Goku, o macaco polêmico: de herói a vilão?

Eu sou seu Pai

Quando olhamos para o passado Dragon Ball esquecemos por um breve momento que a série já possui quase 40 anos. A história de Goku e seus amigos guerreiros é um dos animes que mais acompanharam o crescimento de toda uma geração de fãs. Não só os espectadores cresceram, seguiram uma profissão e formaram suas famílias, os personagens da série ao longo dos anos passaram por essas mesmas fases da vida. Mas um personagem em particular está chamando atualmente a atenção dos fãs, infelizmente de modo negativo.

Caso fosse um personagem secundário ou mesmo um vilão, não haveria porque escrever um texto ou chamar a atenção para o fato, mas no caso esse personagem é o protagonista da série. Goku, o amado herói de coração bondoso e poder infinito começa a ser enxergado de outra maneiro após anos de aventuras. Os fãs recentemente começaram a questionar diversos comportamentos do herói, até então colocado no mais alto pedestal.

As recentes polêmicas ficaram mais claras na verdade com a obra Dragon Ball Super, que demonstra a cada arco a tamanha irresponsabilidade e negligência de Goku em relação a seus amigos, familiares e até o respeito e empatia a própria vida. Claro, Goku nunca foi um exemplo de pai, sempre ausente e despreocupado, mas o que poderíamos esperar de alguém que estava morto?

Todavia mesmo a ausência se equilibrava com os momentos de carinho e atenção aos quais ele tinha com os filhos e família quando estava presente. Um traço que mudou bastante na saga Super, quando ausência se transformou em negligência. Aparentemente Goku está mais obcecado que nunca em sua meta de se tornar o ser mais forte de todo o universo, deixando totalmente de lado sua família e amigos, algo que tanto lutou para preservar. Talvez a facilidade com o qual a morte e vida são resolvidas em Dragon Ball tenha afetado um pouco a empatia do personagem. Afinal, nada que um pedido a Shenlong não resolva.

Imagem/Divulgação

De todo modo, esse lado determinado e cego desgastou sua imagem, enquanto ressaltou o aspecto paterno e carinhoso de dois ex-antagonistas da série – Piccolo e Vegeta. Ambos aparentemente conseguem manter um equilíbrio maior em relação a suas responsabilidades e vida como artistas marciais. Piccolo se mostrou verdadeiramente um pai mais presente e atencioso que Goku, com o próprio filho do protagonista. Enquanto Vegeta, o orgulhoso e maldoso príncipe dos Sayajins teve uma transformação pessoal de caráter muito forte na saga Super, algo que começou ainda no final do arco Majin Boo, quando abandonou seu orgulho e se sacrificou para salvar a terra.

Olhando para esses dois personagem e outros como Androide 17 e Kuririn, que também evoluíram na história, a situação de Goku se agrava ainda mais. Será que Akira e Toyotarō se esqueceram do personagem? Ele parece ter regredido no tempo, mais ingênuo e irresponsável que nunca, agindo sem medir quaisquer consequências. Sua empreitada em realizar um arriscado torneio do poder é um exemplo disso. Sabemos que o autor sempre desejou manter a pureza e a criança interna do personagem, mas em suas próprias palavras:

“Os Saiyajins sempre foram guerreiros, e aqueles de sangue puro estão mais interessados em batalhas, e encontrar guerreiros igualmente poderosos. O laço amoroso entre pai e filho não é tão forte. Temos os exemplos de Rei Vegeta e Paragus, que tentaram usar seus filhos na tentativa de alcançar suas próprias ambições. Enquanto isso, Bardock mostrou uma ‘humanidade’ incomum para a Raça Saiyajin, e tentou proteger sua família a todo custo. E seguindo por esse caminho, Goku realmente não parece se importar com seus filhos.” Akira Toriyama

Embora esse assunto seja polêmico, Goku não precisa ser demonizado, existem aspectos do personagem e seu desenvolvimento sutis na obra, que carregam traços enraizados em sua origem. Para compreendermos melhor esse querido personagem é necessário então um mergulho rápido em suas raízes, não aquelas presas a história de Dragon Ball, mas sim de um traço mitológico, fonte de onde Akira Toriyama bebeu e tirou muitas suas inspirações.

Jornada para o Oeste

Ilustração – Jornada para o Oeste

Dentre as diversas mitologias presentes em Dragon Ball, uma se destaca como o coração da série, um conto Chinês antigo, conhecido como: ” Jornada para o Oeste” (Hsi-yu-chi). A obra é um dos clássicos romances da literatura chinesa e traz aspectos do sincretismo religioso entre as três principais correntes do oriente: Budismo, Taoísmo e Confucionismo. É ao mesmo tempo um épico histórico e uma sátira, com profundos ensinamentos filosóficos.

A história gira em torno de Macaco, um brincalhão, trapaceiro e orgulhoso ser capaz de enfrentar demônios, espíritos, dragões, reis e Deuses. Tendo aprendido com grandes mestres os segredos da imortalidade, Macaco não se curvava a ninguém, nem mesmo a Buda. Por seu ímpeto desleixado e arrogante ele arrumou muitas confusões no mundo terreno e celestial, até que um dia, para se redimir de seus pecados e travessuras, ele é incumbido pela Bodisatva Kuan Yin (Kanon) a acompanhar um jovem monge em uma longa viagem ao Oeste com objetivo de trazer escrituras sagradas do Budismo a China.

” Alta, no topo de uma montanha, cercada de terra fértil que nutria cogumelos mágicos e orquídeas silvestres, havia uma pedra mágica de dimensões e propriedades imortais. Ela foi fecundada pelas sementes do céu e da terra e pelas essências do Sol e da Lua, até que certo dia foi inseminada por inspiração divina e tornou-se grávida de um embrião divino. O embrião continuou a desenvolver-se em segredo, até que um dia irrompeu revelando um ovo de pedra. Uma vez que esse ovo foi exposto aos elementos, o vento logo o transformou em um macaco de pedra.”

A jornada de Macaco é uma grande metáfora sobre o caminho de redenção e autotransformação da alma, de um ser imaturo que busca encontrar seu lugar no mundo. Esse caminhar também pode ser visto como o desenvolvimento natural do ego(eu) em busca de sua essência(Self), algo que o conecte, que transcenda suas ínfimas vontades e medos.

Mas o que toda essa história tem a ver com nosso querido Sayajin? Bom, primeiramente Goku é uma homenagem em si de Akira ao próprio Macaco. Diversos elementos adicionados a Goku como seu rabo, o fato de se transformar em um macaco gigante ou mesmo o bastão característico do herói até meados da saga Z, também é uma referência ao Macaco, que carregava consigo um alabarde, ou bastão, que com seus poderes mágicos tinha a capacidade de encolher ou faze-lo crescer. E claro, o ímpeto para brigas e desafios, enfrentar monstros e Deuses é para poucos. Para além de características físicas, ambos possuem uma personalidade muito semelhante, ao começar pela ingenuidade, jeito brincalhão, debochador e a arrogância. Você pode até tentar defender Goku, argumentando que ele não é arrogante, mas em diversos momentos da história Goku demonstrou subestimar seu oponente e debochar dele também. Esse ponto na verdade é parte de sua personalidade super sincera que não possui filtros, eles falam o que lhes vêm a mente.

No romance, Macaco, assim como Goku passa por várias fases de amadurecimento. No inicio ele era apenas um animal ingênuo de coração bondoso, que entretanto por suas brincadeiras sem limites arranjou encrencas desnecessárias e inimigos sem motivo, pois foi tomado pelo esplendor de sua própria força, ao se tornar Rei dos macacos. Em uma segunda fase ele aparece como um poderoso ser, que dominou os segredos da imortalidade, temido até pelo Deuses, que e usa e abusa de sua posição, força e arrogância. Finalmente em um terceiro momento Macaco é levado a um caminho de redenção, onde mesmo com seu comportamento impulsivo e orgulho ele aos poucos aprende com os desafios em seu caminho até alcançar um estado verdadeiramente liberto.

A esquerda Macaco, a direita Son Goku – Imagens/Divulgação

Acredito que assim como seu “pai” mitológico, Goku segue os mesmos passos, e está ainda marcado pela segunda etapa, cego e obcecado por sua própria força, abusando da bondade e respeito dos Deuses. Mas isso não significa que Goku é mal, ou que seu caráter é duvidoso, mas que assim como nós, é humano (embora seja Sayajin) e possui ambos os lados de uma mesma face, um coração extremamente bondoso e alegre e de outro lado um complexo por poder, em ambos os lados é possível notar que sua essência simplista permanece, pois não há objetivos mirabolantes ou planos, ele simplesmente age como uma criança. Só a alma pura de uma criança é capaz de enfrentar com boa aventurança os maiores monstros, demônios e Deuses, não à toa que o ser mais Divino e poderoso de todo o universo de Dragon Ball é uma criança.

Goku assim como todos nos vive um mito, pois ninguém foge a sua essência, o que podemos é aprender a transcender com ela. Afinal o final da jornada não importa, o caminho é a real recompensa.

– Macaco, como você causou grandes problemas ao Céu, tive que aprisiona-lo na montanha dos Cinco Elementos. Felizmente seu encarceramento terminou e você adotou o grande ensinamento. Ao longo da jornada você subjugou monstros, demônios e diabos com um único propósito. Eu agora o promovo “Buda Vitorioso na Luta”.
Imagem/Divulgação

Referências

Akira Toriyama. Dragon Ball. Editora Shueisha. Publicado desde 1984.
David Kherdian. Macaco: uma jornada para o oeste. Editora Odysseus. Ed. 1, 2003.

 

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