Nipônicos Garance: cultura e resiliência no Clube de Cultura Nipônica

Fãs de animê e mangá sabem que muitas escolas japonesas, representadas nessas narrativas, possuem diferentes clubes de estudos para seus estudantes. Você já imaginou estudar num colégio onde poderia participar de um clube sobre cultura japonesa, no Brasil? Esse sonho se tornou realidade a partir da iniciativa de duas estudantes do Colégio Militar do Rio de Janeiro (CMRJ) que, com apoio do professor, fundaram o Clube Nipônicos Garance.

Imagem/Divulgação: Ilustração da primeira mascote do Clube Nipônicos Garance/Amanda Xavier

 

O Clube Nipônicos Garance tem sido organizado por estudantes do Ensino Fundamental e Ensino Médio que desenvolvem atividades em relação às curiosidades da língua, histórias, costumes e tradições japonesas sob supervisão do professor de Geografia tenente-coronel Mauricio Sant’Anna. Neste ano, no dia 18 de setembro, o Clube também irá celebrar no evento virtual cinco anos de fundação.

O Minuto Otaku entrevistou com exclusividade a atual presidente do Clube, Alinne Citlali.

Nessa entrevista, conversamos sobre as experiências de Alinne com diferentes costumes, tradições, laços de amizade e familiares que a mobilizaram para aprender cada vez sobre essas diversidades. A presidente do Clube também compartilhou com propriedade suas reflexões, aprendizados e inspirações relacionadas ao interesse por aprender sobre os diferentes costumes e tradições na cultura japonesa. A estimada Kaichou (presidente) Alinne Citlatli ressalta que todas essas vivências a guiam nessa trajetória desde a sua infância na Cidade do México até a sua atual experiência no Rio de Janeiro, contribuindo para suas decisões e percepções de mundo que fazem parte da sua busca incessante por aprender com as diferenças.

Também conversamos sobre os desafios de adaptar essas atividades do Clube para o modelo remoto, por causa das restrições sanitárias neste período de pandemia. Ela relata sobre como as redes sociais e plataformas, como o Youtube, têm favorecido o propósito do Clube para tornar mais acessível os conhecimentos sobre cultura e história do Japão. Esses têm sido disponibilizados pelo Clube tanto em formato de vídeo no seu canal de Youtube Cultura Nipônica CMRJ quanto compartilhados pelos membros que se encontram virtualmente, todos os sábados, às 20h no horário de Brasília.

Imagem/Divulgação: Vídeo tutorial sobre como fazer uma Kokeshi/Alinne Citlali

Imagem/Divulgação: Vídeo sobre os três primeiros capítulos do livro Japan: The Story of a Nation de Edwin O. Reischauer/Alinne Citlali

Conhecendo a Kaichou Alinne Citlali

Estimada Kaichou Alinne, é um prazer poder aprender mais sobre sua trajetória pessoal e acadêmica! Obrigada por ter aceitado prontamente esse convite. Gostaríamos de saber onde você viveu a sua infância. E, atualmente, onde você vive?

Nasci e vivi 6 anos na Cidade do México, México. Agora, estou vivendo no Brasil até hoje. Sou brasileira e mexicana.

Como você considera essa adaptação ao clima, costumes e convivências no Brasil?

Foi um pouco difícil a adaptação, principalmente pelo clima e a alimentação que estava acostumada. O verão do Brasil, no início, foi algo insuportável.

Quem são as pessoas e quais são as experiências mais marcantes em cada fase de sua vida?

Na minha infância, no México, principalmente as pessoas mais importantes são a minha família que estiveram presentes nas minhas experiências mais marcantes de ter os meus primeiros aniversários com mariachis (grupos musicais que interpretam um gênero musical popular no México) e festividades que permanecem no meu sangue mexicano. Na minha infância, no Brasil, tenho como pessoas importantes os meus pais e a minha irmã, os meus avôs e os meus primeiros amigos que fizeram parte dos meus primeiros momentos no Brasil e me mostraram a importância dos laços da amizade.

Essas pessoas ou outras têm relação com seu interesse e entusiasmo pelas diferentes culturas, como a cultura japonesa?

Sim, acredito que o fato de eu ter experienciado duas culturas diferentes me ajudou a notar o que o homem foi capaz de fazer, as maravilhas da nossa criação como humanos. Meu interesse começou desde pequena, minha mãe sempre me levava para centros culturais com atividades recreativas. Quanto à cultura japonesa, foi mais uma consequência dos meus interesses pela cultura oriental. Gostaria que eu tivesse contato com ela mais cedo.

Como foram os seus primeiros contatos com a cultura japonesa?

Os meus primeiros contatos foram um tanto desastrosos, as denominações em língua japonesa me dificultaram muito o entendimento, pois acreditava que era necessário aprender japonês para saber a cultura. Mas, percebi que era necessário apenas sentir a cultura. Quando fiz isso pela primeira vez, tive uma vontade em aprender mais e mais tomou conta de mim.

Quais são seus atuais interesses, gostos e expectativas com relação à cultura japonesa?

Meus interesses são mais ligados ao Japão tradicional, como as artes tradicionais de culinária, a moda e a arquitetura e também a música tocada por instrumentos tradicionais. Minhas expectativas são conseguir notar os pequenos detalhes intencionais que produtos de tais artes possuem, conseguir apreciá-las da forma que merecem. Os aspectos da cultura japonesa que mais gosto são as artes tradicionais. Desejo aprender a tocar koto e conhecer mais sobre a culinária tradicional, principalmente os doces. Na verdade, estou aberta a todos os conhecimentos relacionados a cultura japonesa.

Como esses interesses, gostos e expectativas motivaram a sua participação no Clube de Cultura Nipônica?

Li livros, mangás e revistas, vi animes, estudei japonês, fiz tudo isso com o objetivo de trocar ideias com os integrantes do clube. Como comecei não sabendo de muita coisa, me dediquei a aprender tudo o que fosse do meu interesse quanto à cultura japonesa. Acredito que isso me ajudou a ter uma motivação, se eu me esforçasse, poderia ter um nível bom de conhecimento para me socializar com meus companheiros.

Considerando que às vezes podemos encontrar pessoas que julgam com preconceito os nossos gostos e interesses com relação às diferentes culturas, como você busca lidar com essas situações?

Não gosto de me meter em discussões infrutíferas, às vezes não costumo criar coragem para corrigir certas pessoas mais velhas que eu, pois muitas estão fixas nos seus ideais e posso sair na desvantagem após aquela discussão. Mas quando é alguém mais jovem ou na minha faixa etária, sempre procuro mostrar argumentos de que está errada essa forma de pensamento.

Quais são os desafios de buscar realizar seus gostos e interesses pela cultura japonesa nessa trajetória pessoal e acadêmica?

Fui afetada pelas inúmeras pessoas que acreditam que estudar cultura japonesa é o mesmo que fazer zoeira, por isso não trataram o clube como um lugar de aprendizado, o que me custou muito para manter firme a reputação do clube. Outro desafio foi o tempo, a conciliação entre a carga escolar e a preparação do clube que exigiu mais eficiência no decorrer do tempo.

Breve Histórico do Clube Nipônicos Garance

Como surgiu a ideia do Clube de Cultura Nipônica no Colégio Militar do Rio de Janeiro (CMRJ)? Quem são as pessoas envolvidas na concretização desse projeto?

Surgiu a partir da ideia da ex-aluna Amanda Xavier (1ª Kaichou) de criar um clube visto o grande interesse em cultura nipônica de muitas pessoas do CMRJ e, com ajuda de sua amiga Paula Karine (Vice-Kaichou) e do professor tenente-coronel Sant’Anna (Orientador/ Sensei) conseguiram oficializar o Clube em 2016.

Como foi o processo de criação e estabelecimento desse clube no CMRJ?

Primeiro, tinham que ter o projeto do Clube em mãos para depois pedir para o então comandante do Colégio Militar do Rio de Janeiro. Após isso, disponibilizaram uma sala para serem feitas as atividades do novo CCN (Clube de Cultura Nipônica).

No CMRJ, pode-se dizer que é comum aos alunos criarem ou participarem de Clubes?

É muito comum, à tarde. Muitas pessoas costumavam ter um clube de seu interesse, como uma atividade extracurricular. Criar um clube talvez não seja tão comum assim, geralmente são os professores que criam, mas para que um aluno crie um clube precisa de um orientador que seja professor. No nosso caso foi o tenente-coronel Sant’Anna, professor de geografia do CMRJ.

Qual é o significado de “Nipônicos Garance”?

Como originalmente nossas reuniões eram feitas às sextas-feiras, nesses dias usamos como uniforme o meia-gala, caracterizado por ter uma saia ou calça garance (vermelha). Por isso nos chamamos de Nipônicos Garance, por sermos do clube com um vestuário garance (avermelhado), diretamente relacionado às sextas-feiras.

Como você avalia a importância da existência desse Clube para os estudantes?

Acredito que seja de grande importância, pois é uma forma de melhorarem o jeito de expor suas ideias, socializar com pessoas que compartilham os mesmos gostos, conseguindo novos companheiros e, quem sabe, amigos.

Quais são os objetivos que fundamentam as atividades organizadas pelo Clube?

Posso simplificar dizendo que damos uma base para os integrantes para evitar choques culturais e orientá-los nos estudos de seus interesses relacionados à cultura japonesa. Mas, como dizemos, o importante é se divertir aprendendo.

Quais são as atividades já realizadas pelo Clube? 

Temos atividades das mais variadas, mas cabe destacar algumas: oficina de Ikebana, feita no Forte de Copacabana, palestras sobre Estudos no Japão, visita do Cônsul-Geral e da Vice-Cônsul no CMRJ, demonstração de Kyudô, demonstração de Shodô e apresentação de amuletos japoneses. Somos gratos ao apoio que o Consulado do Japão no Rio de Janeiro tem nos dado.

Como os membros internos e os externos ao Clube têm contribuído para essas atividades organizadas?

Geralmente, as atividades organizadas são para trocar ideias, ou seja, um bate-papo. Então a presença dos membros é essencial para desenvolver o assunto, completando a atividade com informações e perspectivas novas.

Como as pessoas externas ao Clube, que desejam acompanhar as atividades produzidas pelos membros, podem acessá-las?

Podem seguir-nos nas redes sociais, lá postamos todas as atividades feitas. Recomendo ver o nosso canal do Youtube, tento fazer uns vídeos bem informativos com assuntos atuais.

Experiências no Clube Nipônicos Garance enquanto Kaichou e Estudante

Como você conheceu o Clube?

Conheci o Clube graças ao tenente-coronel Sant’Anna, à Amanda Xavier e à Paula Karine. Participei de muitos clubes orientados pelo tenente-coronel Sant’Anna. Assim, ele me convidou para o Clube de Cultura Nipônica do CMRJ, sendo a mais nova integrante desse.

Como foi o processo de se tornar estudante e, posteriormente, kaichou no Clube?

Como o tempo foi passando, a 1ª Kaichou Amanda Xavier precisava se dedicar mais no terceiro ano do Ensino Médio, tornando-se inviável ficar nas sextas-feiras à tarde. Ela, então, determinou o cargo ao 2º Kaichou aluno Júlio César Barcellos, que, infelizmente, também teve que pouco tempo depois se dedicar ao terceiro ano. Logo, em fevereiro de 2019, me deixaram o cargo como 3ª Kaichou do Clube de Cultura Nipônica.

Como os seus responsáveis, amigos e colegas consideram a sua participação nesse Clube?

Eu recebi apoio dos meus familiares, amigos e colegas. Graças aos integrantes do clube, conseguimos mantê-lo, independentemente de qual fosse o problema. Tiveram vários momentos em que percebi que a união do clube era mais forte do que eu pensava e isso me motivou a me dedicar mais e mais.

Como a pandemia de Covid-19 afetou a forma de organizar e realizar as atividades do Clube?

A pandemia forçou um ensino virtual e ninguém estava acostumado com isso, portanto, no ano de 2020 escolhi não ter reuniões toda sexta-feira, pois iria sobrecarregar o pessoal e me dediquei na publicação de vídeos no nosso canal do YouTube além das habituais notícias divulgadas no Facebook/Twitter. Já nesse ano, tornou-se mais viável termos atividades, porém seguimos em encontros virtuais. Graças a quarentena, o Clube se desenvolveu nas redes sociais no ano de 2020.

Como essas atividades do Clube tem sido organizadas e realizadas pelos estudantes e professores responsáveis pelo Clube?

Atualmente, no CCN da CMRJ, estamos com aulas virtuais, todos os sábados. Essas atividades são organizadas de forma que a cada 4 semanas temos um bate-papo sobre uma obra japonesa (livro, filme, documentário e dentre outras obras). Começamos às 20:00h no horário de Brasília e oficialmente terminamos às 22:00h, deixando tempo livre para socializarmos. Primeiro, costumo apresentar o assunto do dia da atividade, depois os próprios participantes vão desenvolvendo esse assunto.

Quais foram as experiências mais marcantes a partir de sua participação nesse Clube?

As minhas experiências mais marcantes no clube foi o meu primeiro dia de clube, meu primeiro dia como Kaichou e muitos outros momentos que me mostraram o porquê desse clube ser tão importante para mim e para outros integrantes, mostrando que nós temos resiliência diante das adversidades.

Como você avalia a sua participação nesse Clube? Essa interfere no seu desenvolvimento em diferentes áreas de conhecimento, escolhas acadêmicas e profissionais?

Desenvolveu e sigo desenvolvendo, a eficiência ao conciliar a carga escolar e a preparação do clube, falar melhor em público e conseguir expor minhas ideias de forma clara, algo muito importante para a minha vida profissional. Quanto às minhas futuras escolhas acadêmicas e profissionais, as atividades do clube me fazem rever certos planejamentos para deixar mais próximos dos meus interesses por cultura nipônica.

Como você pode aconselhar os estudantes que desejam conciliar com o currículo escolar alguma atividade extracurricular, tendo como exemplo a sua experiência com o Clube Nipônicos Garance?

Não é necessário tanto tempo para desenvolver-se numa atividade extracurricular, basta torná-la o seu novo lazer, mas se o estudante quiser liderar uma atividade extracurricular, na minha opinião e da forma que fiz foi essa: tentei melhorar meu carisma, abrir minha mente para qualquer forma de pensamento, me colocar no lugar dos outros e deixar calendários bem interessantes para o público-alvo. Isso pode demandar tempo e treino.

Quais contatos você gostaria de disponibilizar para as pessoas acompanharem e divulgarem as atividades do Clube?

Facebook: nipônicos.garance
Instagram: culturaniponicaCMRJ
Tik tok: @niponicaculturacmrj
Youtube: Cultura Nipônica CMRJ
Twitter: @clube_rj
Para contato mais direto: niponicaculturacmrj@gmail.com

Artigos Relacionados

Comentários