Uma breve história dos animês: do Japão ao Brasil

Histórico do anime

O anime é hoje um fenômeno que tornou-se muito popular no Brasil entre diversas faixas etárias. Convido gentilmente o leitor para que entre neste mundo, misto de fantasia e em partes, cotidiano próximo à vida real para que possa compreender, se aproximar e adentrar neste rico e fascinante universo.

Primeiramente, a palavra animê é o nome dado aos desenhos, animações  japonesas. Ao pensar em desenhos japoneses logo se tende a imaginar olhos grandes, expressões de sentimentos exacerbadas, dentre outros, o que não é uma verdade, pois, atualmente, vários são os estilos de animes e de desenhos japoneses, não se contendo apenas em traços que remetem a tal pensamento.

O desenho no Japão é uma tradição muito antiga, datando, aproximadamente, do século XI. Naquele tempo, existia um monge xintoísta de nome Toba Sōjo (1053- 1140) que desenhava animais em rolos de pergaminhos que contavam histórias. Posteriormente outros japoneses desenharam em pergaminhos, com temas eróticos. O traçado exagerado visto hoje é consequência de que muitos não sabiam o kanji, que é um dos três alfabetos japoneses, originário da China. Por conta de não saberem o alfabeto um desenho de tal forma era o melhor recurso para expressar sentimentos e ações sem valer do ideograma.

Toba Sōjo Picture (1053- 1140)

Outro em que a arte de desenhar se desenvolveu e que merece destaque é o período Edo (1600 – 1867) em que o Japão sofreu um distanciamento do resto do mundo e a produção gráfica do país sofreu um aumento considerável. O tema mais comum era a religiosidade e os desenhos auxiliavam na meditação (zenga) e também, outra categoria (otsu-e) que serviam como amuletos budistas, ajudantes da elevação espiritual. Pouco tempo depois, outros desenhos ganharam espaço, com relevância de temática da chegada dos europeus ao Japão (nanban) e “as figuras do mundo flutuante” (ukiyo-e) com temas eróticos e humorísticos, que tiveram uma boa recepção em sua época. Agora, cabe uma pequena diferenciação sobre a palavra anime e a palavra mangá. Anime se refere a um desenho animado e o mangá se refere a uma história em quadrinhos, ou seja, alguns mangás podem se tornar animes.

A palavra mangá foi utilizada pela primeira vez em 1814 com Katsura Hokusai, que era pintor e em sua obra, retratou 15 séries de desenhos que receberam o nome de Hokusai Manga. Mais tarde, em 1853, os Estados Unidos chegaram ao Japão por meio de Matthew Callbraith Perry que possuía o intuito de alargar os laços de amizade entre os dois países e por fim, terminar com o isolamento japonês. Com a “aliança” entre os dois países, pintores americanos foram ao Japão e no conviver uniram-se com mulheres nipônicas, expandindo a criação dos desenhos, agora satíricos, que foram bem recebidos pelo público.

Esse intercâmbio permitiu uma nova expansão no mercado do desenho japonês, até que, em 1901 a primeira história em quadrinhos com personagens fixos foi criada por Rakuten Kitazawa, nomeada Tagosaku to Morukubei to Tokyo (A viagem a Tóquio por Tagosaku e Morukubei).

A esquerda Tagosaku to Morukubei to Tokyo, a direita Hokusai Mangá

Agora em 1910, com o cinema os japoneses tiveram contato com a animação em desenhos, ou seja, o desenho animado e em 1913 os japoneses começaram a produzir desenhos animados em papel nanquim baseados em fábulas infantis. Os anos 20 foram destacados pela evolução da animação japonesa, com novas animações e temáticas diferenciadas, com ênfase na técnica da animação que foi melhorada.

Na década de 30 o Japão se encontrava em situação de guerra com a China e a produção cinematográfica deste período era relativa à guerra, com um destaque: o controle do cinema e da animação em estúdio era militar, ou seja, a produção era censurada, apenas temas bélicos poderiam ser retratados, com exaltação ao Japão, o que foi incentivado pelos militares causando, com efeito, expansão da técnica japonesa que teve maior aumento naquele momento. Pensem, os militares incentivavam os estúdios para que produzissem temas bélicos, o incentivo era financeiro e os estúdios por sua vez, produziam mais e com melhor qualidade. Com o fim da segunda guerra mundial o Japão sofreu um efeito de desmilitarização, portas abetas para os estrangeiros que, ali, poderiam se fixar e troca informações com os japoneses a nível de expandir a produção.

Nos anos 50 com uma influência ocidental de pós – guerra, um desenhista chamado Osamu Tezuka revolucionou a indústria dos desenhos, com olhos grandes e marcados e expressões de grafia influenciada por Walt Disney. Seus desenhos assim feitos expressavam melhor os sentimentos e o mundo interno das personagens, pois, como veremos posteriormente neste trabalho, as personagens de animê possuem um mundo interno (psicológico), repleto em detalhes.

Em 1962 a primeira série em animê foi produzida para ser televisionada, todavia os episódios eram irregulares e sem uma frequência definida, gerando insucesso. Poucos anos mais tarde outra série foi produzida com regularidade de três vezes por semana e mais episódios, gerando sucesso de público e recorde de audiência na televisão.

A esquerda Astroboy, a direita Osamu Tezuka

A expansão do anime não parou e ainda até hoje é observada e se mantém como fenômeno atuante. Os animês possuem divisões tais como:

  • Animês por sexo: feminino, masculino.
  • Animês por gênero: tipo de história, erótica, fantasia, suspense.
  • Animês por faixa etária: criança, infanto-juvenil, adulto

Cabe lembrar que o animê não é visto apenas por crianças, aliás, outro fato notório é que poucos são os animes infantis, que retratam, por exemplos, fábulas. O maior mercado para o anime é o adulto e infanto-juvenil ou juvenil.

Outra característica percebida no anime é a serialização, ou seja, a história continua de um capítulo para outro e tem fim. A respeito da serialização FARIA (2008) diz:

“Além de serializadas, nas histórias dos animês e mangás o tempo não para. Diferentemente dos desenhos e quadrinhos americanos, nos quais os heróis têm sempre a mesma idade e as histórias podem não se alterar com o tempo sendo até intermináveis, nas produções japonesas as histórias acabam. Não só isso, os personagens sofrem os efeitos do tempo, como em Dragon Ball, em que o personagem Goku começa criança, cresce, casa, tem filhos, envelhece, e, por fim, morre.”

Nos animês voltados para o sexo feminino nota-se temas como amores, disputas, términos de relacionamento, entre outros, é o que afirma FARIA (2008):

“As produções para o público feminino também trazem particularidades interessantes: os temas das histórias para garotas são vários, assim como os cenários: amores, disputas, desilusões, competição e morte dentro de cidades, escolas, castelos ou florestas, trazendo um aspecto fantasticamente real dentro de uma situação fantasiosa.”

Ainda referente à questão FARIAS (2008) novamente afirma:

“As características dos animês e mangás femininos são: traço limpo e rebuscado, histórias com fantasias, ação e romance, heroínas fortes, determinadas e meigas, que se sacrificam pelo amor, rivalidade, amores impossíveis etc.”

Cabe, por final, introduzir  os nomes destes gêneros de animês, vale lembrar que esta é uma classificação genérica, pois os gêneros e subgêneros são muitos. Segundo BRITO, GUSHIKEN E GROSSO (2011):

“Pode-se citar, genericamente, como sendo os segmentos-base das animações e quadrinhos japoneses:

Kodomo: gênero direcionado especialmente para crianças. As produções desse segmento possuem enredos pouco complexos, traços simples e seus conteúdos muitas vezes são dedicados à alfabetização, a ciência.

Shounen (ou shonen): gênero direcionado a meninos jovens e adolescentes. O enredo do shounen, geralmente dramático, ressalta a coragem e o companheirismo como atitudes a serem buscadas acima de tudo e é permeado por uma dose considerável de violência, tragédia, humor e ação.

Josei: direcionado à mulheres adultas (ou maduras, tradução literal do termo). Os enredos são mais complexos e maduros que os do shoujo, suas histórias, mais realistas e centradas no universo feminino, fogem aos enredos mágicos ou ficcionais e abordam temas como a bulimia, o abuso sexual, depressão pós-parto, aids, divórcio, sexo dentro e fora do casamento e mercado de trabalho.

Seinen: direcionado à homens maduros. São mais psicológicos, satíricos e violentos que os shounen além de não haver restrições em relação ao sexo (assim como o josei), contudo, o enfoque é dado sobre a trama e, consequentemente, as histórias são menos orientadas para a ação.”

Veja a lista completa com todas as categorias de mangás em nosso artigo clicando aqui!

Os animês no Brasil

Imagem/Divulgação

 Já foi comentado, de forma breve o histórico do anime no Japão, país que hoje tem o Brasil como um potencial consumidor  do mercado de animês, todavia, agora, será apresentado o caminho do anime no Brasil, sua história e como o nosso país se tornou tal consumidor de afinco.

Primeiramente, o mangá japonês veio para o ocidente quando os Estados Unidos aproximaram-se do Japão, dando fim ao isolamento japonês. Como já explicado anteriormente, desenhistas americanos foram ao Japão e na viagem ocorreu um fascínio pelo desenho japonês, seus traçados e estilos. Consequentemente os países mencionados trocaram uma espécie de “intercâmbio” de informações referentes ao desenho, como exemplo temos o norte americano Frank Miller que , em 1987, influenciado pelas histórias japonesas criou a revista Ronin , que contava a saga de um samurai e suas aventuras. A revista possuía 300 páginas e causou furor no mercado. Miller se considerava fã da cultura japonesa e com o seu trabalho quis homenagear alguns desenhistas tidos por ele, como mestres. Seu trabalho de forma alguma ficou restrito ao seu país, expandiu-se para Itália, França e Suíça, com outros trabalhos, causou, sempre, admiração por parte do público.

Mas mangá não foi o único responsável pelo sucesso dos desenhos japoneses, mas sim os próprios desenhos animados (animes) que conseguiram conquistar o público, aumentando de forma considerável o número de consumidores.  Aproximadamente, a partir de 1970, o interesse dos países ocidentais no Japão cresceu. A indústria japonesa começou a produzir mais desenhos e o cinema também merece destaque, com produções voltadas ao desenho (animê). Cabe lembrar que este interesse não passou apenas pela esfera do desenho japonês, mas também, naquele momento, A economia japonesa se encontrava solidificada e tal interessa também perpassou pelas esferas da cultura japonesa de forma geral, tal com a arte e a religião, com as seitas budistas, que foram as mais destacadas, naquele momento.

No Brasil este interesse veio anterior a Frank Miller, o primeiro fato a ser destacado é a vinda dos japoneses para cá, em especial nos estados de São Paulo e Paraná. Sobre esta questão, LUYTEN (2003) afirma:

“No Brasil, no entanto, muito antes de Frank Miller, “descobrir’ os mangás, estes já eram fartamente lidos pela comunidade dos descendentes de japoneses. Eles eram importados e distribuidoras especializadas – normalmente localizadas no bairro da Liberdade na cidade de São Paulo – enviavam para o interior quer do Estado de São ou Paraná para as colônias nipônicas.”

Os animês e filmes vindos do Japão eram exibidos em um cinema no bairro da liberdade. Na televisão eram exibidos seriados japoneses desde 1970, como é o caso de Ultraman, Jaspion, entre outros, exibidos nas emissoras nacionais. Hoje o Brasil possui a maior colônia de japoneses e descendentes de japonês do mundo, com o seu começo em 1908, com a vinda de japoneses em busca de oportunidades em terras brasileiras.

O sucesso, talvez a maior consolidação do anime no Brasil foi com o desenho Os Cavaleiros do Zodíaco exibido pela extinta rede manchete de televisão, exibida nos anos 90. A animação japonesa, a partir daí, encontrou um território aberto e fértil e, depois do desenho mencionado, outros vieram, como o desenho tema deste trabalho, dentre outros.

Hoje, o mercado de venda do anime, assim como o cosplay (pessoas fantasiadas como personagens de mangá ou de anime) e eventos japoneses relacionados em geral possui fãs e seguidores em vários estados brasileiros, com destaque para São Paulo. Outro fato crescente é o uso da internet para ver desenhos ou baixar arquivos relacionados à mangás ou animês. Assim, pode-se entender melhor a influência do anime em nossa terra para que se possa seguir adiante com a análise da importância do anime na constituição do sujeito, no próximo artigo.

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