Animes e Mangás: Os embaixadores culturais do Japão

RUMO A TOKYO

O ano é 2016, o evento mundial de encerramento das Olimpíadas do Rio de Janeiro é celebrado, como de costume a chama do espírito olímpico é passada adiante as futuras gerações e ao país sede. Nesse épico momento, um teaser anuncia mundialmente Tokyo como cidade sede das Olimpíadas de 2020. A passagem não poderia ser mais característica da cultura Kawaii (termo japonês,adjetivo para coisas fofas), que o primeiro ministro do país emergindo de um cano do jogo Super Mario Bros (jogo desenvolvido pela Nintendo). O ministro carrega em suas mãos o redondo sol nascente e vermelho da bandeira nipônica, que passa anteriormente, no teaser por: Tsubasa (protagonista do anime super campeões), Doraemon (famoso personagem de mangá) e HelloKitty (icône de fofura internacional).

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O momento é uma forte demonstração do valor e peso sociocultural que esses elementos e personagens possuem para Japão. Um mês após o evento o país também anunciou Goku (Dragon Ball), Naruto Uzumaki (Naruto), Astro Boy (personagem criado pelo famoso Ozuma Tetsuka), Sailor Moon (personagem do estúdio CLAMP), Shin Chan (humorístico personagem) Luffy (One Piece), entre outros diversos personagens de animes e mangás como embaixadores culturais das olimpíadas em Tokyo.

Imagem/Divulgação

Em comum, além de sua origem em animes e mangás, os personagens carregam os traços e características típicas da personalidade do povo japonês, com sua seriedade, humor, gentileza, determinação e excentricidade. Infelizmente devido a pandemia mundial de Covid-19 , as olimpíadas foram adiadas para 2021, entretanto seus ícones representantes e embaixadores permanecem intactos no espírito de seu povo e aguardam ansiosos – assim como nós – a competição.

A escolha de personagens de desenhos como figuras representativas de um país pode parecer peculiar. Muitos compreendem animes e mangás como um conteúdo puramente voltado ao público infantil e desconhecem sua importância na história do japão. É interessante compreender essa formatação cultural e artística para além do mero entretenimento, como uma manifestação cultural pelo qual um povo reergueu seu espírito.

HISTORIOGRAFIA

Muito antes de 2016 animes e mangás já participavam ativamente do cotidiano japonês, suas histórias se mesclam com a própria história do Japão. Os mangás remontam ao século XII, uma de suas origens é a pintura em rolos conhecida como Emaki-mono, narrativas ilustradas, que contam lendas, mitos, fábulas e histórias, conforme se desenrola o pergaminho.

Crédito/Imagem: Tokiwa Mitsunaga

Todavia os mangás começam a ganhar forma e nome no século XIX, com os desenhos de Hokusai, que retratavam movimentos e expressões corporais típicas do povo japonês, uma sequência entre os desenhos dava a impressão de continuidade e movimento. Posteriormente seus desenhos foram compilados em um livro ilustrado, em 15 volumes, intitulado: Hokusai Mangá, publicado entre os anos de 1814 e 1878. Esses “rascunhos excêntricos”, como Hokusai gostava de chamar, foram fonte de inspiração a todo universo de quadrinhos no modelo estético japonês que surgiram posteriormente.

Hokusai é o primeiro a utilizar a expressão Mangá, a palavra significava a junção de 漫 “Man” – “involuntário” ou “moralmente corrupto” e o ideograma 画 “Ga” – que significa imagens. Crédito/Imagem Katsushika Hokusai

Todavia não há de negar a forte influência estrangeira na formatação dos mangás como conhecemos hoje. Foi durante a era Meiji (1868-1912) que o Japão abriu seus portos para mundo ocidental pela primeira vez, Essa abertura proporcionou uma rica troca cultural, com importação de material artístico, mercadorias e intercâmbio de jornalistas e chargistas estrangeiros. Com destaque a forte influência da Europa, com os artistas Charles Wirgman (inglês) e George Bigot (francês) que introduziram os cartuns em terras nipônicas.

No início os mangás tratavam de questões políticas e econômicas, somente durante a era Taisho (1912-1927) esse nicho começa a ser voltado para o público infantil. Entretanto durante a segunda guerra mundial as publicações de mangás começam a sofrer forte repressão, por criticar duramente grupos ultranacionalistas e militares. Durante toda a guerra mangakás foram censurados e perderam seu direito de atuar na profissão.

Mangaká é o nome dado aos quadrinista ou cartunistas no Japão. Naoki Urasawa(Mangaká) Crédito/Imagem: Maki Ishii / Kana

Nesse período poucos mangás eram publicados, a maioria de cunho militar, sem críticas a ditadura e seus ideais. Esse quadro muda fortemente após a derrota do Japão na guerra, o desejo de expansão e supremacia que foi fomentado no povo durante anos se desmoronou em segundos, após os efeitos das duas bombas atômicas, lançadas em Hiroshima e Nagasaki, destroçando o espírito japonês e seus fortes conceitos baseados em máximas samurais.

O ESPÍRITO JAPONÊS

É nesse contexto que os mangás tem seu maior desenvolvimento, era necessário reerguer o espírito e honra de uma nação, que sofrerá com dois ataques atômicos. Nessa época o território japonês estava ocupado pelas forças armadas americanas e reformas políticas e econômicas eram urgentes. Ainda em meio ao luto, a nação japonesa se viu obrigado a aderir ao sistema capitalista, que marcou um segundo momento de abertura cultura, com forte influência da cultura estadunidense.

Da segunda aproximação cultural com o ocidente, em especial com os EUA, que os mangás tomam a forma que têm hoje e as animações em base aos quadrinhos japoneses começam a ser produzidas.

A palavra Anime é uma tradução literal da expressão “animation”, no japão esse termo não se refere exclusivamente a animações japonesas, mas qualquer tipo de animação. Entretanto no restante do mundo a expressão ganhou uma conotação própria, que caracteriza o termo especificamente como animações japonesas.

De todo modo, o estilo de animação único dos japoneses é reconhecido em todo planeta e embora seja uma arte a parte, tem como inspiração, na sua maioria, as obras desenhadas em mangás, que alcançaram tamanho nível de popularidade com suas histórias marcantes. Na época as animações estavam em ascensão no mundo, com os famosos desenhos da Disney.

Dentre os diversos mangakás que se destacaram e tiveram essa influência está o exímio Osamu Tezuka . O célebre quadrinista presenciou os horrores da guerra e com sua tinta e papel começou a criar histórias com mensagens de esperança e otimismo para as futuras gerações. Espirituoso e criativo o mangaká foi responsável por todo universo de animes e mangás que conhecemos atualmente.

Osamu Tezuka (1928-1989). Imagem/Divulgação

“Por que os filmes americanos são tão diferentes dos japoneses? Como eu posso desenhar quadrinhos que façam as pessoas rir, chorar e se emocionar como aquele filme? ’’.

Osamu Tezuka

Seus mangás tiveram grande impacto na psicologia da juventude pós-guerra. A estética de seus desenhos é mundialmente conhecida e adotada até hoje, a exemplo dos clássicos olhos grandes dos personagens de mangás. Tezuka inovou os quadrinhos japoneses, misturando elementos da linguagem cinematográfica aos mesmos, que permitiu uma transição mais fácil da adaptação de suas obras ao mundo das animações, com estreias em cinemas e canais de televisão.

Suas criações se espalharam pelo mundo, sendo conceituadas nos EUA, Europa e Brasil. Seu trabalho é tão importante para nação japonesa que recebeu o título de : “Mangá no Kamisamá” (Deus dos Mangás).

Em 1963, Tezuka finalmente realizou seu sonho de produzir animação em série no Japão, por sua própria produtora, a Mushi Productions. Em 1964 ,se tornou o primeiro produtor de anime a exportar uma série para o exterior, quando Tetsuwan Atomu (Astro Boy) foi exibida nos Estados Unidos. Imagem/Divulgação
A Princesa e o Cavaleiro (1953), a obra definiu o estilo de desenho característico dos animes e mangás, com personagens magros e olhos grandes e brilhantes, foi a primeira obra do gênero shoujo mangá ( voltado ao público feminino). Imagem/Divulgação

LEGADO

Ao longo de 80 anos, desde as primeiras publicações de Tezuka, animes e mangás apresentam um crescimento exponencial, como meio de entretenimento e parte estruturante da cultura japonesa, expressando valores, sentimentos e vestígios da história do país. Sua diversificação é para todos os gostos, desde o infantil ao adulto, com gêneros de ação, fantasia, ficção, aventura, drama, esportes, terror.

Atualmente no Japão existem diversas editoras e estúdios especializados somente nesse tipo de conteúdo, como a Shueisa, maior editora do país, com suas publicações em revistas semanais como a V-Jump e sua subsidiária Viz Media (distribuidora de mangás nos Estados Unidos). Do lado dos animes temos o premiado Studio Ghibli, com animações cinematográficas, que conquistaram a crítica mundo afora mundo, com seus clássicos encantadores: Hotaru no Haka ( O Túmulo dos Vagalumes),Tonari no Totoro (Meu amigo Totoro),Sen to Chihiro no Kamikakushi( A viagem de Chihiro), Hauru no Ugoku Shiro( O castelo animado), Kaguya-hime no Monogatari (O conto da princesa kaguya).

A esquerda: Meu amigo Totoro, no centro: A viagem de Chihiro, a direita: O castelo animado Imagem/Divulgação

”Muitos dos meus filmes têm fortes protagonistas femininas, corajosas, meninas autossuficientes que não pensariam duas vezes antes de lutar pelo que acreditam com todo o seu coração. Elas precisarão de um amigo ou um defensor, mas nunca um salvador.”

Hayao Miyazaki – Animador, cineasta e artista de mangá japonês. Co-fundador do Studio Ghibli

Esse mercado movimenta milhões por ano, sendo impressionante a quantidade de material original produzido pelo país. Em um ano típico são lançados mais de 100 animes, entre novidades e continuações, que estreiam conforme as estações do ano no Japão. E ⅓ de todo papel produzido no país é voltado aos mangás. Um universo que rende: filmes, jogos eletrônicos, acessórios, músicas, tendências e embaixadores.

A esquerda: Dragon Ball, franquia que rendeu 19,8 bilhões de ienes em 2019. A direita: Pokémon, franquia mais rentável do mundo, aproximadamente US$ 95 bilhões. Superando títulos como Star Wars e Harry Potter. Imagem/Divulgação

EMBAIXADA

O diferencial dos mangás e animes está na capacidade aparentemente inata de seus autores em carregar em seus desenhos, a alma de toda cultura japonesa. Embora nos eventos pós-guerra o espírito japonês tenha se quebrado, a nação demonstrou uma firme resiliência e a importância de preservar as raízes para dar fruto ao novo.

É esse espírito contido em cada página e frame, que torna a experiência em ler ou assistir uma obra japonesa algo único. As histórias contêm a essência do modo de pensar, agir, falar, se expressar, do japonês, não à toa que os ícones desse universo sejam a melhor representação do povo como embaixadores de sua cultura.

E atualmente o mundo inteiro parece estar apaixonado por essa cultura. A plataforma Crunchyroll, especializada em distribuição por streaming de animes e mangás, está presente em mais de 200 países, com mais de 3 milhões de inscritos.

Exposições no Museu do Louvre, prêmios em festivais, representação nos jogos olímpicos, interesse crescente de diversas plataformas como a Netflix, Amazon PrimeVideo, Hulu, etc; são exemplos do grau de importância que os animes e mangás atingiram em escala mundial, não somente como meio de entretenimento mas como arte.

CORAÇÃO VERDE E AMARELO

E claro, no país com maior número de japoneses fora do Japão, fãs não poderiam faltar,
entre os famosos e assumidos, que contribui ativamente para disseminação da cultura japonesa através dos mangás, está o único Mauricio de Souza. Ele conheceu pessoalmente Ozamu Tezuka, com quem teve uma excelente relação de amizade, tendo inclusive publicada histórias em quadrinhos da turma da mônica em homenagem aos personagens de Tezuka.

Mauricio e Tezuka. Imagem/Divulgação

O Brasil está entre os países da América latina que mais consomem produtos derivados de animes e mangás. Segundo levantamento recente da Crunchyroll o Brasil foi o segundo país que mais assistiu sua série original Tower Of God, atrás somente dos EUA. Sendo o quarto país com maior números de assinantes da plataforma no mundo.

Esse sucesso no Brasil não se deve somente a importação de conteúdos japoneses, mas também a reputação e imagem zelosa que os imigrantes e descendentes japoneses se preocupam em promover. O centro cultural Japan House , com sede em São Paulo, continuamente promove a interação do público com exposições de mangás, exibição de animes em telas ao ar livre e palestras com editoras que distribuem o conteúdo no Brasil. O centro possui um grande acervo com mangás para leitura em sua biblioteca.

Exposição Centro Cultural Japan House. Foto: Jorge Giampa Massarollo

ORGULHO E TRADIÇÃO

Como sociedade todos os povos têm muito a aprender com o Japão, os anos de isolamento e dores vividas pelas guerras os ensinaram a ter orgulho de sua própria história e a preservar suas tradições, sem entretanto impedir o progresso. Animes e mangás são prova viva dessa dinâmica temporal.Os personagens dessas histórias carregam a luta e o espírito do cidadão japonês, com sua simplicidade, disciplina e kokoro (coração em japonês), de modo que podemos afirmar que todo descendente japonês é um embaixador de sua cultura.

Dessa forma podemos analisar animes e mangás por diversos ângulos e perspectivas para além do entretenimento, compreendendo seu valor histórico, analisando seus recortes temporais e traços coletivos da psicológica de um povo, através de uma arte que registra e constrói diariamente seu meio.

Essa arte assumem papel de especial importância ao lado de outros tradicionais traços da cultura japonesa como: o origami, ikebana, bonsai, teatro no, haikai, culinária, budô e festivais tradicionais.

Verdadeiros embaixadores modernos, que embora não sejam de carne e osso, são extremamente sólidos, como espírito coletivo do Japão.

Referências

Artigos

Catão, Bruno Alves, et al. “Tribo De Consumo De Animes: O Anime Como Um Totem.” Revista Gestão e Desenvolvimento, 2017, p. 126.

Cunha F.C.P. Aspectos introdutórios do mangá como fonte: Da gênese desse impresso até a redução da produção durante a Segunda Guerra Mundial. Revista Mundo Livre. 2018

Gravett, Paul. Manga: Sixty Years of Japanese Comics. Collins Design, 2010.

Santo J.P.E. Cultura Histórica e Quadrinhos: um estudo de mangás sobre a segunda guerra mundial.UFPR. 2016

Sawada A; Bruna N.S. Contextos Históricos e Sociopolíticos dos Mangás e Animês e sua potencialidade no ensino. Instituo Oswaldo Cruz. 2018

Sites

https://tezukaosamu.net/en/about/

https://www.japanhouse.jp/saopaulo/

https://aja.gr.jp/english/japan-anime-data

 

Artigos Relacionados

Comentários

  1. Gostei demais desse texto! Muito didático, instigante e acessível! Recomendei para os alunos que orientava e que desenvolveram pesquisa sobre a potencialidade de ensino com animês e mangás. Esse texto escrito por Jorge é fundamental para superar os estereótipos que desqualificam as produções de cultura pop japonesa como apenas consumíveis para o entretenimento, pois mostra que existe muita história, arte e cultura que fundamenta ambas as produções japonesas. Parabéns!

  2. Incrível seu texto Jorge! Você começa a ler e não tira o olho até terminar rs
    Muito interessante essa parte histórica, não conhecia mesmo. E sim, com certeza dá pra analisar produções humanas sobre diversos ângulos. Muita gente fala que é “só” entretenimento, mas há muito por trás.