Recomendações de mangás e animes com representatividade LGBTQA+

Junho é o mês que se comemora internacionalmente o Orgulho LGBT , também conhecido como Pride Month. Mas você sabe o motivo para essa data?

Em 28 de junho de 1969 ocorreu o levante de Stonewall, em um bar de mesmo nome em Nova York. Foi uma rebelião contra as violentas abordagens policiais que aconteciam com frequência contra pessoas LGBTQA+ que frequentavam o local, que era um dos únicos bares voltados exclusivamente para essa população. No dia 28 em si a abordagem foi diferente do “comum”, mais agressiva, e por isso houve bem mais resistência também. Diante de uma polícia truculenta estava uma população já desgastada de tanta violência e desrespeito, de ver tantos dos seus sendo presos por na época ser considerado crime o ato de se travestir.

Desde então, no dia 28 de junho é comemorado o Dia Internacional do Orgulho LGBT e o mês de junho por inteiro é separado por pessoas queer para celebrar a existência das pessoas das mais diversas identidades que fazem parte dessa comunidade e que historicamente lutam pelo direito de viver, de se expressar e de simplesmente existir sem serem vítimas de violência e desrespeito. É um momento de afirmação, positividade e, principalmente, memória de todas as pessoas que lutaram para que hoje o mundo pudesse ser um lugar um pouco mais seguro para pessoas LGBTQA+.

No Japão, porém, as celebrações LGBTQA+ são realizadas um pouquinho antes, geralmente ao final de abril, antes do começo do verão. Desde 1994 a Tokyo Rainbow Pride (TRP), a maior parada do orgulho no Japão, é celebrada em uma marcha de aproximadamente 3 km ao redor de Harajuku e Shibuya. Anterio a parada em si geralmente também ocorre o Rainbow Week, que é uma semana inteira de eventos relacionados à comunidade LGBTQA+. A TRP ocorre ao fim desta semana para finalizar esses eventos de uma forma mais grandiosa, visando a promoção de conscientização e igualdade. 

Assim como o bar de Stonewall, no Japão também existem diversos bares voltados à população LGBTQA+ e a área em que mais se concentram, e também a considerada mais segura para pessoas LGBTQA+ se expressarem no Japão, é Nichome em Shinjuku. Lá se encontram cerca de 300 bares e ambientes voltados inteiramente ou com dias específicos exclusivos para essa população. 

Em se tratando de direitos e igualdade LGBTQA+, o Japão, mesmo sendo considerado um país de primeiro mundo e muito avançado economicamente, ainda é visto como um país bastante atrasado nesse quesito. Um exemplo disso é que enquanto no Brasil o casamento entre pessoas do mesmo gênero já é efetivamente permitido desde 2013, no Japão essa conquista só se deu esse ano, em março. Por outro lado, a violência contra pessoas LGBTQA+ acaba sendo menor por lá por conta dos hábitos do povo japonês em geral, que é mais reservado quanto a demonstrações de afeto em público, seja entre casais de qualquer sexualidade ou mesmo pais, filhos e irmãos. 

Após essa breve contextualização podemos enfim dizer que se hoje temos no mundo todo séries, filmes, livros, animes e mangás com personagens LGBTQA+ sendo representados de forma respeitosa, com suas vivências diversas sendo efetivamente colocadas em enredos sem estereotipagem violenta, isso é graças a essas pessoas que vem de antes de Stonewall até hoje nas paradas de Orgulho, se fortalecendo e lutando por respeito.

Para celebrar esse mês, que tal conhecer alguns mangás e animes que contemplam, ainda que de forma fictícia, a vida de personagens lésbicas, gays, bissexuais, assexuais e trans binárias e não binárias?

L

Imagem/Divulgação

Começando já com a primeira letrinha da sigla, resolvi trazer 4 obras que possuem anime, mangá ou ambos e, claro, tem protagonistas lésbicas

  • Bloom into You (Mangá / Anime)

Bloom Into You é sem dúvidas o meu yuri favorito então não poderia ficar de fora dessa lista! O mangá trata da história de Koito Yuu e Nanami Touko, duas estudantes do ensino médio que vão aos poucos descobrindo o amor por meio de uma relação cheia de dúvidas, inseguranças e confusões. A obra é completa em 8 volumes e está sendo publicada pela Panini desde abril deste ano.

  • Adachi to Shimamura (Mangá / Anime)

Assim como Bloom Into You, Adachi to Shimamura é uma história com um desenvolvimento mais lento. No final do ano passado o mangá, que é adaptação de uma light novel, ganhou um anime e ainda é um título inédito no Brasil. Adachi to Shimamura trata dos diversos sentimentos relacionados a um primeiro amor na adolescência como inseguranças, ciúmes, ansiedade, impulsividade e muitos outros. 

  • Otherside Picnic (Mangá / Anime)

Fugindo um pouco dos Slice of Life, Urasekai Picnic é um yuri de ficção científica que também recebeu um anime em 2020. O anime porém não é tão interessante quanto o mangá, confesso. Deixo essa recomendação por ser além de tudo uma obra bem interessante, complexa e com muita ação, fugindo um pouco do que estamos mais acostumados a ver dentro do gênero yuri

  • Minha Experiência Lésbica com a Solidão (Mangá)

Esse mangá definitivamente não poderia ser deixado de fora de uma lista de mangás que abordem a lesbianidade! A obra autobiográfica conta a história de Kabi Nagata e sua árdua entrada no mundo adulto enquanto lida com variadas questões psicológicas, desemprego e, claro, a descoberta da própria sexualidade. O mangá é publicado no Brasil e foi resenhado aqui no Minuto Otaku pela Belissa!

G

Imagem/Divulgação

Partindo para a segunda letra, vamos aos mangás com representatividade gay? 

  • Uchi wo Musuko wa Tabun Gay (Mangá)

Minha primeira sugestão é um mangá cuja protagonista é na verdade a mãe do personagem principal! My Son is Probably Gay é o mangá que vai fazer você chorar por querer ter uma mãe tão preciosa quanto a do Hiroki. A obra possui capítulos curtinhos que contam a história de Hiroki, que ainda está no armário, pelo ponto de vista da mãe, que está fazendo o possível para deixar seu filho confortável para lhe contar seu segredo.

  • Until I Meet My Husband (Mangá)

Assim como Minha Experiência Lésbica com a Solidão, Until I Meet My Husband também é uma história biográfica! Baseado na história de Ryosuke Nanasaki, um ativista gay japonês, a obra trata de sua vivência desde a infância e adolescência até o momento em que enfim conheceu aquele que veio a ser seu marido. 

  • Umibe no Étranger (Mangá / Filme) e Harukaze no Étranger (Mangá)

Juntei duas recomendações em uma por serem histórias complementares. Umibe no Étranger tem apenas 1 volume que foi adaptado em 2021 para filme, licenciado oficialmente no Brasil pela Crunchyroll. Mas para quem se encantou com a história de Mio e Shun, a história continua em Harukaze no Étranger, que tem um foco maior em questões familiares e nas dificuldades de ser abertamente gay em uma sociedade normativa. Ambos os mangás ainda são inéditos no Brasil.

  • Given (Anime / Mangá)

Fechando as recomendações de mangás com protagonistas gays eu trago então um já bastante conhecido e recém publicado no Brasil pela Editora NewPOP! Given é um dos mangás Boys Love de maior sucesso atualmente e conta a história de Mafuyu e Uenoyama, colegas de classe que posteriormente se tornam colegas de banda e por fim namorados. A história trata de assuntos bastante pesados e delicados, como suicidio e relacionamento abusivo, mas dilui essas situações em cenas divertidas com comédia e muita música. 

B

Imagem/Divulgação

Temos uma imensa variedade de yuris, yaois e outras histórias com protagonistas que se relacionam exclusivamente com pessoas do mesmo gênero, mas onde ficam os bissexuais nesse meio? 

  • Blue Flag (Mangá)

É um pouco mais raro encontrar mangás que abordem a bissexualidade, especialmente mostrando personagens bi em relacionamentos com pessoas de gênero diferente ao seu, mas Blue Flag é um shounen que nos ofereceu isso. Ao abordar temas relacionados a sexualidade de uma forma super natural, o mangá surpreendeu por ser um “shounen da Jump” com protagonismo bissexual. Completo em 8 volumes e recém anunciado pela Editora Panini, esse também é um dos meus grandes favoritos! 

  • Otona ni Nattemo (Mangá) e Aoi Hana (Mangá / Anime)

Com uma perspectiva de protagonismo bissexual feminino temos esses dois mangás da autora Takako Shimura, bastante conhecida por trazer historias yuri mais maduras. Otona ni Nattemo, por exemplo, tem como protagonistas duas mulheres adultas, fugindo daquele contexto mais comum de garotas colegiais. Aoi Hana, provavelmente o mangá e anime mais conhecido de Shimura, já entra mais no clichê de romance colegial.

  • Here U Are (Manhua)

Fugindo um pouquinho de animes e mangás mas ainda falando de quadrinhos, Here U Are é um excelente manhua (história em quadrinhos chinesa) de romance que conta a história de Li Huan e Yu Yang. A bissexualidade é um tema explicitamente abordado ao longo da história, em geral com um viés mais crítico à própria bifobia de alguns personagens, então fica a recomendação e o alerta de conteúdo!

T (binário)

Imagem/Divulgação

Adentrando nas tags do gênero de mangá genderbender há um número expressivo de histórias com protagonistas crossdressers ou que por algum motivo acabam acordando com gênero trocado etc. Porém encontrar uma representatividade trans em si acaba sendo uma tarefa um pouquinho difícil, mas não impossível!

  • Boys Run the Riot (Mangá)

Começo então com a indicação de um mangá bem recente e já bastante popular, Boys Run The Riot. A história, que ainda está sendo publicada e é escrita por um autor trans, é protagonizada por Ryo, um garoto trans não assumido que encontra na moda seu conforto. Um dia Ryo está secretamente comprando suas roupas quando Jin, o novo estudante transferido de sua classe, o encontra e, ao contrário da reação negativa que Ryo esperava, ele propõe que ambos desenvolvam uma marca de roupas. 

  • Bokura no Hentai (Mangá)

Apesar do “hentai” no título essa história não é do gênero hentai! Achei esse mangá interessante quando li por tratar da intersecção de 3 vivências totalmente diferentes quanto ao crossdressing. O mangá conta a história de um grupo composto por Marika, uma garota trans não assumida, Parou, garoto que se veste de garota para atrair seu crush, e Yui, um garoto que adotou a persona de sua irmã mais velha falecida. O mangá pode ser gatilho por tratar de transfobia em diversos momentos, então fica o alerta!

  • Kanojo ni Naritai Kimi to Boku (Mangá)

Esse é um mangá que mescla questões mais pesadas, como transfobia, com o desenvolvimento de um romance e uma protagonista que trás um tom de alívio cômico na sua narrativa. A história é sobre uma garota trans que está entrando no ensino médio logo após sair oficialmente do armário e é narrada por sua melhor amiga, que está paralelamente lidando com seus próprios sentimentos de uma paixão que surge em um momento nada conveniente. A obra é finalizada em 4 volumes e é uma leitura ao mesmo tempo crítica e divertida.

  • Paradise Kiss (Mangá / Anime)

ParaKiss é um mangá de Ai Yazawa considerado clássico mas que, apesar de ser mais antigo, já tratava claramente de questões LGBTQA+, trazendo um personagem bissexual e uma personagem trans. Assim como Boys Run The Riot, a história gira em torno da moda e, apesar de não ter protagonismo trans, questões como preconceito e o ser queer (excêntrico, estranho) são um dos pilares da obra. Para quem curte clássicos e procura algo com representação transParadise Kiss é com certeza uma grande indicação.

  • Menções especiais: Yuukoku no Moriarty (Mangá / Anime) e Jouran The Princess of Snow and Blood (Anime)

Ambos são animes que estão saindo nessa temporada atual, por isso separei um espacinho para recomendá-los. Na segunda temporada de Moriarty finalmente foi introduzido um personagem que, apesar de não ser explicitamente dito no anime, pode ser lido como homem trans pela abordagem tomada. Já Jouran é um anime original ligeiramente inspirado no mangá Lady Snowblood, que eu pessoalmente não imaginaria me deparar com um personagem trans, por ser do gênero histórico. Além da surpresa boa a representatividade em si foi até então bem trabalhada e bem colocada, ainda que de maneira implícita.

T (não binário)

Imagem/Divulgação

A não binariedade é uma identidade bastante invisibilizada de forma geral. Nos mangás, porém, sempre foi possível ver essa questão colocada de uma forma mais implícita em diversos clássicos shoujo, sendo uma interpretação possível sobre muitos personagens. Mas, para quem busca uma representação mais evidente e considerada canônica, abaixo listo algumas indicações.

  • Hoshiai no Sora (Anime)

Esse é um anime original de esporte (soft tênis) lançado em 2019. Hoshiai no Sora foi provavelmente o primeiro anime de esporte que eu assisti que colocou questões LGBTQA+ em foco, incluindo até uma cena de um dos personagens principais indo em uma biblioteca pesquisar o assunto em livros. A obra, que acho importante avisar ser bem pesada emocionalmente, aborda diretamente a não binariedade.

  • Fukakai na Boku no Subete wo (Mangá)

Esse mangá foi provavelmente o primeiro que eu li que tem como foco principal a não binariedade. Se passando em um maid café onde todos os empregados são originalmente garotos que se vestem de garota, diversas reflexões acerca de gênero e sexualidade são colocadas em pauta. Questões como leitura social, identificação pessoal e papéis de gênero são bastante trabalhadas em paralelo com um romance fofinho e cheio de positividade. 

  • Kino no Tabi (Mangá / Light Novel / Anime)

Para quem procura uma obra mais puxada para aventura, com protagonismo não binário, mas que o foco em si não é a não binariedade, Kino no Tabi é uma ótima opção. Kino não é uma garota ou um garoto, é apenas Kino, um viajante que conversa com sua moto (que também é seu maior parceiro), Hermes. A história conta suas jornadas conhecendo países diversos com as mais variadas leis, culturas e sociedades. É bastante interessante e repleto de reflexões.

  • Menção especial: Blue Period (Mangá / Anime) 

Com anime previsto para outubro deste ano, Blue Period é um mangá que, apesar de não ter enfoque no tema, trata explicitamente de questões de gênero. Logo no início da história já temos apresentado Yuuka, colega de classe do protagonista descrito como crossdresser. Apesar de não afirmarem que Yuuka é uma pessoa trans não binária, essa é uma leitura bastante possível para o personagem. A obra dedica alguns capítulos à história pessoal de Yuuka e sua relação com o próprio corpo e expressão de gênero de uma maneira muito delicada, emocional e reflexiva, por isso decidi incluir Blue Period nessa menção especial, mesmo não sendo uma representação canon!

Imagem/Divulgação

É impossível falar de representatividade LGBTQA+ em animes e mangás sem lembrar dos Shoujos, que abriram as portas para que demografias como BL e gêneros como Yuri surgissem e desafiaram a normatividade nos campos de gênero e sexualidade. Com isso em mente separei a letra Q, representante do termo guarda-chuva queer, uma seção especial apenas para essas 3 obras queridinhas do público que inclusive já foram publicadas no Brasil!

  • Revolutionary Girl Utena (Anime / Mangá)

Revolutionary Girl Utena foi realmente uma obra revolucionária para jovens garotas LGBTQA+. A persona de Utena Tenjou por si só já era revolucionária na época por ela ser uma garota que ia contra os estereótipos da feminilidade ao ser uma garota forte, independente e que se rebelava contra quaisquer normas que lhe fossem limitantes. O maior traço da personagem de Utena está inclusive no fato de ter seu próprio uniforme personalizado e baseado no uniforme masculino. Além disso, a história gira em torno da relação entre Utena, o selo da rosa e Himemiya, a noiva da rosa. 

  • Sakura Cardcaptors (Anime / Mangá)

Clássico que fez parte da infância de muitos de nós, Sakura Cardcaptors faz jus ao objetivo da CLAMP de trazer mangás que naturalizam o amor em diversas formas. Mesmo sendo de uma forma mais implícita, ainda sim é evidente que a relação de Touma e Yukito vão além de uma mera amizade. 

  • Sailor Moon (Anime / Mangá)

Sailor Moon foi um anime mais do que revolucionário se tratando de representações LGBTQA+. Com personagens que quebram os estéreotipos de gênero, cenas românticas entre garotas e a própria Usagi podendo ser lida como bissexual, tudo isso passando nas televisões nos anos 90. Não foi atoa que, infelizmente, o anime sofreu censura em vários países, como o Brasil. Apesar disso, a naturalidade com a qual o afeto entre pessoas do mesmo gênero e as quebras de papéis de gênero que eram mostradas na história original se mantiveram perceptíveis e, assim, muitas jovens brasileiras LGBTQA+ ainda puderam se identificar com as personagens nesses aspectos.

A

Imagem/Divulgação

Assim como a não binariedade, a assexualidade e a arromanticidade, ambas ocupantes da letrinha A, são identidades muitas vezes apagadas e deixadas de lado em debates LGBTQA+. Se tratando de representatividade, o cenário não é muito diferente, porém ainda assim é possível encontrar algum conteúdo com personagens assexuais e um pouco mais raramente, arromânticos

  • Shimanami Tasogare (Mangá)

Esse é sem dúvidas o mangá com a maior diversidade de representatividade LGBTQIA+ que eu já li. A obra de Yuhki Kamatani (que inclusive é assexual e não binário) aborda com muita sensibilidade assuntos que rodeiam as vivências queer no Japão. A personagem Anônima foi a primeira e única representação assexual arromântica explícita que encontrei em um mangá até o momento. Para quem tiver maior interesse em conhecer a obra, teremos em breve um artigo dedicado apenas à Shimanami Tasogare!

  • Menção especial: Ore Monogatari!! (Mangá / Anime)

Como dito anteriormente, a representatividade assexual em mangás é bastante escassa, por isso a comunidade ace acaba se apegando bastante aos famosos headcanons. Um dos headcanons mais debatidos, considerado até um fanon (quando o fandom em geral toma por verdade um headcanon), é o de que Suna é assexual.

Referências bibliográficas

Artigos Relacionados

Comentários