Como surgiu o hentai?

A palavra “hentai” produz mais de 7 milhões de resultados na internet e é mais popular do que as palavras japonesas: samurai, geisha ou sushi. Mas, apesar de sua popularidade, não vemos o gênero ser discutido em estudos sobre animes ou mangás.

Isso porque categorizar mangás e animes com conteúdo erótico ou sexual como hentai é uma característica ocidental. O uso da palavra “hentai” no Japão se refere apenas a materiais extremos, anormais ou perverso, não é uma categoria geral. Para se referir aos conteúdos adultos, usa-se a palavra H (ecchi) ou “ero”.

Na era Meiji (1857-1912) surge o termo “hentai seiyoku”, ou “desejo sexual anormal”, porém nada tinha a ver com publicações eróticas, e sim com a psicologia alemã voltada para desejos sexuais. Já nos anos de 1920 ficam em voga publicações especializadas em conteúdo erótico, grotesco e sem sentido.

Após a guerra, no começo de 1950, as publicações deste subgênero focado em desejos anormais incluía homossexualidade feminina e masculina e fetiches como suicídio amoroso e sepukku. Naturalmente, com o aumento da censura nos anos de 1930 e a falta de papel por conta da guerra, as publicações foram suspensas até 1933.

Os anos seguintes do pós-guerra trouxeram um maior desenvolvimento de kasutori (ficção de baixa qualidade) com temas decadentes ao invés de completude anterior, como nikutai bangaku ou ‘literatura carnal” onde o corpo das mulheres não eram ais retratados como um nu artístico dos desenhos medievais, mas sim como um objeto de desejo a ser possuído.

Os costumes entre casais também mudaram no pós-guerra e gestos carinhosos entre casais eram mais vistos em público, e surgia agora a necessidade de informação sobre sexo e prazer, um mercado que foi abraçado pelas revistas kasutori.

O gênero hentai seiyoku foi caracterizado no período pós guerra por uma tendência de trazer elementos não normativos de fantasias e desejos sexuais e tinha como público pessoas que agora encontravam nestas revistas um meio de aliviar seus desejos sexuais incomuns e que se sentiam encorajadas a se identificarem com as categorias ali presentes.

Entretanto, é nos anos 60 que o hentai se tornou mais heterossexual e temas como homossexualidade masculina e cross-dressing, populares nos anos 50, sumiram de suas páginas. A ênfase maior foi dada ao sadomasoquismo e lesbianismo (escrito por homens para o público masculino) e se assemelha mais ao que conhecemos hoje pelo “gênero” hentai.

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Ishizuko Reviwers: fetiche para todos os gostos!

Netorare é um dos gêneros mais populares de hentai.

Curiosidade: Um dos gêneros mais populares de hentai é o netorare (ou NTR) onde o homem vê a sua amada ser possuída por outro homem. Este subgênero possivelmente é uma herança da era Heian (794-1185) onde era comum a esposa possuir amantes com o consentimento do esposo. Quanto mais amantes, maior a honra do esposo, uma vez que este era supervalorizado por ter uma esposa que muitos outros homens desejavam para si.

Referências

McLelland, Mark. 2005. Queer Japan from the Pacific War to the Internet Age. Lanham: Rowman & Littlefield.

Ishida Hitoshi, Mark McLelland and Murakami Takanori. In press. ‘The development of “queer studies” in Japan’. In Mark McLelland and Romit Dasgupta (eds) Genders, Transgenders and Sexualities in Japan. London: Routledge.

Rubin, Jay. 1985. ‘From Wholesomeness to Decadence: The Censorship of Literature under the Allied Occupation’. Journal of Japanese Studies, vol. 11, no. 1, pp. 71-103.

 

 

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