Viktor Danko: Animação japonesa através dos tempos

No artigo anteriormente publicado, Rio Karuta: sonhos e amizade no jogo  a kaichou Maria Clara Heim, presidente da Associação de Karuta do Rio de Janeiro, compartilhou suas experiências enquanto jogadora de Karuta e estudante de Letras Japonês e Português na UERJ. Especificamente, ela apresentou sobre como  seus primeiros contatos com animês e mangás a motivaram tanto para aprender a língua e a cultura japonesa com também a ensinar o jogo karuta. Nesse sentido, apresentamos a entrevista exclusiva com o Viktor Danko, Mestre em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi que também compartilha sobre como a cultura pop japonesa influenciou sua trajetória. Ele detalha sobre como seus projetos profissionais e acadêmicos tem afinidade com o seu interesse pela cultura pop japonesa, principalmente os filmes de animação do Studio Ghibli e seu diretor Hayao Miyazaki que o motivaram a pesquisar sobre seus aspectos históricos.

Minuto Otaku entrevistou com exclusividade o Me. Viktor Danko, autor do livro A animação japonesa através dos tempos.

Conhecendo o Viktor Danko

Querido Me. Viktor, é um prazer poder aprender mais sobre sua trajetória pessoal e acadêmica! Obrigada por ter aceitado prontamente esse convite. Gostaríamos  de saber sobre onde você nasceu e onde você viveu a sua infância e\ou adolescência. Atualmente, onde você vive?

Eu nasci em uma cidade da grande São Paulo chamada Suzano, passei a infância e a adolescência lá. Atualmente, eu estou na capital de São Paulo.

Caso você tenha se mudado para diferentes lugares, como foi a adaptação às diferentes culturas e costumes de cada lugar?

Não mudei para diferentes lugares, no sentido de países ou estados, mas mudei para muitas casas. Só em Suzano morei em quatro bairros diferentes. Na época do mestrado, eu passei um mês com meu amigo Bruno lá no interior em Presidente Prudente. Ainda morei por um mês em uma república no Butantã.

“Adaptação” nesse caso tem mais a ver com o que você consegue mudar na sua postura, de acordo com o que está ao seu redor, principalmente as pessoas. Para mim isso era realmente complicado… Eu sempre fui muito cabeça dura em relação às minhas posturas. Uma professora de língua portuguesa me disse uma vez: “você leva tudo muito a ferro e a fogo”, ela tinha razão e ainda tem. Eu fiz uma tatuagem que meio que representa isso.

Hoje em dia sou mais flexível em muitas coisas. Minha primeira vez no exterior foi em 2018 quando fui para um congresso nas Ilhas Canárias, em Santa Cruz de Tenerife. Fui com uma pessoa que hoje é uma grande amiga, a Laryssa Prado, que também pesquisa animação e que é da equipe do br.animation no Instagram junto comigo.

Quem são as pessoas e quais são as experiências mais marcantes nesses contatos com diferentes culturas?

Acho que nós aqui do Brasil somos muito influenciados pela cultura que vem dos Estados Unidos, o famoso American Way of Life e American Dream.

Quando eu percebi que o mundo é muito maior que isso, eu comecei a pesquisar mais sobre outras culturas, fora as que chegavam a mim por conta própria.

Harry Potter foi o livro que mais me marcou na vida e que me introduziu para a literatura britânica. Um filme que eu vi muito quando era criança se chama A guerra dos pássaros e é dinamarquês, não conheço ninguém mais quem viu aqui no Brasil. O próprio Hayao Miyazaki, que foi o diretor escolhido para a minha pesquisa do mestrado, é japonês. Atualmente, estou lendo o livro “Cem anos de solidão” do Gabriel Garcia Márquez que é colombiano. Fora todos os filmes que vi durante e depois da época da faculdade, são de diversos países e têm uma importância histórica gigantesca! 

Sobre as pessoas que me influenciaram, é até difícil falar de todos. Atualmente, o meu autor favorito é o Neil Gaiman, eu tenho quase tudo que ele já escreveu. Acho simplesmente muito boas as histórias que ele conta, tem algo ali que faz com que eu me identifique demais com tudo que está acontecendo. Se fosse para falar da pessoa que mais me marcou, não poderia ser outro se não o Hayao Miyazaki. Ele foi o foco da minha pesquisa do mestrado. Eu fiz um recorte sobre os filmes que ele dirigiu após a fundação do Studio Ghibli. Eu já dei várias palestras, publiquei alguns artigos e até escrevi um livro graças a essa pesquisa sobre ele.

Essas pessoas ou outras teriam relação com o seu interesse e entusiasmo pelas diferentes culturas, inclusive em relação à cultura japonesa?

Muita gente me pergunta o motivo de ter sido ele e não outro diretor que eu gosto. A reposta é que ele é muito familiar para mim. Um dos primeiros filmes que eu vi quando era criança foi o Meu Vizinho Totoro e foi algo que, mesmo sem saber dizer o motivo, me marcou muito. Depois disso, e por afinidade, eu sempre acabava encontrando novos filmes dele para assistir. No fim das contas a filmografia do Miyazaki é uma constante na minha vida, por isso que ele foi a escolha certa para a minha pesquisa do mestrado. Fica a dica para aqueles que querem seguir com um mestrado e até o doutorado, pesquisem algo que vocês gostem e tenham afinidade.

Existe uma afinidade entre o Brasil e o Japão, com certeza. O Brasil é o país que mais possui população nipônica fora do Japão. Não só isso, mas a cultura que vem de lá é algo muito diferente. 

As diversas animações japonesas que víamos na televisão, os mangás, os eventos de anime, tudo isso teve influência em mim nos anos da adolescência. Eu gostava muito! Eu corria atrás de novidades para ler, para conhecer, para assistir. Eu tenho uma certa nostalgia para a época dos fansubs, lembro de esperar ansiosamente para assistir novos episódios de One Piece. Era uma época muito boa para esse tipo de entretenimento. É claro que hoje em dia vemos a influência do Japão em praticamente todas as esferas, de filmes, jogos, livros, animações, tudo! Basta só saber para onde olhar.

É engraçado ver que muito pouco do que nós conhecemos realmente foi pensado para o mercado fora do Japão. Na verdade, muita coisa só chega até nós por pura qualidade e não porque foi pensado e planejado para isso.

Como foram os seus primeiros contatos com a cultura japonesa?

O primeiro dos primeiros foi o Meu Vizinho Totoro, com certeza. Depois foram os animes na Tv: Dragon Ball, Cavaleiros dos Zodiaco, Sailor Moon, Sakura Card Captors, Yu yu Hakusho e vários outros. Depois disso, foram os mangás e os animes que eu pesquisava na internet para assistir e ler.

Uma coisa que ninguém sabe, mas eu decidi estudar inglês para poder ler os scans de mangás… Pois é, eu não gostava de esperar a tradução dos scans brasileiros e por isso resolvi estudar para poder ler antes de chegarem aqui. Lembro que na época foi por causa do mangá do InuYasha, o anime não tinha um final de verdade, lançou só anos depois, e eu queria saber o que acontecia na história… No fim das contas, nunca li o mangá do InuYasha, mas aprendi uma outra língua (risos).

Quais são seus interesses, gostos e expectativas com relação à cultura japonesa?

Muita coisa variou durante os anos, antes era mais os shounens de porrada clássicos, ainda acompanho alguns. One Piece por exemplo, mas o que começou como algo bem enviesado se tornou uma admiração pela cultura deles como um todo, obviamente tudo em suas devidas proporções.

Não sei dizer bem se eu tive um fio condutor que me levou a conhecer diversos outros aspectos do Japão, talvez o Hayao Miyazaki, mas acredito que foi algo orgânico, uma coisa vai levando a outra, sempre tem algo novo para se descobrir e para se pesquisar. Eu particularmente gosto da estética mais arcaica da cultura japonesa, gosto de como as histórias que contam são diferentes das que estamos acostumados a ver no ocidente, acho que a história deles como nação é bem interessante também. No fim das contas sempre podemos achar algo com o qual nós vamos nos identificar mais.

Como esses interesses, gostos e expectativas motivaram a sua participação nos estudos e pesquisa sobre cultura japonesa ou outros temas?

O que me motivou a iniciar a minha pesquisa do mestrado era algo que eu via com muita frequência quando se falava sobre os filmes do Hayao Miyazaki, as mulheres que eram as protagonistas. Sempre via algo como “Ah, elas são muito fortes e independentes” ou “O Hayao Miyazaki é um visionário”.

E por causa desse tipo de comentário, que era constante sobre os filmes dele, eu resolvi ir a fundo para saber o motivo disso: o que tornavam as mulheres dos filmes do Miyazaki esse ponto de convergência de opiniões? Essa era a questão inicial, mas no decorrer da pesquisa eu acabei encontrando muitos outros assuntos para falar sobre a filmografia dele.

Por exemplo, como eu não sabia por onde começar, eu realizei uma pesquisa histórica sobre as origens das animações no Japão, começando lá nas artes clássicas e indo até os filmes mais influentes, a segunda guerra mundial e as obras do Miyazaki. Foi graças a essa pesquisa que eu consegui entender mais sobre as influências que ele teve, quais são as características que ele coloca nos seus trabalhos e que são sempre constantes. Depois disso, eu quis analisar os filmes dele, cada um sobre uma perspectiva diferente, como que é o funcionamento do processo criativo e o motivo de muita coisa existir lá. Só depois de tudo isso que eu pude ter um panorama muito amplo sobre o Hayao Miyazaki e daí eu voltei para a minha pergunta inicial: o que torna as mulheres dos filmes do Miyazaki esse ponto de convergência de opiniões? Preciso publicar esse artigo com as minhas conclusões para poder falar sobre isso mais abertamente.

https://www.youtube.com/watch?v=PLZ-vMmYTq8

Quais são os desafios de buscar realizar esses seus gostos e interesses pela cultura japonesa, inclusive com o Livro?

Para mim a língua japonesa ainda é uma grande barreira. Muita coisa do que eu pesquisei estava em português, inglês ou espanhol. Até em italiano eu achei e traduzi alguma coisa. Material de origem japonesa é muito difícil de se encontrar. Por isso meu livro ainda é uma visão muito ocidentalizada sobre a história das animações japonesas, não que ele esteja incorreto nem nada do tipo. Achar o que os japoneses têm a dizer sobre a própria história é um desafio grande. Um dos poucos documentos em japonês que tive acesso e que foi traduzido é uma carta resposta do Studio Ghibli sobre uma dúvida de um fã japonês em relação ao filme A Viagem de Chihiro onde um produtor fala a respeito da transformação dos pais dela em porcos. Nessa carta, eles explicam a alegoria por trás dessa transformação e mostram um pequeno histórico do Japão no que ficou conhecido como “A Década Perdida”.

Breve histórico do Livro

Como surgiu a ideia de construir o Livro? Quem são as pessoas envolvidas na concretização desse projeto?

O livro é o primeiro terço da minha dissertação do mestrado, a pesquisa histórica sobre as origens das animações no Japão.

Dentro da pesquisa histórica tem uma parte muito interessante sobre a segunda guerra mundial e que me rendeu muita coisa. Eu não só publiquei em forma de artigo e depois como um capítulo do livro, mas também fiz um minicurso sobre com uma amiga, a Inajara Barbosa. Nesse minicurso que vocês podem achar no YouTube. Nós falamos desse período da animação como forma de propaganda de guerra, ela falando sobre o lado dos Estados Unidos e eu falando sobre o lado do Japão.

Só depois de perceber isso foi que eu pensei em publicar essa parte da pesquisa como livro mesmo. Porque é uma maneira de a minha pesquisa chegar até as mãos de outras pessoas. Não só para você que é pesquisador da área e precisa de material para referência e de consulta, mas para quem simplesmente gosta de assuntos relacionados ao Japão. Muito melhor que ficar juntando poeira por aí.

Não só isso, mas eu ainda tive uma outra dica do meu professor orientador, ele me falou para enviar duas cópias do meu livro para as bibliotecas de faculdades que tenham cursos voltados para o assunto que eu trato (ainda estou para fazer isso!), assim os alunos podem ter acesso ao seu livro e você começa a ser citado em outras publicações, artigos, etc. Devo muito dessas ideias ao meu professor orientador o Luiz Vadico, ele sem dúvida nenhuma me incentivou muito, não só durante o período do mestrado, mas depois também!

Como você avalia a importância desse Livro no Brasil? Você já fez algum projeto de intervenção (nas universidades, escolas, bairro, redes sociais…) com base na sua pesquisa ou no Livro?

Gosto de pensar que eu talvez tenha feito algo inédito e que isso possa ajudar muita gente a concretizar suas pesquisas e criar seus próprios livros, artigos, dissertações e etc., mas eu realmente não sei dizer.

Sobre projetos de intervenção, existem algumas coisas assim que eu gostaria de realizar, mas que não estão relacionados a minha pesquisa do livro ou do mestrado. Até tenho um Instagram @livro_animacaojaponesa do livro onde coloco algumas curiosidades, mas sim tem a ver com um outro projeto o @br.animation no Instagram. Esse projeto surgiu comigo e com a Laryssa Prado como uma maneira de divulgar a animação brasileira e ajudar aqueles que nem sempre tem acesso a esse tipo de material audiovisual, seja nas suas pesquisas ou se você simplesmente gosta de animação. Acredito que nós temos potencial para fazer coisas grandes, mas é algo que ainda está em construção, uma hora vai dar certo, mas acho que vai demorar um pouco ainda.

Qual é o significado de Animação Japonesa tratada nesse Livro?

A animação japonesa nesse livro é um panorama histórico. Eu começo falando a respeito das artes japonesas, passando pelas obras gráficas, a primeira animação japonesa que se tem registro, a segunda guerra mundial e a importância desse período para as animações, o que mudou após esse acontecimento, um pouco do Osamu Tezuka, para depois finalmente chegar na filmografia de Hayao Miyazaki.

Como o único autor/diretor de animação no qual me foco no livro é o Miyazaki, acho que esse livro pode ser uma porta de entrada para outras pesquisas sobre outros animadores japoneses do passado.

Quais contatos você gostaria de disponibilizar para as pessoas acompanharem e divulgarem as atividades relacionadas ao Livro?

Vocês podem encontrar muita coisa sobre no Instagram que fiz para a divulgação do livro o @livro_animacaojaponesa, lá coloquei diversas curiosidades, algumas coisas que estão e não estão no livro, por exemplo.

Se quiserem comprar um exemplar do livro, acessem o site: https://animacaoatravesdos.wixsite.com/website

Todos podem ter acesso a minha pesquisa. Tem a versão em PDF do livro para consulta nesse site: https://www.academia.edu/50783783/A_Anima%C3%A7%C3%A3o_Japonesa_Atrav%C3%A9s_dos_Tempos

Se quiserem tirar alguma dúvida e falar comigo sobre a minha pesquisa, podem mandar um e-mail para o viktor_danko@hotmail.com . Se quiserem ler os artigos e outros trabalhos que publiquei, vocês encontram no site: https://anhembi.academia.edu/ViktorDankoPerkusichNovaes

E também queria deixar o Instagram do @br.animation, sobre divulgação de animações nacionais! Se tiverem alguma que gostariam que divulgássemos, podem enviar no nosso e-mail ou na DM do Instagram mesmo! Lá também tem o blog onde vocês encontram alguns textos e críticas sobre a animação brasileira.

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