Polêmicas em animes e mangás: violência sexual e o período Heian

***Aviso de gatilho!***

Conteúdo sensível: Violência sexual

Esta será uma série de matérias explicando de onde surgiram algumas tendência nos animes e mangás. Fique atento para mais textos sobre o assunto.

Antes de mais nada, quero deixar bem claro que o texto não expressa a minha opinião, mas que ele é fruto de uma intensa pesquisa que busca entender este conceito nos quadrinhos homoafetivos japoneses, uma vez que este assunto sempre me intrigou (e perturbou).

Tentarei, nas próximas linhas, explicar o motivo pelo qual o estupro ocorre, porque é tão “naturalizado” no yaoi principalmente e porque não devemos ter um olhar ocidental sobre ele, ainda que possamos considera-lo errado.

O que chamamos de “estupro” nos animes e mangás (seja ele hentai, ecchi ou yaoi) já foi considerado uma forma de cortejar alguém no período Heian (794 a 1185) e para entendermos isso precisamos entender o que os japoneses do período Heian achavam atraente um nos outros: fraquezas.

Hoje em dia, no ocidente, podemos achar que a beleza, inteligência e senso de humor são essenciais para amarmos alguém, mas no período Heian, mostrar fraquezas e despertar sentimento de piedade era considerado algo bastante atraente.

Uma técnica de sedução era mostrar o quão vulnerável, fraco e impotente alguém era para despertar sentimentos de pena e, portanto, a pessoa amada sentiria vontade de cuidar desta pessoa. Isto valia para ambos os sexos e é muito parecido com a cultura moe e kawaii ainda presente no Japão.

O Conto de Genji

Em “O Conto de Genji”, de Murasaki Shikibu, escrito no período Heian, podemos ter uma ideia de como era o jogo de sedução da época. Genji, o herói virtuoso desta história escrita por uma mulher, comete atos que hoje seriam tidos como sequestro, assédio sexual, agressão sexual e talvez estupro pois este herói pega um interesse amoroso nos braços, a leva para um quarto e a persuade a dormir com ele até que ela ceda.

Murasaki Shikibu fez de Genji o mocinho da história, um homem justo pelo qual torcemos em sua história, seria estranho então que ele fosse bom em todos os aspectos, mas fosse um monstro com o sexo oposto. E foi isso que levou muitos pesquisadores a entender que isso tudo era um jogo de sedução da época, juntamente com a personagem feminina refletindo na manhã seguinte sobre sua noite com Genji. A personagem não se arrepende e lamenta não poder passar mais tempo com o amante.

Abaixo, um pequeno manual de como era esse jogo de sedução:

Agressão: Um pequeno ato de agressão, como “roubar uma mulher” de um lugar seguro deixava-a vulnerável, logo esta mulher precisa de proteção, dando ao homem a oportunidade de protege-la, ainda que seja dele mesmo. A impotência da mulher era tida como extremamente excitante.

Persuasão: Aqui, o homem convence a mulher a dormir com ele uma vez que socialmente esperava-se que a mulher negasse seus avanços. Se ela gostasse dele, ofereceria resistência simbólica para não parecer fácil. E aqui a resistência não poderia parecer falsa, e parecia a nós, ocidentais, que esta resistência simbólica era na verdade bastante real.  “Não” não significava “não” de verdade no período Heian.

O homem tentaria convencer a mulher se vitimando e causando-lhe pena. E se a mulher não quisesse realmente nada com ele, havia duas formas de negar. A primeira era continuar negando até que o jogo de sedução ficasse entediante e a segunda maneira era ignora-lo. Ser extremamente passiva até que o homem desistisse. Mas havia o risco de parecer que ela estava com medo, o que tornaria a situação ainda mais excitante, visto que o homem precisaria protege-la.

Homens acreditavam que era errado coagir mulheres a fazerem sexo, mas este estágio da persuasão não era visto como coerção

Bom, é perceptível que temos um problema aí, se “não” nem sempre é “não”, há problemas de consentimento e sabemos que até hoje os números de assédio e estupro no Japão são bastante altos. Mas também é importante que na ficção estes atos sejam vistos com outro olhar: o olhar oriental.

Não é segredo que o Japão é extremamente tradicional e algumas “tradições amorosas” persistem até os dias atuais, tais como a cultura moe, kawaii, o fetiche netorare (também do período Heian onde as mulheres eram incentivadas a terem amantes pelos maridos ausentes), a cultura idol (gueixas tinham patrocinadores que as bancavam até se tornarem profissionais, tal como ocorre com fãs que acompanham a carreira de suas idols desde o início), entre muitos outros.

Assim sendo, na ficção, a não ser quando é algo realmente explicitamente forçado, pode parecer errado e não consensual para nós, mas para a sociedade japonesa é apenas um jogo de sedução. Cabe ao leitor ou espectador o bom senso em saber que aquilo é fictício, e que, em situações reais, “não é não” e qualquer avanço depois disso é abuso sexual.

Bibliografia

BROWN, Delmer Myers; HALL, John Witney; The Cambridge History of Japan Vol.2: Heian Japan. Cambridge: Cambridge University Press, 2008.

CHILDS, Margareth; The Value of Vulnerability: Sexual Coercion and the Nature of Love in Japanese Court Literature . 4 ed: Association for Asian Studies University Press, 1999. P 1059-1079.

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