Crítica | Jujutsu Kaisen: mais do mesmo, ou mesmo do mais?

A série Jujutsu Kaisen é um dos grandes sucessos de 2020/2021,  a obra conquistou o coração dos fãs e rendeu diversos prêmios na Crunchyroll Anime Awards 2021 (Melhor Anime do ano, Melhor Antagonista e Melhor encerramento). Sem contar que foi a 5ª série de mangá mais vendida em 2020 no Japão com quase 7 milhões de cópias. Mas o que explica tamanho sucesso?

Introdução

Jujutsu Kaizen encerrou sua primeira temporada em março de 2021 e parece que foi ontem que o último episódio foi transmitido, deixando uma vontade de quero mais. Yuji Itadori, personagem principal, é um jovem que perde seu único vínculo familiar muito cedo, mas possui um coração valente e o auto sacrifício presente em personagens típicos do gênero shounen.  Sua jornada se inicia no ensino médio, onde evita regularmente a equipe de pista devido a sua aversão ao atletismo, apesar de seu talento inato para o esporte. Em vez disso, ele decide ingressar no Clube de Pesquisa Oculta, onde pode relaxar, sair com seus veteranos e deixar a escola às 17h para visitar seu avô no hospital. Em leito de morte, seu avô envia duas mensagens que se tornam poderosas para Yuuji – “sempre ajude as pessoas” e “morra cercado por uma multidão“.

Após a morte de seu avô, ele é confrontado por Megumi Fushiguro, um feiticeiro jujutsu que o informa da existência de um talismã amaldiçoado em sua escola que atrai maldições. Sofrimento, arrependimento, vergonha: os sentimentos negativos dos seres humanos tornam-se seres malignos  chamados de maldições. Para salvar seus amigos Itadori engole o dedo amaldiçoado de Ryomen-Sukuna – conhecido como O Rei das Maldições – absorvendo sua maldição. Ele então é convocado para se matricular no Colégio Técnico de Feitiçaria de Tóquio, uma organização de poderosos feiticeiros que combatem as maldições… e assim começa a heroica lenda do garoto que se tornou uma maldição para exorcizar uma maldição.

Sobre a obra

Jujutsu Kaisen foi escrito e ilustrado pelo artista japonês conhecido com o pseudônimo de Gege Akutami. Akutami começou a desenhar mangás com  inspirado por Tite Kubo, responsável por nada menos que a popular série de mangá Bleach. Akutami iniciou sua carreira como assistente de Yasuhiro Kano em Kiss x Death. Em 2014  publicou seu primeiro one-shot (único tiro) intitulado de Kamishiro Sosa, publicado na Shueisha  Jump Next em maio.

Mas foi em 2017 que sua carreira realmente decolou, publicando na Jump Giga (revista lançada no começo de cada estação do ano que serve para apresentar novas ideias aos leitores da Weekly Shonen Jump, onde os one-shots mais bem avaliados podem virar série da revista) uma série de 4 capítulos chamada de Tokyo Metropolitan Curse Tecnical School ou Escola de ensino médio de Jujutsu da prefeitura de Tóquio, (antigo nome de Jujutsu Kaizen).

A recepção da série foi mais positiva do que Gege esperava e como resultado a Shonen Jump entrou em acordo com seu criador para começar sua primeira serialização em 2018. E em 5 de março de 2018, nasce nossa aclamada série Jujutsu Kaizen, que teve a versão primária da série lançada na competição de 2017.

No ocidente a série chegou primeiramente em mangá pela Viz Media (empresa norte-americana responsável pelos animes e mangás publicados nos Estados Unidos) que publicou os três primeiros capítulos simultaneamente com o Japão como parte de sua iniciativa Jump Start. No Brasil a série foi anunciada durante a Comic Con Experience de 2019, sendo publicada em 3 de agosto de 2020 pela editora Panini.

O anime da série foi anunciado na 52ª edição da Weekly Shōnen Jump, publicada em 25 de novembro de 2019. Com uma equipe de tirar o fôlego a série não poderia dar errado. Como produtora foi escalada a Toho Co. Ltd. que é uma das principais empresas em seu grupo empresarial responsável pelo filme Kaiju (Godzilla), filmes de animes do estúdio Ghibli (A viagem de Chihiro, O Castelo Animado, O Conto da Princesa Kaguya, etc) e a franquia do super-herói Tokusatsu Chouseishin. Como estúdio de animação foi escolhida a MAPPA Co. Ltd responsável por Kakegurui, Dorohedoro, The God of High School, Attack on Titan (quarta temporada) e dirigido por Sunghoo Park, que já dirigiu e participou de animes como Fairy Tail, Fullmetal Alchemist, Ghost in the Shell, Inuyasha, Overlord e muitas outras séries consagradas do Japão. Pois é o pessoal a equipe não é para brincadeira. Hiroshi Seki é o roteirista, Tadashi Hiranatsu como designer de personagens, Yoshinasa Terui e Alisa Okehozama como os compositores musicais.

Estreando primeiramente pelo Youtube e Periscope (aplicativo de streaming de vídeo) no dia 19 de setembro de 2020 e no dia 2 de outubro de 2020 nos canais japoneses MBS e TBS, fechando com 24 episódios. A série foi transmitida em simulcast no  Brasil pela Crunchyroll em 11 de novembro de 2020.

Mais do mesmo?

Em um momento de desespero, Itadori come um dedo amaldiçoado para tentar salvar alguém que estava em perigo e repentinamente fica forte, porém este poder deriva de um espírito antigo e poderoso chamado Sukuna que agora habita o corpo de Yuji.

Agora, para dominar esse poder dentro de si, ele tem que frequentar uma academia mística onde encontra novos companheiros, que no decorrer de suas aventuras desenvolvem uma amizade, carregado de referências, ou não, é o famoso trio, um menino de cabelos escuros (não é o Sasuke) e uma menina de cabelos vermelhos de personalidade explosiva e cativante ao mesmo tempo (não. definitivamente não é Sakura também), e que tem como professor ou mentor, de cabelos brancos e com um semblante carregado de mistério que usa uma venda tapando seus olhos (simplesmente não é o Kakashi).

O personagem que nos é apresentado carrega as características de um shounen, mas se olhar mais atentamente, não só para o personagem, mas para a história apresentada, ela nos mostra uma certa crítica ao dilema do protagonista. Itadori não é agraciado com poderes ou determinação indomáveis, ele é quebrado por dentro e por fora, abre mão da sua liberdade para que um ser maligno ocupe seu corpo, evitando assim mais sofrimento.

Se levarmos em consideração que o objetivo de todo personagem shounen é mudar o mundo a sua volta através de sua perseverança, Jujutsu Kaisen, vai ao contrário disso, pois ao comer o dedo de Sukuna para salvar os amigos, ele automaticamente  representa um perigo eminente neste universo estabelecido, tornando-se alvo dos feiticeiros jujutsu, onde cada episódio que passa o anime que te prende, pois o personagem, tem medo da morte, tem sua visão de mundo, onde deseja salvar a todos, motivado pelas palavras de seu avô, Yuji vai amadurecendo suas técnicas e seus poderes ao longo de sua jornada. Esse é o diferencial de Jujutsu Kaisen, ele coloca o personagem muito humanizado, carregado pelo medo de morrer sem ter conseguido realizar suas vontades. . Mostra que heróis podem perder, e isso é oque a obra deseja passar.

Mas vale lembrar que não é só por estas questões que o anime se destacou como o melhor do ano, premiado pelo Anime Awards (Premiação da Crunchyroll) ele leva destaque para com sua parte musical, tendo openings (aberturas) e endings (encerramentos) marcantes. Mas o tema que impulsiona o anime o torna único, com personagens fortes, cativantes e formidáveis.

Animação e Trilha Sonora

Imagem/Divulgação

Falando de visual, Jujutsu Kaisen está em um nível muito superior a outros animes da linha shounen. Com animações e traços muito bem detalhados, qualquer falha técnica é passada despercebida pela qualidade geral do anime. As lutas são exatamente como todo fã de anime quer, sem muita enrolação, dinâmicas e aceleradas onde qualquer personagem consegue expressar toda sua especialidade de forma limpa e suave sem perder o ritmo e fluxo contínuo de uma boa luta. Com filmagens dinâmicas que acompanham as lutas seguindo os personagens, nos passando a sensação de adrenalina pura, onde, a empolgação do personagem é passada completamente para quem o assiste.

O estúdio MAPPA foi uma das melhores escolhas para transformar a obra em anime e se tratando de questões técnicas, isso é retratado muito bem nos storyboards, com uma fluidez na animação e a mescla de ambientes e personagens em 2D com animação em 3D, coisa que fizeram bastante na adaptação de Dohoredoro.

Um dos pontos fortes dos shounens são as cenas de combate, e o MAPPA em Jujutsu Kaisen não fica atrás. Desde o primeiro episódio já vemos com clareza que a produção terá boa parte de seu desenvolvimento voltada para a pancadaria restritiva, uma que não seja a luta pela luta, mas com um propósito.

Com uma variedade grande de animadores como  Keiichiro Watanabe (Mob Psycho 100, one punch man…), Saki Hasegawa (Shingeki no Kyojin, The Rolling Girls, Owari…), Reina Igawa (Le Chevalier D’Eon, Seirei no Moribito, Real Drive, Kimi ni Todoke…) entre outros, o diretor (Sunghoo Park) permitiu que os animadores tivessem liberdade para lidar com a animação, para que cada episódio fosse feito com mais originalidade onde os profissionais pudessem usar habilidades únicas na produção de cada cena. Os efeitos cinematográficos se diferenciam daqueles encontrados em outras animações. Filmados cinematicamente como se fosse uma câmera, incluindo panorâmicas, zoom, distância de ângulos para dinâmicas mais complexas que seriam difíceis de produzir na realidade.

O seriado trouxe diversas cenas memoráveis, mesmo com algumas inconsistências, como nas fotografias, influências e estilo de Park, mas o saldo de tudo é muito positivo. Como disse, são apenas questões técnicas que, por mais que sejam questionáveis, não atrapalham a animação, chamando bastante atenção do público.

De modo geral o que rendeu um anime bom não é somente a qualidade da animação ou uma história fantástica, isso seria mais ou menos 60%, 20% da dublagem e 20% trilha sonora. Todos são elementos que devem ser levados em consideração. Jujutsu tem um time espetacular trabalhando na sua trilha sonora e seu líder é justamente Hiroaki Tsutsumi, responsável pela trilha sonora de Orange e Dr.Stone.

A Opening acabou sendo produzida pelas bandas EVE – Kikai Kitan, que já tinha feito a Ending de “Dororo” e pela banda Who-ya Extended – Vivid Vice e Ending por Ali – Lost in Paradise feat Aklo, que contribuiu para o prêmio de melhor encerramento pela Crunchyroll e pela banda  Cö shu Nie – Give it Back.

A trilha sonora que embora sendo um elemento técnico, afeta muito o anime e a qualidade do mesmo, por isso tem de possuir música que seja ideal para o anime. A trilha sonora de Jujutsu é encaixada nos momentos certos, com a música adequada, dando assim mais tensão a algumas cenas no anime, principalmente as cenas de ação, drama e suspense.

Maldições e os paralelos com o nosso mundo

Imagem/Divulgação

Acompanhando a história de Jujutsu percebemos seu ar sobrenatural e esotérico, mas o que obra tem a ver com espiritualidade afinal? No anime espíritos amaldiçoados ou maldições são criadas a partir de energias negativas geradas pelas emoções dos seres humanos como raiva, ódio, rancor, tristeza e outros tipos de sentimentos negativos. E o que isso tem a ver com o nosso mundo? Em comparação com a nossa realidade essas energias seriam como se fosse miasmas astrais, que são energias negativas que ficam acumuladas em determinados ambientes como por exemplo uma morte ou tragédia que tenha acontecido no local e aquela atmosfera vai estar preenchida de energia ruim.

Outro ponto seria onde essas energias são geradas mais fortes, mais intensas, e com mais frequência. No anime elas são geradas em grandes cidades e centros, onde há uma movimentação muito maior de pessoas e como fica meio óbvio, nessa multidão existem muitas amarguras dentro dos corações dos seres humanos como perda de um emprego, frustrações amorosas, perda de dinheiro, negócios, casas, oportunidades.

Nesse ponto as energias geradas são tantas que as maldições ficam mais fortes e conseguem também manipular outros seres humanos. Isso não quer dizer que não apareça em áreas rurais, mas que nessas áreas por estarmos mais ligados à natureza, por ter uma população bem menor essas energias são geradas com menos frequência e as maldições criadas através dessa energia são consequentemente mais fracas, e isso na nossa sociedade não é diferente. Quem vive mais próximo a natureza tem menos estresse, pois não é acometido pela competição e briga de faca das grandes cidades.

Estar mais próximo a natureza consequentemente nos deixa mais felizes. Não é à toa que em grande maioria quando queremos viajar, procuramos lugares onde possamos nos conectar e nos deixar mais próximo a natureza, como uma trilha, uma praia, um lugar paradisíaco na floresta, cachoeira, montanhas, áreas de grande vegetação, não é? Nosso Instagram não nos deixa mentir.

Isso só prova o quanto os grandes centros nos deixam perturbados com essas correrias de competição, de arrumar um emprego, pagar aluguel, pagar as contas no fim do mês, estudar para uma prova em que você não sabe nada (rsrs). Cara é realmente frustrante e isso gera essa energia ruim em nós, em grande parte involuntárias, sem nem saber que estamos criando isso no nosso ambiente de trabalho, na nossa casa, nossa escola, enfim, motivos não nos faltam para nos frustrar.

Os objetos amaldiçoados são fragmentos de maldições onde acumulam com o passar do tempo cada vez mais energia, e ficam cada vez mais difíceis de destruir. Esses objetos estão espalhados e são encontrados com mais facilidades em grandes centros onde existem mais acúmulo de energia amaldiçoada e onde os feiticeiros conseguem sentir e perceber sua presença maligna. Esses objetos por terem grande quantidade de energia atraem maldições para aquele local e os humanos que entram em contato com essas maldições são mortos, comidos ou possuídos.

E isso não podemos deixar passar. Nós também temos nossos objetos amaldiçoados. Nos Estados Unidos existe um museu na cidade de Monroe que tem como exposição um desses objetos amaldiçoados. Isso mesmo, estou falando de Annabelle. Um espírito de nome conhecido como Annabelle possuiu uma boneca e por meio desta tentava possuir quem estava na mesma casa ou próxima a boneca.

No anime também trabalham com armas para os exorcismos, como as Jugu (ferramentas amaldiçoadas como espadas, katanas, facas, etc) que ajudam a exorcizar essas maldições recheadas de energias negativas. O que também não é muito diferente dos nossos objetos utilizados como proteção ou ferramenta de exorcismos como por exemplo: pedras de poder, plantas, água benta, cruzes, rosários, etc.

E não podemos deixar de falar dos próprios feiticeiros, que veem, sentem, falam ou tocam (na base da pancada mesmo) nessas maldições. E não é que temos humanos sensitivos também como médiuns, padres, espíritas, pessoas que tem sua sensibilidade ou mediunidade mais aguçada para sentir um ambiente pesado, falar com o outro plano, deixar seu corpo ser utilizado para poder transmitir uma mensagem ou fazer uma psicografia e por aí vai.

Enfim, seus idealizadores tiveram muitas inspirações reais em nosso mundo para criar seus roteiros e histórias. Podemos até comparar com as ordens ocultas como rosa cruz, maçonaria, ordens esotéricas, ocultas  escondidas do público geral, passando despercebidas como a escola de feiticeiros jujutsu.

Conclusão

Imagem/Divulgação

De modo geral Jujutsu Kaisen, apresenta Itadori Yuji, um personagem principal clichê, inspirado em diversos outros protagonistas shounen como Uzumaki Naruto, Gon Freeacs ou Kurosaki Ichigo. Mas isso não é ruim, pois Itadori tem seus dilemas morais, é cheio de carisma, com uma forma física anormal, bobo, e uma ótima aptidão mental para crescer em combates. Isso é positivo porque o autor pega o necessário para transformar seu protagonista em alguém que segura a narrativa, ao mesmo tempo em que abre caminho para desenvolver outros personagens onde a série não deixa a desejar mostrando e dando importância a cada personagem criado.

É dessa forma que também conhecemos outros personagens centrais à trama, como Megumi Fushigoro, Kugisaki Nobara e o “apelão” Gojo Satoru – este que chega não apenas como a figura do professor, mas também é quem apresenta toda a complexidade do mundo jujutsu, principalmente nas habilidades especiais.

Nesse ponto, Gege Akutami bebe bastante do que vemos em Hunter x Hunter, de Yoshihiro Togashi, com a energia Nen. O Nen, assim como a “energia amaldiçoada”, possui regras, e são estas possibilidades impostas não somente pelo mundo, mas também pelo usuário que fortalecem a técnica utilizada. Com base nisso, o anime traz um leque amplo de possibilidades para toda a trama, além de mostrar que, até mesmo uma habilidade simples estando nas mãos certas, podem fazer um estrago grande.

Com referências cômicas, o anime gosta muito de brincar na introdução de falas onde citam outros personagens ou poderes de outras animações que deixam a história muito bem humorada.

Além disso, Jujutsu Kaisen mostra que não precisamos de personagens barulhentos, como temos visto em diversas obras recentes. Cada um possui uma característica própria, mas mostrada sempre com seriedade. Desde o início, o anime trabalha com as probabilidades da morte, da crueldade e angústia do mundo dos feiticeiros.

Autor: Leonardo Cardoso
Autor: Masaaki A. Funakura

Crítica | Jujutsu Kaisen - 1ª Temporada
  • Animação
    (5)
  • Enredo
    (3.5)
  • Trilha Sonora
    (5)
  • Personagens
    (5)
  • Desenvolvimento
    (4)
4.5

Sumário

Com referências cômicas,  grandes efeitos cinematográficos e trilha sonora, Jujutsu Kaisen mostra que não precisamos de personagens barulhentos, como temos visto em diversas obras recentes. Desde o início, o anime trabalha com temas como a morte, a crueldade e angústia de ser um protagonista shounen.

Pros

  • Enredo envolvente e divertido
  • Personagens cativantes
  • Excelente produção visual dos personagens e cenários
  • Ótimas referências presentes no anime
  • Músicas envolventes

Cons

  • Elementos introduzidos de forma rápida não que são desenvolvidos na narrativa do anime.

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