrita de histórias envolvendo protagonistas gays. A maioria de suas histórias, porém, eram tragédias e traziam à tona tabus e temas pesados, como abuso sexual. Com a popularidade dessas histórias, surgiu posteriormente a demografia Boys Love (BL), também conhecida como yaoi. Inclusive o primeiro beijo entre homens em um mangá foi em na obra In the Sunroom de Keiko Takemiya em 1970, e a primeira cena sexual entre dois personagens masculinos foi em outro mangá da autora, Kaze to Ki no Uta.

Por outro lado, também temos Riyoko Ikeda, que foi quem iniciou a popularização do gênero yuri com seus mangás, que mostravam de forma natural uma aproximação afetiva e física entre garotas. Mas foi Riyoko Yamagishi, quem escreveu o primeiro mangá a ter um casal canônico de duas garotas, Shiroi Heya no Futari.

Tudo isso se soma e como resultado faz elas terem imensa importância, não só para a história do shoujo como para a indústria de mangás. Em outras demográficas, como josei e até mesmo shounen e seinen, é possível encontrar reflexos de efeitos visuais que foram criados e introduzidos no mercado por essas mulheres. 

Também foi devido aos trabalhos de Moto Hagio que hoje temos a Comiket, considerada a maior convenção de comics do mundo atualmente. Essa afirmação se dá pois foi um círculo de doujinshi chamado Meikyu, que surgiu com o objetivo de estudar os trabalhos de Moto Hagio, quem criou a Comiket.

Riyoko Ikeda

Riyoko Ikeda é uma das consideradas integrantes do Grupo do Ano 24, mas merece um destaque especial pelo sucesso global que fez com seu mangá, que hoje é um dos grandes clássicos do shoujo, Rosa de Versalhes (Berusairu no Bara).

A grande maioria de seus trabalhos são do gênero histórico, e pode-se dizer que ela é praticamente a representante desse gênero dentro do shoujo. A sua popularidade adquirida fora do Japão também se deve muito pela abordagem de eventos históricos europeus, como a Revolução Francesa e a Revolução Russa. 

Além dos cenários estrangeiros, ela também é famosa por seus personagens de aparência andrógina e reflexões acerca de gênero. Oscar, a protagonista de Rosa de Versalhes, por exemplo, é uma garota de aparência andrógina que foi criada por seu pai como um garoto para que pudesse suceder a tradição militar da família se tornando o melhor militar da França. A popularidade desse mangá foi tão grande que a obra não apenas ganhou uma adaptação em mangá, como também um filme live-action e diversas versões em teatro Takarazuka.

Mas o sucesso de Ikeda e suas primeiras publicações não foram fáceis ou mero golpe de sorte. Ela contou em uma entrevista (traduzida pelo blog Shoujo Café) sobre como foi difícil convencer seus editores a publicar um mangá histórico sobre Maria Antonieta e, principalmente, largar tudo para se dedicar em uma indústria majoritariamente masculina que impunha diversos obstáculos sobre seu trabalho.

“Eu tinha certeza de que a história de uma garota que havia sacrificado sua infância e sonhos iria atingir o coração de todos […] As mulheres que estavam no mercado de trabalho começaram a se identificar com ela no Japão” [Tradução de Shoujo Café]

Independente de receber metade do salário de um autor homem e encarar o sexismo diariamente, Riyoko Ikeda cresceu muito mais do que a maioria dos homens da época, publicou histórias que iam contra normas sociais conservadoras e, ainda hoje, com mais de 70 anos, é aclamada pelo seu trabalho.

Rumiko Takahashi

Fugindo do campo do shoujo, temos uma grande mulher que fez história no shounen: Rumiko Takahashi! A autora é considerada a mangaká mais rica do Japão e também a mulher com mais comics vendidas na história. Seus trabalhos mais famosos são Ranma ½ e Inuyasha.

Como muitas mulheres da época, ela começou através da publicação de doujinshis em 1975 e veio a publicar seu primeiro trabalho, o premiado mangá Katte na Yatsura, em uma revista profissional no ano de 1978. Já começando com um sucesso, ela logo começou a ser publicada em uma revista shounen semanal e a poder desenvolver trabalhos mais longos.

Porém foi apenas mais tarde, ao final dos anos 80 e início dos anos 90, que Rumiko Takahashi alcançou reconhecimento global e começou a caminhar para o status que tem hoje. Em 1987 ela começou a publicar seu terceiro mangá seriado, Ranma ½, e foi esse título, adaptado em anime dois anos depois, que levou seu nome para o exterior e abriu espaço para diversos outros títulos na mídia americana. Se nos anos 90 e 2000 nós tivemos tantos animes invadindo as telinhas brasileiras e mangás chegando às nossas bancas, isso se deve, principalmente, a Rumiko Takahashi!

CLAMP

Por último mas definitivamente não menos importante, falemos do CLAMP um coletivo que atualmente conta com 4 mangakás, apesar de ter iniciado com 11 integrantes. O grupo iniciou em meados dos anos 80 como um círculo de doujinshi e hoje é um dos nomes mais conhecidos, sendo frequentemente referido como “representante do shoujo”. Quando se fala em shoujo é realmente impossível o nome CLAMP não vir em mente!

As quatro integrantes atuais são Nanase Ohkawa, responsável pelo enredo de basicamente todas as histórias, Mokona, Tsubaki Nekoi e Satsuki Igarashi, as artistas que levam as histórias de Ohkawa para o papel. Até o momento elas possuem mais de 30 trabalhos originais publicados, além de uma lista extensa de doujinshis, participações em colaborações e títulos adaptados para anime.

O mangá que pode ser considerado o mais famoso do grupo é Sakura Cardcaptors, um clássico da infância de muitos brasileiros. Apesar disso, o CLAMP definitivamente não se restringe a histórias de romance inocentes com garotas mágicas. O grande diferencial do grupo é justamente a sua capacidade de trabalhar com qualquer gênero ou tema. Aventura, mistério e sobrenatural são gêneros recorrentes nos trabalhos do CLAMP, mesmo que o romance e o destino ainda sejam os temas proeminentes. Dois exemplos de mangás do grupo, bastante conhecidos no Brasil, que fogem desse clássico “shoujo inocente de romance” são xxxHolic e X. Ambos trazem um enredo mais emocionalmente pesado e são direcionados a um público adolescente ou adulto.

Além de diversidade nos gêneros, o grupo também explora um assunto diferente para cada história, nunca repetindo a mesma mensagem, mas sem fugir de seus temas recorrentes: a vida e o destino humano. E se tem algo que o coletivo não tem medo é de expressar opiniões e visões pessoais! É possível saber exatamente quais são as crenças de Ohkawa ao ler os mangás do CLAMP. Certas visões, inclusive, são bastante polêmicas e absurdas de um ponto de vista moral. Se por um lado Ohkawa aborda com naturalidade e de forma saudável o amor entre pessoas do mesmo gênero, por outro temos algumas histórias bastante desagradáveis com relacionamentos entre adultos e crianças ou entre adultos com uma ampla diferença de idade que pode ser incômoda para muitos leitores.

Se tratando do aspecto artístico, a marca do CLAMP também é presente. A depender do público alvo e da artista que fez o primeiro rascunho, o visual pode mudar, mesmo assim sem perder a identidade do traço do grupo. A reutilização de personagens também é algo comum em seus mangás, mas isso não é necessariamente algo ruim ou preguiçoso. Essa aparição eventual de personagens já existentes dá um toque especial ao grupo, sugerindo a existência de um “Universo CLAMP”, divertindo os fãs que ficam sempre de olho para tentar encontrar referências.

Um dos aspectos artísticos mais interessantes do grupo, e que inclusive se tornou comum em muitos trabalhos de outros mangakás, é a representação de sentimentos como solidão, confusão, loucura, choque ou algum trauma através de personagens desenhados com apenas um olho ou que perdem a visão de um dos olhos. Teoriza-se que a inspiração para isso veio da baixa visão de Ohkawa no olho direito, mas é interessante observar como diversos trabalhos posteriores ao CLAMP utilizam dessa representação.

Concluindo…

Graças às primeiras grandes mangakás lá dos anos 60 e 70, que abriram portas para a entrada de novas mulheres no mercado ao contarem suas próprias histórias através da arte, hoje temos cada vez mais autoras sensacionais publicando seus primeiros trabalhos e alcançando um sucesso insano. Um grande nome atual, que com certeza merece ser mencionado aqui, é o de Koyoharu Gotouge, responsável pelo mangá mais vendido do mundo atualmente, superando até mesmo One Piece nas vendas, Demon Slayer (Kimetsu no Yaiba). Se tem algo que provavelmente nem a autora imaginaria é que ela alcançaria tal feito em seus 30 anos logo na sua primeira série longa!

Fora os grandes nomes mencionados acima, temos muitas outras mulheres orgulhando Riyoko Ikeda e conquistando o meio com salários iguais aos dos homens. É se inspirando nelas que o Minuto Otaku deseja a todas vocês leitoras deste artigo um feliz Dia Internacional da Mulher! Que a cada dia que passa mais mulheres realizem seus sonhos e ocupem ambientes predominantemente masculinos!

Referências

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Comentários

  1. Lori, parabéns pelo texto! Eu não imaginava que já existiam tantas mulheres profissionais, produzindo mangás tão famosos! Você me fez refletir sobre o quanto é importante valorizarmos tanto as obras como também as autoras que dedicam seus esforços nessas produções! Eu fiquei curiosa para saber se algumas dessas autoras precisaram abrir mão de algumas vivências pessoais, como o casamento, para se dedicarem a esses trabalhos que requerem tanto tempo de desenvolvimento. Lori, seria um máximo se você escrevesse sobre a obra da mangaka brasileira Adriana Iwata! Ela produziu um mangá chamado Sigma Pi, já disponível na internet, pelo qual sou apaixonada!