X-men e o orgulho LGBTQIA+: O que os mutantes tem para ensinar?

Bom, talvez X-men seja um dos maiores exemplos dentro da cultura pop quando o assunto é preconceito. E mesmo sendo essa fonte comum, acho válido recorrer aos “filhos do átomo” pra falar desse assunto, não só pela complexidade das histórias, nem pelo fato de ter personagens abertamente gays, ou por ter sido onde saiu o personagem do primeiro casamento homoafetivo nas HQs, mas sim pelo fato de que X-men acompanhou o horário de almoço de mais de uma geração, desde 2002. Só a abertura de X-men Evolution ( saudades, bom dia e companhia) já deve ser capaz de despertar fome em uma parcela da população.

E antes que surja algum protesto para o fato de os X-men serem originários de HQs e não de mangás ou animes, eu invoco em modo de defesa o fato de que existem tanto versão mangá , de quando a Marvel lançou o Mangaverso, quanto alguns episódios em anime. Então, nada mais justo, na minha opinião, que usar essas figuras que já são bastante conhecidas no imaginário brasileiro, para tratar de um assunto que, infelizmente, ainda é atravessado por muita ignorância e desrespeito.

Os heróis mais estranhos de todos

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Se há alguns anos X-men nos entretia e fazia refletir sobre aspectos de preconceito e estigmatização, hoje vemos algumas situações ocorrendo que poderiam ser facilmente retiradas de uma página das HQs ou cenas de alguma animação ou filme dos mutantes. Há alguns meses, inclusive, um apresentador de TV reproduziu, quase que integralmente, essa cena da HQ “Deus ama, o homem mata”, enquanto falava um discurso bastante carregado de homofobia, apontando pra uma foto que continha uma modelo trans em manifestação que datava do ano de 2015.

Desde a sua criação lá em 1963 (ou cópia da Patrulha do Destino que havia sido lançada poucos meses antes), Stan Lee pensava em abordar com as histórias dos filhos do átomo elementos que tratassem das minorias e que pudessem retratar o preconceito sofrido por esses grupos.

Com o passar das décadas, tivemos sagas que mostravam isso de uma maneira fabulosa e sempre apresentando principalmente os pontos de vista daqueles que eram oprimidos e sua luta contra a opressão sofrida. Podemos destacar por exemplo “Deus ama, o homem mata”, “Massacre de mutantes”, “Dinastia M”, “Vingadores x X-men”, ou “Os Surpreendentes X-men”, como algumas das sagas que tratam da questão do preconceito e da marginalização daqueles que, por algum motivo, eram tidos como diferentes pela sociedade. (Dinastia M, traz uma mudança no paradigma geral ao colocar a “Casa Lansheer”, ou família Magneto como potências dominantes do mundo).

A primeira capa de X-men, em 1963 ainda, já trazia em letras miúdas a frase” Os heróis mais estranhos de todos” e, de fato, quando as histórias não estavam girando em torno de viagens e impérios intergalácticos o foco era sempre nessa estranheza que os mutantes enfrentam. Os X-men enfrentam vilões poderosos como a Ninhada, Sentinelas, Apocalypse ou os retratados em seus filmes pela Fox. Mas sem sombra de dúvidas seu maior inimigo é o preconceito.

Preconceito: o maior inimigo

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Essa temática é sempre recorrente, e os quadrinhos são sempre um reflexo sócio histórico, como nos apontam Dutra apud Jarcem (2007 p. 02):

“As Histórias em Quadrinhos, como todas as formas de arte, fazem parte do contexto histórico e social que as cercam. Elas não surgem isoladas e isentas de influências. Na verdade, as ideologias e o momento político moldam, de maneira decisiva, até mesmo o mais descompromissado dos gibis […]”.

A partir dessa fala, já podemos perceber a importância dos X-men, como representativos nas lutas por igualdades sociais, mas vamos a mais alguns exemplos, antes de uma explicação mais detalhada. Em outra saga, chamada “o massacre de mutantes”, houve um grande extermínio entre os mutantes, e principalmente em um subgrupo menos aceito, inclusive dentro da própria população mutante, que eram chamados de Morlocks. Os Morlocks eram mutantes que, em sua maioria, sofriam porque as suas mutações geravam distorções e aberrações físicas. Enquanto boa parte dos mutantes podia ainda tentar se integrar à sociedade por conta de sua aparência, os Morlocks já estavam duplamente marginalizados, e isso fazia com que eles precisassem viver nos esgotos.

Sem spoiler, acontece que um mutante queridinho da galera, e que fala francês, acaba matando diversos desses Morlocks, por motivos que não irei revelar aqui e isso faz com que uma outra mutante, de cabelos brancos e moicano precise assumir a liderança desse grupo e se choca com a diferença de tratamento entre os Morlocks e os mutantes da superfície. Sabemos que mesmo entre grupos minoritários existem preconceitos internos pela legitimidade de pertencer a esses grupos. Como exemplo, podemos citar o que ocorre tanto no movimento negro com todas as questões que envolvem o colorismo, como no próprio movimento LGBTQIA+, no que diz respeito as distinções entre estereótipos em que se enquadram ou não alguns sujeitos e, às vezes, escondem sorrateiramente um discurso preconceituoso.

Na primeira saga, do soft reboot, dos “surpreendentes X-men”, que começou a ser lançada em 2005 aqui no Brasil, e serve de inspiração para o (tenebroso) filme X-men o confronto final. Temos uma narrativa que gira em torno do desenvolvimento de uma vacina que poderia suprimir o gene X, curando os mutantes. A saga apresenta um desenrolar que leva diversos X-men a questionarem se deveriam ou não fazer uso da vacina e mostrando uma construção bem elaborada, inclusive, do vilão Ord do Grimamundo, que busca eliminar os mutantes, pois eles seriam os responsáveis por exterminar o seu povo, uma crença que se prova posteriormente como infundada. Essa saga inclusive tem o retorno de um personagem que era dado como morto há mais de uma década e ressuscita um dos melhores casais de X-men. Aqui o shipp por Lince Negra e Colossus sempre será eterno.

Quantos sujeitos homoafetivos, ou com sexualidade divergente do padrão convencional, não são levados a questionarem o que seriam, ou como seriam suas vidas, caso houvesse uma cura? Olhando estes três pontos percebemos que é fácil entender a relação entre os quadrinhos dos X-men, e como eles serviriam de uma alegoria direta a essa discussão que sempre retorna, a oportunidade de oferecer aos sujeitos a possibilidade de reorientar seu desejo sexual.

LGBTQIA+X

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Os X-men têm suas características e habilidades decorrentes de um gene chamado gene-X, que lhes confere suas características. Não adentrando aqui na discussão sobre a origem do desejo e direcionamento sexual de cada sujeito, pois este não é um assunto sobre o qual exista um consenso, trataremos aqui apenas de como os sujeitos não são responsáveis por isso, bem como os X-men também não são por suas características. Ambos os grupos sofrem pressões e repressões sociais que os levam a não aceitação pelo fato de serem como são. O sujeito homoafetivo, ou com qualquer configuração de sexualidade, tal qual o X-men, não é responsável, são sujeitos que não devem ter que optar em não serem o que são.

Há poucos anos o Brasil, mais uma vez na vanguarda do retrocesso, voltou a discutir, por exemplo, a imbecil ideia de terapias de reorientação sexual. A maior problemática dessa ideia, é que ao levantarem a possibilidade de interpretarmos a homossexualidade, e sexualidade em geral, enquanto processo que pode ser “reorientado”, nas entrelinhas, o que é camuflado é que isso se faz pelo bem e possibilidade dos sujeitos que quiserem deixar de ser gays, por exemplo, não sofrerem com sua sexualidade.

Talvez não fosse mais importante levantarmos a questão de quais angústias levam esses sujeitos a pensarem em deixar de ser gays? Ou o quanto os valores morais e religiosos implícitos na sociedade, que pregam a abominação que é deitar-se com um sujeito do mesmo sexo, influenciam na dificuldade de aceitação dessas pessoas, mesmo que elas não pertençam a esses grupos religiosos? Será que o mais pertinente aqui não seria pensar só no sujeito e nas suas angústias? Felizmente, essa asneira foi engavetada, ao menos oficialmente, pois não existe base teórica dentro da psicologia para corroborar esse tipo de “contribuição”, as quais estes “profissionais de psicologia” afirmavam exercer.

Tal qual os X-men, muitos destes sujeitos veem o ódio por si mesmo sendo introjetados lentamente pelos discursos vigentes, principalmente, os discursos baseados nas relações de poder e controle das práticas sexuais alheias. O profissional de Psicologia não é, nem deve ser, um normatizador do comportamento. A prática da Psicologia, tem que ser pautada em possibilitar a liberdade dos sujeitos em serem o que são, entendermos suas angústias e ajudá-los a lidar com elas.

Dentro dos X-men, vemos sujeitos que conseguem lidar bem com o fato de serem mutantes/e ou membros de outras minorias étnicas, homoafetivos e que conseguem elaborar a questão de serem como são da melhor maneira possível, e também temos sujeitos que têm a maior dificuldade em lidar com suas questões, reflexo da vida real. Nós, seres humanos, de maneira geral já temos dificuldade em nos aceitarmos como somos, o processo de auto descoberta e de desenvolvimento de si mesmo já não é um processo fácil. O mais preocupante, assim como nos quadrinhos, é querer normatizar e fazer como que estes sujeitos não possam ser quem são.

No filme X-men 2 há uma cena em que os X-men estão se escondendo na casa do Homem de Gelo e a mãe dele resolve perguntar se ele já tentou não ser mutante, como forma de não precisar enfrentar a perseguição que ele está sofrendo. Esse é um bom exemplo do tipo de peso que se coloca sobre os sujeitos LGBTQIA +, a dificuldade de aceitação e de um ambiente acolhedor acaba sendo tão inadequado quanto às outras ameaças à individualidade que essas pessoas precisam enfrentar. E agora, anos depois, nas HQs, o Homem de Gelo acabou se assumindo gay, o que faz com que aquele diálogo do filme possa ser reinterpretado, para a esfera da sexualidade do Bob.

Baby, you’re born this way

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Eu citei o Homem de Gelo aqui só pra encerrar mesmo essa discussão a respeito de reorientação sexual. Se um sujeito tem uma angústia qualquer com relação a sua sexualidade, um profissional de Psicologia pode ajudar muito a lidar com essa angústia, mas não pode dizer a um sujeito que ele vai poder abrir mão de algo que lhe constitui. Muitos sujeitos acabam vivendo como o Homem de Gelo, tendo que castrar sua própria sexualidade, e no caso dele existe todo um processo de autoconhecimento, até que essa sexualidade possa ser aceita. É mais fácil ele aceitar que é um mutante nível ômega que controla moléculas de água, do que se aceitar gay. Sente o peso de um negócio desses?

Um sujeito pode redirecionar sua sexualidade durante a vida? Talvez, os seres humano são capazes de praticamente qualquer coisa. Mas isso não implica que esse tenha que ser o caminho, que será preciso redirecioná-lo para uma normatividade e um enquadramento proposto pelos “William Stryker” ou “Ords do grimamundo”. Nos quadrinhos, os vilões estão mais nítidos e representam, justamente, essas figuras que na sociedade às vezes se permeiam como defensores de valores altruístas e em prol da coletividade. Nos quadrinhos os panoramas sempre terminam com extermínio e genocídio, com crianças sendo forçadas a buscar a “cura”, e com levantes extremamente violentos.

Os mutantes, chamados brilhantemente por Magneto (judeu diga-se de passagem) como homo superiores, sempre enfrentaram e sempre lidaram com toda a sorte de violências e marginalização, e enquanto manifestação artística as HQs nos permitem lidar com questões relativas ao nosso próprio inconsciente. Existem representações de diversos grupos étnicos e de elementos sociais que podem servir de alívio aos sujeitos que têm contato com esse conteúdo.

Mas essa já é uma história para um outro momento. Por hora, fiquemos com a reflexão de como os quadrinhos dos X-men podem apresentar elementos que representam reflexos da sociedade e, como tal, devem servir para repensarmos nossas práticas e realidade. O quanto às vezes estamos reproduzindo “Deus ama, o homem mata”, o massacre de mutantes ou a cura mutante como tentativa de marginalizar e alienar alguns grupos dentro da sociedade? Até que ponto a nossa percepção do outro permite de fato que ele seja o sujeito que pode ser?

X-men passou pela vida de muita gente, mas parece que infelizmente nem todo mundo captou a mensagem central da trama. Lá a gente tem: Personagens gênero fluido, como a Mística, transgêneros, como Jessie Drake, homossexuais, como Karma, Homem de Gelo e Estrela Polar, bissexuais, como Lince Negra, Psylocke, drag queen, como a primeira drag super heroína Shade.

Enfim, eu poderia citar diversos outros exemplo, só pra dizer que X-men é contra preconceito e discriminação de qualquer tipo. Temos representações de poliamor, com os mutantes em Krakoa, em geral, que estão adotando um sistema de relacionamento poliamoroso como probabilidade de aumentar a reprodução a espécie, tem trisal, Jean, Ciclope e Wolverine, tem cadeirante sendo um dos mutantes mais poderosos do mundo, como o Xavier, tem um judeu entre os mutantes mais poderoso do mundo, como é o caso do Magneto.

Qualquer um que saiba interpretar minimamente a mensagem é capaz de compreender que não dá pra passar por aí sendo fã de X-men e distribuir preconceito. X-men é sobre aceitar quem você é e lutar contra o mundo, independente de quem ou o que você seja. X-men é sobre ter a coragem e poder bancar ser quem se é, afinal de contas como disse Lady Gaga “baby, you’re born this way”.

Referências Bibliográficas

JARCEM, René Gomes Rodrigues. História das histórias em quadrinhos. História, imagem e
narrativas. Nº 5, ano 3, set. 2007. Disponível em <
http://www.historiaimagem.com.br/edicao5setembro2007/06-historia-hq-jarcem.pdf > 

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