Qual é o significado de Otaku?

Origem Erudita

O termo Otaku carrega uma história peculiar e ambígua , ao longo dos anos foi atribuída a expressão diversas conotações e estigmas. Mas atualmente se refere de modo geral, aos fãs de animes e mangás japoneses.

A palavra de origem japonesa tem primeiramente dois significados: “você”, como forma de se dirigir a alguém de modo respeitoso, um equivalente ao “vosmicê”, “vosmecê” do português erudito. Ou um termo para designar “sua casa” “abrigo”; Taku significa “residência” ou “casa”.

Somente na década de 80, que o termo começa a ser utilizado para caracterizar uma tribo cultural específica. Akio Nakamori, colunista e cronista japonês, emprega o termo para designar uma geração emergente de jovens “ineptos”, no japão pós-guerra, influenciados pelo mercado de consumo capitalista, viciados e obcecados por tecnologia, quadrinhos, desenhos, cultura pop e games, de modo semelhante as características atribuídas ao termo Geek de hoje. O ensaísta se atentou que a palavra era bastante utilizada de modo educado, pelos jovens nesse meio e a utilizou para descreditar essa comunidade.

A subversão do termo empregada por Nakamori, era reflexo do desgosto da geração japonesa mais “antiga” que não compreendia os jovens que preferiam o mundo virtual, o isolamento social e os personagens fictícios a suas obrigações sociais

“O Consumo está relacionado ao conceito de brincar, asobi, pois os jovens são encorajados com a ideia de que a vida envolve o prazer do indivíduo, o valor do consumo individualista e não o ganho da satisfação moral através do cumprimento das obrigações e satisfações sociais.”

A crítica embora fundada com base no apelo do mercado consumista por referências visuais como animes e mangás, se tornou um movimento de preconceito e temor pelo o incompreendido.

Tabu

O modo pejorativo de expressar a palavra Otaku ganha força em 1988, pela mídia, quando um jovem chamado Tsutomu Miyazaki foi responsável por molestar e assassinar quatro meninas, entre 4 e 7 anos de idade. O rapaz foi estigmatizado como o “Assassino Otaku”, após pois buscas policiais acharem em seu quarto diversas obras de mangás, objetos de games e animes. Nesse ponto, a desconfiança em relação aos Otakus aumentou na sociedade japonesa e a palavra virou sinônimo nas décadas seguintes para caracterizar indivíduos obcecados em um universo de quadrinhos e tecnologia, que se isolavam em seus lares, com poucos cuidados pessoais, de higiene e bons modos.

“Antes de Miyazaki, a imagem pública dos perpetuadores de crimes bizarros costumava ser de delinquentes, que tiveram uma educação “complexa”, diz Kaichiro Morikawa, professor associado da Escola de Estudos Globais Japoneses da Universidade Meiji e especialista em mangá, anime, jogos e cultura popular relacionada.

Nakamori que já havia levantado a crítica, lança no mesmo ano o livro M no jidai o qual relata a história de assassino serial killer obcecado por animes e mangás. A obra é baseada exatamente no caso de Miyazaki.

Este incidente somado a outros infelizes acontecimentos associados a indivíduos “Otakus”, impregnaram o tabu no termo. Com passar dos anos o sentido da palavra como sinônimo para indivíduos obsessivos em determinados assuntos, se expandiu a outros diversos interesses, como viciados em:

Carros (auto otaku), armas militares(gunji),videogames(gēmu),computadores(pasokon),animes, mangás e até hikikomori(indivíduos reclusos socialmente, que se dedicam quase exclusivamente aos seus interesses e hobbies, leia o artigo recomendado aqui para saber mais).

Na boca do Mundo

Com advento da internet e a globalização o termo Otaku se espalhou gradualmente, embarcando junto a outras populares representações culturais japonesas, como as artes marciais, os bonsais, animes, karaokê, zen budismo.

No Ocidente, por exemplo, a partir dos anos 80 ocorre um grande BOOM mercadológico na importação de conteúdos em vídeo vindos do Oriente, desta época temos os famosos filmes de samurais e kung fu. Nesta realidade de consumo mais globalizada chega em 1991 nos EUA a animação Otaku no Video. Uma espécie animação/documentário com viés cômico, que tratava sobre os costumes e vida diária dos Otakus, que na época ainda trazia uma visão pejorativa dessa tribo cultural, como fanáticos alucinados compulsivos por jogos, pornografia, histórias em quadrinhos, armas, etc. Todavia mesmo com as representações negativas, a paixão dos fãs ocidentais por animes e mangás ultrapassou o sentido depreciativo da palavra e adquiriu uma conotação muito diferente. Essa perspectiva está ligada a relação afetiva do consumidor com o produto e a formação de grupos ligados por laços em comum, somado as características mais sociáveis, calorosas e extrovertidas dos povos latinos. O fenômeno Otaku então tem um grande salto semântico no mundo, em especial no Brasil.

Nihon verde e amarelo

Muitos Brasileiros até hoje desconhecem o emprego degradante da palavra Otaku, pois o sentido o qual ele é utilizado em nossas terras está ligado a uma paixão, em termos gerais pelo seu interesse pela cultura japonesa em si, mais especificamente falando, em animes e mangás.

Nesse caso podemos observar uma inversão de sentido e valores em relação ao Japão, no Brasil, embora ainda visto como algo excêntrico, o termo se relaciona a encontros, festividades, confraternização e práticas mais sociais. É comum na cidade de São Paulo o encontro de jovens otakus no famoso bairro da Liberdade (antro da cultura japonesa na cidade), que tem como propósito o simples ato de confraternizar, discutir sobre seus personagens favoritos e gostos em comum.

Existem até variações linguísticas empregadas pelos brasileiros para a palavra Otaku, como: Otaka, para se referir a garotas que gostam de animes, mangás, j-pop (música pop japonesa) e a adaptação “abrasileirada” do termo Otome, que em japonês significa “donzela”, “virgem”, mas não relacionada a palavra otaku como empregada aqui.

Essa realidade invertida se dá devido a uma complexidade de diversos fatores, entre eles o Brasil ser o segundo país com maior número de japoneses (perdendo apenas para o Japão). E outro ponto importante seria a mundialização da cultura, cada vez mais acelerada pelos meios de comunicação, que tornam as distâncias geográficas meros “passos” a um clique no celular.

O termo mundialização da cultura atua em simultâneo à globalização, mas diz respeito às expressões culturais, símbolos e valores que circulam para além de seus territórios de origem. A ponto de ser menos nítido e difícil de distinguir o que é familiar e estranho, próximo ou distante.

Renato Ortiz (1994)

Nesse aspecto poderíamos afirmar que os Cavaleiros dos Zodíaco, que fez parte de todo uma geração de jovens brasileiros nos anos 90, é tão cultural e influente como símbolo para essa juventude, quanto o sítio do pica-pau amarelo. Sendo difícil afirmar o quão japonês ou brasileiro seria o Seiya. Afinal, que otaku brasileiro não chorou com Pikachu e Ash petrificado, ou se emocionou e compartilhou sua energia para genki dama de Goku?

Cool Japan

Obviamente ainda existe no Japão uma grande questão interna em relação aos Otakus, que buscam neutralizar suas conotações negativas. Devemos compreender que na sociedade japonesa a visão do coletivo supera as necessidades individuais e abre pouca brecha para manifestações mais “alternativas “e grupos sociais diferenciados. Fazendo uma retrospectiva do que foi dito acima vale salientar que essa tribo social se associa foi associada a jovens de um período de recessão econômica e cultural no Japão pós-guerra segunda mundial, onde havia uma crise entre o Japão tradicional e as novidades modernas. Portanto nessa visão seria preferível reprimir esses grupos, ao quebrar a sensação de “harmonia” num cenário imaginário de identidade nacional.

Todavia em contraparte, por ironia ou necessidade a cultura Otaku, foi em grande parte responsável pela recuperação e restauração do Japão como uma nação altamente desenvolvida e respeitada no mundo. Não irei me estender muito aqui, pois a um artigo somente para esse tópico, os interessados podem acessar o mesmo clicando aqui.

Mas em resumo os japoneses perceberam o quão rico e interesse seria investir em algo com alta popularidade no mundo. Essas figuras atuariam como embaixadores culturais estrangeiros em sua cultura, em muito pelos animes e mangás. Logo um elaborado plano estratégico surgiu, o Cool Japan.

Após anos de planejamento e debates, voltados para a solução de problemas em momentos de crise através da criatividade, o Japão anunciou uma nova política de Estado, implantada em 2011, denominada “Cool Japan”. Este projeto tem como objetivo reconstruir, a longo prazo, a imagem que o mundo tem do país, tornando-o mais “descolado” e mais ligado à cultura jovem-pop.

Em resumo, tornar a terra do sol nascente uma superpotência cultural, deixando o estigma de país conhecido apenas por suas indústrias e costumes rígidos e tradicionais. Não há de negar que quase 10 anos após essa nova política, o Japão cumpriu suas metas. Música, eletrônicos, arquitetura, moda, gastronomia e claro animes e mangás se tornaram referências mundiais de arte e cultura. O país hoje é um dos maiores exportadores culturais do mundo e sua imagem passa os conceitos de respeito, tradição, organização, beleza, arte, uma cultura realmente apaixonante. No fim os jovens otakus rejeitados se tornaram o coração de todo esse ciclo econômico cultural.

Os otakus são os primeiros a testar as novidades, constituem as bases das pesquisas e povoam os escritórios de estudos. Encontram-se na Sega, na Nintendo, na Sony, nas revistas especializadas, nas empresas de novas tecnologias, nas lojas de discos, nas estações de rádio e nas televisões. Nenhum campo lhes escapa, e os novos produtos, as novas tendências, devem-se a sua erudição sem limite e a sua curiosidade insaciável. Barral

Essa é um pouco da história de uma pequena tribo cultural, que por suas paixões, excentricidades e alegria mostraram ao mundo, que todos os indivíduos devem ser valorizadas, pois são fontes de impulsionamento inovador, com capacidade de transformar toda a sociedade. Atualmente há uma geração mundial de fãs que se orgulham de serem chamados de Otakus seja no Japão ou Brasil, o espírito criativo e bem-aventurado dessa juventude traça seu caminho rumo ao futuro.

Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.

Desconhecido.

Abaixo algumas fotos tiradas de eventos:

Foto: @dafnebatistella
Eventos Animes/ Foto: Liliane Arruda
Exposição Mangás Fundação Japão/ Foto: Jorge Massarollo
Foto: Bruna Antonucci

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Enne A.L.S. Á perplexidade, a complexidades: a relação entre o consumo e identidade nas sociedades contemporâneas. Escola Superior de Propaganda e Marketing. Comunicação, Mídia e Consumo. 2006.

Gushiken Y; Hirata T. Processes of Cultural and Media Comsuption: The image of “Otaku”, from Japan to the world. Intercon, 2014.

Nakagawa S.F. Apropriações de elementos construtivos do mangá: investigando Murakami e Nara. Universidade de São Paulo, 2016.

Rodrigues P.L. O caso do Cool Japan: A construção de uma política cultural para a promoção de identidade nacional. Observatório da Diversidade Cultural. 2014

SITES

https://www.sljfaq.org/afaq/otaku.html

https://kuramaetrack.com/2009/05/07/post-706/

Heisei Moments Part 7: Obsession

Artigos Relacionados

Animes e Mangás: Os embaixadores culturais do Japão

O ano é 2016, o evento mundial de encerramento das Olimpíadas do Rio de Janeiro é celebrado, como de costume a chama do espírito olímpico é passada adiante as futuras gerações e ao país sede. Nesse épico momento, um teaser anuncia mundialmente Tokyo como cidade sede das Olimpíadas de 2020. A passagem não poderia ser mais característica da cultura Kawaii , que o primeiro ministro do país emergindo de um cano do jogo Super Mario Bros.

Comentários

  1. Adorei a menção a Cavaleiros do Zodíaco. Porém, creio que aqui na América Latina, onde o sucesso foi avassalador, os preferidos dos fãs de CDZ tenham (e ainda sejam os Cavaleiros de Ouro), o Seiya apesar de protagonista não era o favorito dos fãs brazucas e mexicanos, posto esse rankiado por Shiryu de Dragão e o nosso “malvado favorito” Ikki de Fênix.

    1. Com toda a certeza, os cavaleiros de ouro são os preferidos do público, talvez até do criador da obra. O spin-off Lost Canvas confirma essa paixão dos fãs pelos Cavaleiros de Ouro, é na minha opinião a obra mais incrível da série

  2. Jorge, meu contato com a cultura japonesa começou na infância (anos 60) e até os anos 80, sendo que visitei o Japão em 1979 e 1980, mas não conhecia tudo isso que você explica sobre a palavra Otaku. Gostei muito, parabéns pelo extensivo trabalho. Obrigado. Arigatai de gozansu!