Crítica | Bishounen Tanteidan: é só brincadeira de criança?

Bishounen Tanteidan, ou “clube de detetives bonitos” em uma tradução mais literal, foi um dos animes dessa última temporada de primavera que mais me cativou. O anime é uma adaptação da light novel de mesmo nome do autor NISIOISIN, criador da tão aclamada série Monogatari e, de certa forma, também lembrou o clássico Ouran High School Host Club na base de sua premissa.

Eu estaria mentindo se dissesse que esse anime me surpreendeu, pois eu já imaginava pelas prévias, pelo estúdio (Shaft) e pelo criador da obra que seria um anime de excelente qualidade, porém houve sim uma pequena surpresa: não fez tanto sucesso. Não é que o anime tenha recebido avaliações negativas, porém o “hype” que eu imaginava após ver as primeiras divulgações da adaptação nunca aconteceu. Nas redes sociais brasileiras pouco vi comentarem os episódios e o mais próximo de um meme que chegou até mim foi justamente um comentário sobre ser o “anime de fandom inexistente”. 

Foi essa surpreendente falta de popularidade dentre os otakus brasileiros que me motivou a escrever um review desse anime, que para mim foi uma obra bastante envolvente, divertida e, acima de tudo, bonita.

Caso 1: Ouran High School Host Club

Como eu disse antes, a base da história lembra Ouran High School Host Club, e esse inclusive foi um dos motivos pelos quais acreditei que atrairia um público grande. A protagonista, Dojima Mayumi, é uma adolescente de 14 anos que prometeu aos seus pais que abandonaria seu sonho de ser uma astronauta se não encontrasse até seu aniversário uma estrela que apenas ela foi capaz de ver durante a infância. Conforme a data chega e ela não encontra essa estrela, Mayumi acaba aceitando a ajuda de Sotoin Manabu, integrante de um clube secreto do colégio que tem apenas três regras: “seja bonito, seja um garoto e seja um detetive!”

É nesse ponto que a história acaba lembrando um pouco o clássico Ouran, temos o mesmo cenário de um colégio de classe alta, predominante ausência de figuras como professores e diretores, um clube de entrada restrita e, o principal, uma garota que veste-se de garoto para integrar o clube.

Apesar dessas leves semelhanças, a história percorre um caminho totalmente diferente, principalmente por ser um clube de detetives. A própria Mayumi aparece primeiro enquanto garota e cliente do clube para, após a descoberta de uma habilidade especial única, enfim se tornar integrante regular do clube e participar de diversos casos.

Os casos em si são bastante criativos e envolventes também, conforme assiste você provavelmente vai se pegar trabalhando o cérebro junto com a protagonista para tentar desvendar os mistérios. Porém já aviso que alguns beiram o absurdo com soluções mirabolantes que jamais poderiam acontecer na vida real! O desenrolar das situações também tende a ter um tom cômico porém balanceado com reflexões, metáforas e, mais para o final, discursos emocionais que dão aquela leve abalada no coração.

Caso 2: A beleza é meramente estética?

Em se tratando dos personagens, são todos menores de idade entre os 12 e 15 anos, sendo o líder do clube o mais novo, apesar de ser o mais inteligente. Cada um dos personagens tem também uma característica/habilidade especial, sendo a protagonista “Mayumi, o vidente”, o líder “Manabu, o esteta”, o conselheiro “Nagahiro, o orador”, “Michiru, o gourmet”, “Hyouta, o das belas pernas” e “Sousaku, o artista”

Sobre a caracterização, esse foi definitivamente o primeiro ponto que me chamou atenção e me fez pegar o anime para ver. O design dos personagens é simplesmente adorável e faz jus ao termo “bishounen” no título da obra. Apesar de estarem em um colégio e uniformizados, é perceptível a personalidade e singularidade de cada personagem através da apresentação visual, que é um ponto de extrema importância na história. 

Imagem/Divulgação: Da esquerda para a direita –  Michiru e Nagahiro (de pé), Sousaku, Manabu, Mayumi e Hyouta (no sofá)

Fora a protagonista, outros personagens não tem exatamente uma “evolução”. Todos são bem desenvolvidos, porém Mayumi é definitivamente quem tem mais desenvolvimento em um sentido de mudança. Os outros personagens já têm suas personalidades mais ou menos definidas e apresentadas desde o princípio, sem grandes alterações ao longo da série. 

Como anteriormente dito, a caracterização é definitivamente um dos elementos mais importantes em uma obra que carrega o título “bishounen”, mas o mais interessante é que em momento algum a história trata essa beleza como algo meramente estético e genérico. Na realidade, a beleza é tratada como um “estilo de vida” pelos personagens do clube. Deve-se pensar de forma bela, agir de forma bela, apresentar-se de forma bela, viver de forma bela. E essa beleza está principalmente relacionada à personalidade, à sinceridade, à honestidade e à autoconfiança, indo além de um julgamento dualista de “isso é bonito e isso é feio”. Inclusive nem todos os antagonistas são colocados como feios, sendo mais descritos como desonestos, trapaceiros ou sem personalidade.

Quanto a parte referente ao gênero, achei muito interessante o desenvolvimento desse aspecto dentro da história. Mesmo que nas normas do clube exista a regra do “seja um garoto”, a protagonista é aceita lá e passa por uma transformação visual para ser lida socialmente como um garoto, mas ela ser ou não um garoto acaba sendo um fator de pouca importância. Inclusive o líder, Manabu, em diversas missões também se traveste para parecer uma garota e isso é colocado de uma forma bastante natural, sem qualquer caráter de julgamento por parte de outros personagens.

Indo além do visual, é bastante interessante como o roteiro trabalha essa parte também. Dentro do clube Mayumi é lida e tratada em pé de igualdade como se fosse um garoto como qualquer outro presente, sendo até mesmo chamada com honoríficos destinados à garotos, como “kun“. Mas isso não significa que o fato dela ser uma garota seja negado, apenas não é algo importante naquele contexto. Inclusive há momentos em que Manabu em seus discursos tem falas como “Dojima-kun é uma garota […]”, usando pronomes de tratamento masculinos, porém deixando claro que reconhece sua identidade enquanto garota.

Imagem/Divulgação:  Acima – Mayumi e Manabu com aparencias femininas | Abaixo: Manabu e Mayumi com aparências masculinas

Caso 3: A produção

Quanto a aspectos mais relacionados a produção (animação, trilha sonora e desenvolvimento do roteiro), não há dúvidas de que, de maneira geral, foi um anime bem produzido. Os responsáveis pela direção e pelo design inclusive trabalharam com a Série Monogatari, grande sucesso de NISIOISIN, e apesar de alguns aspectos visuais se assemelharem, Bishounen Tanteidan é de forma geral bem mais inocente, tanto na estética quanto no que se poderia considerar fanservice. 

Se tratando da arte, um ponto muito interessante são as “brincadeiras visuais” que rolam em diversos momentos. A troca do traço para um mais realista em algumas cenas para atribuir tensão ou dar um aspecto emocional é muito bem feita e interessante, valorizando ainda mais a produção artística que já é totalmente admirável. E para amantes de artes e filosofia: o anime tem várias referências artísticas e filosóficas tanto na animação como no roteiro. Inclusive um dos episódios é inteiramente focado em artes.

Imagem/Divulgação:  Capturas de tela de cenas em que demonstram essa mudança artística para atribuir intensidade emocional às cenas

A trilha sonora não dispensa elogios também, sendo peça chave na construção da atmosfera das cenas e garantindo envolvimento. Foram poucos momentos que ela me chamou atenção, e para mim isso é um ótimo sinal, já que indica que ela cumpriu seu papel de me envolver na história e não ficar prestando atenção em como estava o som em determinada cena ou se ele era incômodo. O anime também conta com duas endings que complementam uma à outra e eu achei isso bem interessante, pois foi algo que quase me passou despercebido. Em relação a abertura, tinha tudo para ser um daqueles hits do TikTok, principalmente por ter uma coreografia relativamente simples na parte do refrão e pela música ser inclusive da mesma banda que fez a de Wotakoi, mas pelo visto não deu certo… (independente disso, fiquei com vontade de aprender a dancinha, confesso!)

Agora falando de um aspecto no qual não pude dar 5 estrelas na nota: desenvolvimento. Apesar de ter gostado muito da premissa da história, do início ao fim me deu uma leve sensação de que faltava desenvolver alguma coisa. O tempo todo a história introduz personagens, novos arcos a cada caso e situações novas, deixando algumas delas “pendentes” ao final. Adentrando também em uma questão mais pessoal minha: adaptações de light novel normalmente me dão essa impressão de ser algo desenvolvido muito rápido e deixando alguns buracos. Acredito que muita coisa ainda seria concluída em próximas temporadas, até pela série Bishounen contar com 11 volumes de light novel, porém não enxergo muita possibilidade para uma continuação em anime diante do feedback até o momento. 

Apesar dessas pequenas questões deixadas em aberto, o ritmo é bem constante e não me senti entediada em nenhum momento enquanto assisti ao anime. Gostei bastante de como o anime conseguiu paralelamente aos mistérios desenvolver também as relações entre os personagens e criar uma sensação de “apego” com eles, mesmo nos mostrando pouco de suas histórias de fundo individuais. Personagens como o Sousaku foram tão pouco explorados que ficou de mistério para o fandom (inexistente) procurar na light novel ou tentar desvendar mais sobre ele! Senti falta de conhecer mais profundamente alguns personagens, mas compreendo que em 12 episódios e com a proposta narrativa mais centrada na protagonista isso talvez atrapalhasse o próprio ritmo da história. 

Caso final: Brincadeira de criança?

Por fim fechando todos os casos: essa história me deu uma certa sensação nostálgica, lembrou épocas nas quais o que mais importava na vida não eram os resultados e sim a diversão do processo, das brincadeiras e da vida. Existem regras no clube, mas elas pouco importam, pois o que vale é a criatividade, a amizade e o sentimento de pertencimento. E é por isso que apesar de ser uma garota em nenhum momento Mayumi é excluída ou tratada de forma diferenciada no clube.

Eu diria que a parte mais interessante e que mais me tocou nesse anime se dá justamente ele se passar em um clube composto por estudantes do ensino fundamental. No fim tudo realmente não se passa de uma “brincadeira de criança”, mas isso nunca é colocado de forma a parecer algo ridicularizado, bobo ou inferior. A beleza está justamente na diversão, na leveza e na inocência da infância.

Crítica | Bishounen Tanteidan
  • Animação
    (5)
  • Enredo
    (4.5)
  • Trilha Sonora
    (5)
  • Personagens
    (4.5)
  • Desenvolvimento
    (4)
4.6

Sumário

O ponto chave do anime é definitivamente a parte visual, mas isso não significa que a história seja ruim, apenas que o design é muito bonito, como já indica o título. Para quem procura um anime divertido, rapidinho de assistir e sem uma história muito profunda e complexa mas que ainda assim não é superficial e genérico, Bishounen Tanteidan é uma boa pedida. 

Pros

  • Animação fenomenal
  • Caracterização de personagens belíssima
  • Trilha sonora envolvente
  • Uma história inocente e divertida
  • Cenas emocionais bem balanceadas com cenas de comédia

Cons

  • Poderia ter sido mais bem desenvolvido
  • Deixou questões não resolvidas em aberto
  • Explorou pouco alguns personagens

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