Haikyuu: o novo mangá da JBC que vai prender você

Em ritmo de Olimpíadas, vamos dar uma olhada em Haikyuu, uma obra envolvente, de alta qualidade técnica e muito divertida que nos mostra um outro modo de viver o voleibol, esporte presente nos jogos de Tokyo 2020.

Como pesquisadora de mangás shounens me propus a ler, pelo menos, os mangás que estivessem no top 10 de vendas. Haikyuu foi um dos que mais prorroguei para ler. Não conseguia imaginar como um mangá sobre vôlei poderia ser interessante, e, ainda por cima, como já havia acompanhado a seleção brasileira, também não conseguia pensar em como o mangá poderia me impressionar, uma vez que nossa seleção é uma das melhores do cenário mundial. Foram, pelo menos, quatro anos de resistência até finalmente dar uma chance para os Corvos.

Não foi um amor à primeira vista, talvez porque estava focada em fazer uma leitura mais técnica, analisando como nosso querido protagonista, Hinata Shoyo poderia se encaixar no meu projeto de intervenção, mas não demorou muito para que eu fosse completamente envolvida pelo mangá de Furudate-sensei. Em duas semanas devorei os 390 capítulos publicados na época e, desde então, Haikyuu se tornou uma leitura constante para não dizer diária. Como uma história com uma premissa tão “simples” é capaz de suscitar um apego tão grande nos seus leitores? O que há, na obra, de tão envolvente que colocou o mangá durante 8 anos consecutivos no top 10 de mais vendidos no Japão?

Um mangá que nos faz sorrir


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Nos esportes, apenas um time pode vencer e no voleibol não há empate, sendo assim, de forma constante, acompanhamos a derrota de alguém e muitas vezes também temos as histórias comoventes e pessoais dos jogadores sendo exploradas em meio aos jogos. A obra, contudo, sempre tem uma parte que nos faz rir (várias vezes gargalhar) não importando o quanto dramático e tenso o capítulo tenha sido, quase como se estivesse nos ensinando que não importa a situação em que estejamos, sempre podemos encontrar um motivo para sorrir.

A tensão, várias vezes, domina a história, e ainda assim, nem que seja por alguma expressão facial de um dos personagens, iremos rir. Ou seja, é um mangá “gostoso” de se ler, que sabemos que poderá nos levar a grandes emoções, inclusive tristes, mas que ainda assim trará momentos agradáveis.

Uma jornada pelo autoconhecimento


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Que os mangás shounen costumam ter personagens cujo desenvolvimento é o principal mote, já é algo conhecido por nós e, inclusive, já explorado em outro artigo. O diferencial dessa “fórmula”, em Haikyuu, é que o grande desafio que veremos ser superado, pelos protagonistas, será muito mais no plano das emoções do que no técnico.

A principal desvantagem de Hinata (personagem principal) é apresentada na sua baixa estatura, mas isso, ao mesmo tempo, já é “resolvido”, desde o início, pela sua grande agilidade física e determinação, “ele pode voar” e assim superar essa barreira fisiológica. Se formos analisar, contudo, o que realmente impedia o crescimento do protagonista era a solidão. Sem um time, sem veteranos e sem um técnico, com quem pudesse contar e aprender, em três anos o menino só pode jogar uma única partida durante o ensino elementar. Ele era sozinho em seu objetivo e , mesmo tendo amigos que o auxiliavam, não era o mesmo que fazer parte de uma equipe.

Em contraponto, temos Kageyama Tobio. O levantador prodígio, quase perfeito em sua técnica, titular em uma das escolas mais tradicionais e que mesmo tendo companheiros de time habilidosos também experiência uma enorme solidão que o impede de avançar. Ele não consegue estabelecer uma boa comunicação e, muito menos, vínculos com os outros jogadores e, por isso, acaba derrotado. Kageyama não tem uma dificuldade física que o impede de obter a vitória, ainda assim, a sua imaturidade emocional e a falta de confiança entre seus companheiros de time, o conduz a um caminho de frustrações e decepções.


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Hinata e Kageyama encontram, primeiramente, um no outro alguém que possa suprir suas necessidades de companhia. Ainda que rivais, não há ninguém que compreenda tão bem os sentimentos um do outro, além disso, mesmo em questão técnica, quando juntos eles tornam, um ao outro, “o mais forte”.

A inclusão deles no time de 2012 do Colégio Karasuno é o evento que os transforma de modo significativo por toda a sua vida. Com seus companheiros do colégio Karasuno, Kageyama finalmente consegue estabelecer laços de confiança, respeito e consideração.

Por meio de tais vínculos é que Kageyama rompe com o trauma que o impedia de seguir em frente e explorar o seu potencial ao máximo, sabendo que não será mais deixado sozinho. Ainda que não muito hábil com as palavras, ele aprenderá como expressar quem ele é de um modo que não crie uma barreira entre ele e os seus companheiros.

Hinata, em contraponto, após finalmente ter companheiros e um time que o permite ir além em campeonatos, acaba encontrando em si mesmo um novo desafio. No mangá, acompanhamos ele aprender a conquistar a própria mente e a respeitar os domínios do seu corpo. No final, a altura e a técnica são desafios que a agilidade e a experiência podem sanar, contudo, o autocontrole e a consciência corporal são elementos que mais do que o tempo é necessário, mas, sim, uma grande força de vontade em aprimoramento pessoal.

Hinata inicia a história querendo tomar para si o título de “pequeno gigante” o jogador que o inspirou, contudo, conforme adquire experiência, ele percebe que tem seu estilo próprio de jogar, um papel único e deixa de lado a ambição de ser como alguém que admirava, para assumir uma identidade própria e singular como “the greatest decoy” que no início ele tanto rejeitava.

Ambos os protagonistas precisam de forma primordial conhecer suas dificuldades internas antes das externas. Suprir a solidão, se conhecer, estabelecer vínculos, dominar a impulsividade Essas são as ações realmente necessárias para o seu desenvolvimento e que têm muito mais relação com o conhecimento de si do que com habilidades físicas, pois somente tendo esse trabalho interno é que irão se tornar os jogadores que “mais ficam na quadra”.

A arte de Haruichi Furudate


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Seria muito fácil um mangá onde não há superpoderes ou designs fantasiosos e cujos principais cenários são quadras de vôlei, se tornar maçante e enjoativo. A habilidade técnica de Furudate-sensei, contudo, impede que tais sensações se façam presentes.

Um dos principais fatores que contribuem para tornar as cenas de Haikyuu dinâmicas e surpreendentes é o uso de uma variedade de enquadramentos que contemplam diversos ângulos da partida. Esses enquadramentos geralmente são acompanhados de um desenho muito bem executado dentro de uma perspectiva que, muitas vezes, é até exagerada ao ponto de criar distorções (diversos pontos de fuga), que faz com que possamos sentir toda a adrenalina e ação que acontece na quadra. Em diversas ocasiões, o autor coloca a visão do leitor rente ao chão, como se estivéssemos vendo o jogo pelos olhos do líbero, por exemplo, que acabou de receber uma cortada. Outras vezes, Furudate-sensei usa uma vista de cima para baixo, mostrando como determinado jogador, ao pular para fazer um ponto, torna-se maior que a rede que anteriormente parecia intransponível. Também vale observar como a bola é representada nas cenas: sempre indicando um rastro gráfico que descreve a direção e o impacto da ação.


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As deformidades expressivas escolhidas pelo autor chamam a nossa atenção. Seria seguro dizer que em cada capítulo vemos ao menos um personagem com uma expressão nova. De certo modo, há uma surpresa nos aguardando a cada leitura.

Um final perfeito


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[ATENÇÃO: SPOILER ]

A finalização de uma obra é sempre um momento de temor para os leitores, que passam anos cultivando a expectativa de qual será o “destino final” dos personagens. Haikyuu, contudo, parece ter terminado no momento certo e de um modo que gerou pouquíssimas críticas negativas, e deixou os leitores já ansiosos pela próxima obra do autor.

Particularmente, pensei que o mangá duraria ainda muitos anos, afinal, Hinata e Kageyama estavam recém no primeiro ano. Mas, depois de me surpreender com um abrupto Time Skip, consegui entender o que a história realmente queria narrar: o quanto aquele time, companheiros e mesmo rivais específicos do ano de 2012, foram essenciais para o crescimento de Kageyama e Hinata. Não era sobre contar toda a trajetória para se tornarem os melhores jogadores do mundo, mas, sim, sobre como certas pessoas e relacionamentos conseguiram ajudar eles a se tornarem conscientes de si e a superarem muitos dos seus obstáculos internos. Além disso, ver a relação de Hinata e Kageyama ora como os melhores parceiros ora como os maiores desafiantes também foi algo bonito de se acompanhar, um relacionamento diferente, um tipo de amizade que não necessita que se esteja sempre lado a lado, e que é motivo de constante crescimento e apoio recíproco.

Novamente, a habilidade de Furudate-sensei de pensar em cada um dos seus personagens se mostrou presente. Nos capítulos finais, ele mostrou o que aconteceu, 5 anos depois, com inúmeros personagens, e ver essas figuras tão queridas não sendo esquecidas é algo que nos faz ter um sentimento nostálgico e de apreciação pelo autor. É claro que gostaríamos de ter visto mais, mas talvez seja esse o melhor modo de se finalizar uma grande história. O que era essencial que soubéssemos para que ela tivesse uma finalização digna nos foi mostrado e o gostinho de “quero mais”, e não de exaustão, é o que prevaleceu.

Haikyuu é uma obra que impactou a minha vida ao ponto de se tornar algo integrante do meu dia a dia. Os personagens me inspiram e fazem sorrir mesmo em dias muito difíceis. Em vários momentos vejo-me repetindo frases do mangá em situações mais diferentes possíveis. E o sentimento que tenho toda vez que termino de reler a obra, é sempre o mesmo, e que é perfeitamente descrito pelo personagem Kozume Kenma:

“Não é como se tivéssemos cruzado uma grande aventura por um mundo de fantasia, apenas corremos em círculos em um retângulo de 18 metros de distância e 9 metros de largura, tentando desesperadamente fazer com que a bola caia em um dos lados e não em outro. E ainda assim foi a maior diversão que tive na minha vida.”

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