Uma breve história do mangá

O Mangá (ou quadrinho japonês), não é apenas uma forma de entretenimento dos japoneses, esses quadrinhos estão intimamente ligados ao seu dia-a-dia e isso inclui áreas como, política, economia, família, religião e gênero, refletindo as realidades da sociedade juntamente com os mitos, crenças e fantasias que os japoneses têm de si mesmos, sua cultura e o mundo. 

A palavra mangá significa “história em quadrinhos” em japonês, e é resultado de dois ideogramas: man (humor, algo que não é sério) e (imagem, desenho). Para os japoneses toda e qualquer história em quadrinhos, independentemente de ser ou não japonesa, é chamada de mangá, pois é a palavra japonesa que designa “quadrinhos”

A existência do quadrinho japonês é um assunto a ser decidido ainda, pois alguns autores mencionam o seu surgimento nos anos de 607 d.C, em rolos de pergaminhos encontrados em antigos templos no Japão.  Já outros autores partem do princípio que surgiu na era Edo (1603–1868), mas que ganham força na era Meiji (1867-1912), sofrendo transformações, adaptações e influências de outras culturas, até o formato que conhecemos hoje em dia.

Imagem/Divulgação: Emakimono scroll: Japan: mid-Edo: Cockfighting

Mas é a partir do ano 1920,  com a influência dos quadrinhos (charges) ocidentais, os quadrinhos japoneses se fixaram no gosto do povo japonês, pois os desenhistas japoneses já haviam estabelecido sua independência nas produções de histórias em quadrinhos (HQ’s), e souberam adaptar os desenhos das tirinhas ocidentais, para a sua própria maneira de desenhar e de ilustração. 

Voltando um pouco, na década de 1901, Rakuten Kitagawa (1876-1955) foi o primeiro desenhista a se destacar como mangá-ka, criando sua própria revista colorida de quadrinhos e charges. Neste período, a maioria dos quadrinhos tinha como público alvo adultos, e só nas décadas de 1930 é que as revistas infantis ganham destaques, como a Shonen Club publicada pela Editora Kodansha, onde as melhores histórias eram publicadas em forma de livro. 

Imagem/Divulgação: Rakuten Kitazawa

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), não houve muitas publicações, pois alguns quadrinistas se alistaram ao exército, mudaram de atividades ou mantiveram seus trabalhos na publicidade da guerra. Porém com o fim da guerra, a retomada da produção dos quadrinhos veio à tona, tendo condições favoráveis para a renovação de atividades dos mangás.

Uma das principais razões para esse renascimento foi o fato de que o povo japonês, uma vez derrotado, queria o mais rápido possível apagar os traços da vigência de outros ideais, os mangás do pós-guerra não exploraram o tema bélico, como foi feito em outros países, por uma única razão: o Japão hoje é a única grande nação do mundo a ter uma cláusula em sua constituição renunciando à guerra para sempre e proibindo a manutenção de forças de combate aéreas, navais ou terrestres.

Com um novo cenário para novas idealizações de histórias, a criação e venda dos mangás eram de fácil acesso a todos, sendo assim, o surgimento de novos temas criado pelos novos quadrinistas. Outro motivo que veio a somar no grande volume dos mangás no Japão, foram as publicações realizadas em revistas tipo underground, chamadas de akai hon (livro vermelhos) mas sem o conteúdo político-erótico que caracterizava nos quadrinhos norte-americanos.

Destacamos que é nesse período em que Tezuka Osamu (1928 -1989), estudante de medicina na época, começou a editar e produzir seus primeiros trabalhos, tornando-se o quadrinista mais famoso do Japão. Se tornou influente para os demais mangakás que criariam  e canalizariam todo o tipo de agressividade causada pela guerra, direcionando para as histórias que focam em esportes, como luta livre e o boxe. 

Imagem/Divulgação: Tezuka Osamu

Ao falar sobre histórias em quadrinhos, estamos falando de arte sequencial, termo concebido por Will Eisner (1917-2005) e, como arte devemos lembrar que elas estiveram presentes na humanidade, desde a pré-história como primeira forma artística realizada pelo homem, assim como primeira forma de comunicação desse, nas pinturas rupestres relatam o dia-a-dia das civilizações.

A arte sequencial é um processo de encadeamento sequência de imagens que quer transmitir uma ação, movimento e informações em uma determinada história em quadrinho, considerada hoje em dia como nona arte por conter os elementos principais em sua estruturação a cor, palavra e imagem. O autor Will Eisner (1917-2005) tem como conceito sobre arte sequencial

“ ‘Escrever’ para quadrinhos pode ser definido como a concepção de uma ideia, a disposição de elementos de imagem e a construção da sequência da narração e da composição do diálogo.” 

Para os japoneses a arte sequencial já estava presente em seu cotidiano de certa forma, pois existiu uma predisposição para a forma visual de comunicação em decorrência do contato com os chineses no século IX, pois os japoneses não tinham uma linguagem escrita.

Veja também: A 9º Arte no Japão

No século IX utilizaram os ideogramas existentes na China para representar sua linguagem oral. Desse empréstimo criaram um silabário nipônico simplificado de 50 caracteres para representar a fala, denominado hiragana. Assim, ao lado da escrita chinesa, desenvolveu-se uma escrita japonesa bastante simplificada, que deu enorme impulso ao desenvolvimento da literatura japonesa.

Imagem/Divulgação: Illustrated Sutra of Cause and Effect [fr], 8th century

Com isso podemos perceber que a história da escrita japonesa, está presente na absorção de traços de figuras reais, “signos que representam e expressam visualmente a ideia de palavras, diferente da escrita alfabética, que não transmite sensorialmente nenhum sentido”. Logo, é preciso que a pessoa decodifique as palavras em conceitos para ter o sentido desejado. 

Outra realidade dos japoneses, é que para ler um jornal no Japão, é preciso que a pessoa tenha no mínimo um conhecimento de 2 mil ideogramas (kanji), o que se obtém somente ao fim da escolaridade média, porém nem todos conseguem ler um texto qualquer devido a grande gama de ideogramas. Logo a dificuldade para escrever o nome de alguém ou algum lugar é consultado um dicionário próprio, pois muitos kanjis tem o mesmo som, porém com escritas diferentes. 

Existem diversos fatores que buscam explicar a grande ascensão dos mangá e o consumo astronômico de quadrinhos no país, tornando o Japão um grande consumidor dessa arte. Alguns estão ligados ao crescimento econômico após a Segunda Guerra Mundial, a reforma da estrutura dos mangás a partir dessa ou até mesmo a origem pictográfica da língua. Dentro desses aspectos, linguísticos ou socioeconômicos, é que os quadrinhos não se tornaram importantes na cultura japonesa se não houvesse a necessidade para sua existência.

Veja também: Mangás: gêneros e classificações

O mesmo ocorre nos quadrinhos do ocidente, o surgimento de novos heróis além de Superman, Mulher Maravilha, Batman, todos pertencentes a  editora DC Comics, trazem uma nova leitura das “necessidades” que naquele momento estavam surgindo, mesmo após as fortes críticas e ameaças artísticas no início dos anos 1950, com o terrível surgimento livro de Frederic Wertham intitulado The Seduction of the Innocents (1954).

Hoje em dia o mangá ganhou seu espaço no mundo e no Brasil, sendo um dos países que mais consomem esta mídia japonesa, ganhando cada vez mais fãs e seguidores, ficando apenas atrás de Portugal, Argentina e México que são os maiores consumidores de mangás, depois do Japão. Atualmente o mangá não é mais uma produção apenas japonesa, tornando-se assim um estilo de produto, pois existem os mangás coreanos, chineses e americanos.

Referências

EISNER, Will. Quadrinhos e Arte Sequencial. 1 ed. bras. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

LUYTEN, Sonia M. Bibe. Hq como prática pedagógica. In: LUYTEN, S. M. B. (Org.). História em quadrinhos – Leitura Crítica. 3ª edição

MACKWILLIAMS, Mark Wheeler, 1952 – Japanese visual culture : explorations in the world of manga and anime / edited by Mark W. MacWilliams.

SATO, Cristiane A. JAPOP – O Poder da Cultura Pop Japonesa. Editora: São Paulo: NSP-HAKKOSHA, 2007.

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