Crítica | Sailor Moon Eternal: o filme merece as duras críticas?

Recentemente a Netflix lançou dois filmes de Sailor Moon Crystal e após ler críticas em fanpages e outros sites me senti na obrigação de fazer uma review também, desta vez, com embasamento teórico.

Digo isso porque vi muitas pessoas criticando o filme e apesar de respeitar as opiniões opostas à minha, senti que as análises vieram somente baseadas em opiniões e não em uma base teórica e o problema de quando só se tem uma opinião sem entender um assunto a fundo é que além de rasa, esta análise deixa de ser uma análise e vira somente uma opinião sem conteúdo e referências.

Bom, sou mestre em Imagem e Som, fã de Sailor Moon e também estudo cultura asiática há tempos e vou pontuar alguns tópicos que acredito terem sido analisados de maneira errônea: o formato, as referências, a visão ocidental.

Primeiramente, muitos fãs disseram que o filme é confuso. Bom, o filme é baseado no arco Super S do mangá e quem não leu o mangá ou não assistiu a fase Super S antiga ou não acompanhava Sailor Moon Crystal realmente não vai entender. Não é um filme introdutório, mas sim um filme que continua a saga até então veiculada.

Segundo ponto, a relação de Chibiusa e Hélios. Acompanhando fan pages, muita gente disse que ela era problemática e houve até quem defendesse que fazia alusão à pedofilia e zoofilia, pois Helios está na forma de um Pégaso, ou seja, um cavalo alado, e é mais velho que Chibiusa. Aqui é onde se precisa ter muita atenção e onde apenas uma opinião não basta. A história de Hélios e Chibiusa parece ter sido amplamente inspirada no mito de Pégaso, como já sabemos, a autora, Naoko Takeuchi, usa muito a mitologia grega em sua obra.

Na lenda, Pégaso era um cavalo voador de cor branca que nasce do sangue da cabeça decepada de Medusa. Ele é levado por Atena até as Musas no Monte Hélicon. As Musas o criaram e o adoravam, mas uma delas, Urania, a musa da astronomia e do amor universal era particularmente apegada ao cavalo e sofreu muito quando teve que se separar dele ao entregá-lo ao herói Belerofonte, que montado nele, derrotou a Quimera.

Somado a isso, a idade cronológica de Chibiusa no mangá é de 900 anos e Hélios, embora não tenha uma idade definida no mangá, aparenta ter entre 12 e 13 anos no mangá e no filme. O problema que gerou a toda a acusação de pedofilia é porque na dublagem, a voz de Diego Lima ficou muito mais adulta do que a da voz original em japonês, de Yoshitsugo Matsuoka. A dublagem brasileira, embora excelente, pecou neste sentido. Também confesso que achei que a voz da Chibiusa pela Úrsula Bezerra não ficou muito boa e ficou masculina comparada às demais vozes das Sailors.

Enfim, há um beijo entre os personagens Helios e Chibiusa e embora já tenha esclarecido o problema que levava a crer que Helios seria muito mais velho que Chibiusa ainda existem aqueles que acham que a garota beijou um cavalo. Helios é o guardião do Golden Crystal e o sumo sacerdote de Elysion. Chibimoon é a princesa da Lua, eles já se conheciam no passado, Chibimoon sabe que ele é um humano preso na forma de um cavalo alado (sabe-se lá por que, talvez pra não se comunicar?)

Bom, abaixo trago a imagem do beijo que nada mais é do que um “selinho”, não vi maldade quando assisti a cena quando tinha 13 anos (a idade aproximada de Helios) e não vi agora, mais de 15 anos depois. E vale lembrar que o shoujo mangá sempre traz amores puros e que quebram tabus, superam barreiras e vencem obstáculos. Nada fora do esperado aqui.

Imagem/Divulgação: Beijo entre Hélios e Chibiusa

Outro ponto apontado como problemático foi a atração que Chibimoon sente por seu pai, Mamoru. Para explicar isso, é preciso voltarmos ao mangá. Chibiusa sabe que seu pai é Chiba Mamoru mas ela não tem lembranças dele, na fase Super S Chibimoon está crescendo e se tornando uma pré-adolescente e está provavelmente no processo de desenvolvimento psicossexual. De acordo com Jung, as meninas passam a se sentirem atraídas pela figura do pai em detrimento da figura materna. Assim como a relação dos meninos rivaliza com a dos pais, as garotas também encontram alguém para disputar atenção paterna. Complementando a teoria Freudiana, Jung afirmava que a relação das garotas com os pais era influenciada por seu desenvolvimento sexual. À medida que o crescimento psicológico das meninas evoluía, a atração pelo pai crescia junto. Como este nutre uma relação amorosa com a mãe, a garota passa a enxergá-la com uma rival. A autora apenas passou algo do inconsciente de Chibiusa para o consciente, de maneira que o leitor e espectador pudessem entender seus sentimentos. Só isso.

Sobre a representatividade LGBTQIA+ do Amazon Trio, vi muitas pessoas reclamando que eles não retratam o público LGBTQIA+ e de fato não retratam. São estereotipados como okamas (pejorativo para gays no Japão) e tem pouco destaque no filme. Porém, novamente, estamos falando de uma adaptação de um mangá, e não apenas isso, mas um mangá de 1992. Nesta época a representatividade LGBTQIA+ era muito menor e Naoko colocou em sua narrativa estes personagens, o que foi bastante ousado na época e continua sendo hoje em dia. E por mais estereotipados que estes personagens sejam, existem pessoas que agem desta forma ou se identificam. É o ideal? Não. Mas foi uma opção da produção em não alterar o conteúdo do mangá original.

O Japão é o último país do G7 que não reconhece o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo. Em pleno 2021 o único avanço sobre o assunto foi o reconhecimento feito pelo tribunal da primeira instância de Sapporo de que não reconhecer o casamento entre pessoas do mesmo sexo é inconstitucional.

Exigir que um mangá escrito em 1992 em um Japão muito mais fechado às questões LGBTQIA+ tenha maior representatividade, tal qual teria no Ocidente, é estar se iludindo. O estúdio até poderia ter mudado e adaptado este ponto, mas aí quebraríamos a premissa de que, novamente, Sailor Moon Crystal é uma adaptação fiel ao mangá, diferentemente da animação dos anos 90.

Apesar deste “problema”, houveram cenas problemáticas que foram melhoradas, como a forma com a qual os inimigos olhavam dentro do espelho do sonho de suas vítimas, que na animação de 1995 se assemelhava muito a um estupro.

Dito isto, vamos a uma breve análise técnica: Sailor Moon Eternal foi produzido pela Toei Animation juntamente com o Studio Deen e distribuída pela Toei Company com estreia mundial através da Netflix. Foi dirigida por Chiaki Kon e tem roteiro de Kazuyuki Fudeyasu.

Os cenários estão incríveis, a animação é fluida e não passa, em momento algum aquela sensação de “animação barata” e feita ás pressas como costuma acontecer muito com as animações da Toei (que parece lançar uma versão cheia de erros para TV para depois lançar a versão corrigida na versão DVD/Blu Ray) e as imagens em computação gráfica ficam mais polidas do que as usada em Sailor Moon Crystal. A escolha de dois filmes complementares foi boa, mas ainda assim condensar um arco inteiro em um filme deixou acontecimentos explicados de maneira corrida, personagens secundários inexplorados e vilões mal aproveitados. Existe a fidelidade ao mangá (que possui as mesmas falhas), mas ainda assim, teve muito vilão pra pouco arco.

Algumas cenas não levam a um desenvolvimento e me pergunto se foram colocadas apenas para manter a fidelidade do mangá, como Chibiusa crescendo e Usagi virando criança. Imagino que seja uma tentativa da autora de explicar os sentimentos de Chibiusa, mas foi mal aproveitada e no filme ficou “solta” na animação. Fora isso as Outer Senshi tem pouco destaque, porém, novamente, isso é do mangá e é refletido no filme.

Tomoe Hotaru chama Haruka de “papai”, outra coisa que deixou o fandom ensandecido, mas novamente, Haruka se assemelha esteticamente (e se veste também) como um rapaz, é natural que uma criança se confunda e se Haruka não a corrige, é porque não se incomoda com o fato. Li coisas dizendo que as Outer Senshi seriam um trisal e Setsuna seria não-binária, mas não há evidências disso no mangá e nem na animação, há apenas um pacto entre as três de cuidarem da bebê Tomoe como uma família. A Naoko Takeuchi pensava um pouco a frente de seu tempo, mas também não podemos colocar representatividade onde não há, ainda mais sendo isto uma preocupação mais atual e que mal tinha visibilidade na época em que o mangá foi publicado.

Review | Sailor Moon Eternal
  • Animação
    (5)
  • Enredo
    (3.5)
  • Trilha Sonora
    (5)
  • Personagens
    (4)
  • Desenvolvimento
    (4)
4.3

Sumário

Filme 1: Um eclipse solar ocorre e enquanto a lua é coberta pelo sol, Usagi e Chibiusa encontram um misterioso pégaso chamado Helios, que procura por duas “donzelas escolhidas” para ajudá-lo a quebrar o selo do Cristal Dourado.
Um grupo misterioso chamado Dead Moon Circus aparece e seus objetivos são espalhar encarnações de pesadelo pelo mundo chamados Lemures, obter o Lendário Cristal Prateado, governar a Terra e a Lua e, eventualmente, o universo

Filme 2: As dez Sailors reunem-se para a batalha final. No entanto, a Rainha da Lua Morta, Nehelenia, as ataca com o poder dos seus pesadelos. Enquanto Helios usa sua última gota de força para salvar a Terra, Usagi transforma-se em Eternal Sailor Moon com a ajuda de suas amigas guerreiras.

Pros

  • A animação ficou muito boa, as músicas e imagens em computação ficaram mais polidas do que na série de TV
  • A preocupação com as vozes (tanto no original quanto na dublagem) foi algo admirável.
  • O traço está muito melhor comparado à série de TV e lembra um pouco a série clássica.

Cons

  • A fidelidade ao mangá acabou prejudicando a obra que poderia ter sido melhor e personagens podiam ter sido melhor explorados.
  • Algumas vozes da dublagem, apesar da preocupação, não casaram muito bem com os personagens (Chibiusa e Hélios).

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