A existência e a identidade virtual em CrossCode: Parte 2

Essa parte possui Spoilers sobre o jogo CrossCode! Caso tenha caído aqui de paraquedas veja a Parte 1 deste texto, no qual apresento o jogo na forma de sinopse.

A existência virtual

Seguindo no jogo, você descobrirá que Lea na verdade nunca existiu fora do jogo. Ela é uma inteligência artificial criada de maneira relativamente espontânea, graças a um código que consegue ler os movimentos de uma pessoa conectada ao jogo e replicá-lo de forma autônoma (este é o CrossCode, literalmente o cruzamento entre o jogador e o MMO).

É neste ponto que o jogo começa a te fazer pensar o que exatamente é existir. Lea existe ou não? Existir é experimentar? Possuir um corpo físico? Ora, obviamente se compararmos um vídeo da internet com uma pessoa vamos chegar à conclusão de que o vídeo existe, mas apenas enquanto um conjunto de dados.

Esses dados podem se organizar de forma a emitir comportamentos, construindo a noção de inteligência artificial, mas a ideia de que eles são apenas dados nos leva ao pensamento de que, no fim, não podemos falar em existência tal qual nos referimos aquela que compete aos seres humanos.

Allan Turing já refletia sobre isso na época da segunda guerra mundial. Ele é considerado o pai da computação, mas cometeu suicídio depois de receber castração química pelo simples fato de ser homossexual. Turing pensou na hipótese de uma máquina, conversando com um ser humano, por meio de mensagens, conseguir convencer pessoas de que suas mensagens estariam sendo digitadas por uma pessoa. Em outras palavras, de que ela também seria humana.

Neste caso poderíamos dizer que a máquina é humana, ou pensa como um ser humano, porque conseguiu fazer alguém achar que era o caso? A princípio as pessoas podem dizer que não, mas qual é o limiar entre a mera reprodução de dados e a experiência humana? Haverá um tempo em que as máquinas vão pensar como seres humanos? Se sim, em termos de experiência elas seriam diferentes em que sentido?

CrossCode ilustra um exemplo em que tudo aquilo que um código faz nos convence de que estamos diante de outro ser humano. As cortinas do virtual podem esconder, de repente, nossos rostos, vozes ou aspectos do nosso corpo físico, mas também indica potencialidades na medida em que, por exemplo, este texto é o registro do meu pensamento sendo acessado em outros momentos por outras pessoas. Este texto sou eu, mas ao mesmo tempo não é mais, pois este texto, enquanto registro meu, vive outra temporalidade.

Essas potencialidades indicam uma forma distinta de realidade. Pierre Levy indica isso quando rejeita a oposição entre virtual e real, principalmente porque o primeiro é associado a algo que não existe, enquanto que o segundo representaria a vida como ela é. O virtual é apenas uma outra camada da realidade, com possibilidades distintas, mas igualmente reais.

Nesse sentido é possível dizer que Lea existe, mas de uma forma diferente, e que ela possui uma consciência, pois ela reflete inclusive sobre ela mesma em diversos momentos do jogo. No entanto, questões imediatamente surgem diante dessa consciência de si: quem eu sou? Onde é o meu lugar? Para onde irei? No caso a Lea algumas outras também surgem: sou um ser humano? Eu tenho uma vida? Se sim, o que é a minha vida?

Imagem: “Então estamos ou presos nesse jogo ou presos na “vida real”. Qual é a diferença então?” – Lukas.

Tudo isso é colocado aos poucos no decorrer do jogo, principalmente porque Lea não consegue falar. Isso faz com que o jogador ou jogadora mergulhe mais  a fundo na experiência do jogo, na medida em que também precisam refletir sobre as condições nas quais Lea existe.

O jogo te faz sentir o que Lea sente, muito mais do que entender o que ela entende, já que ela possui fortes semelhanças com pessoas surdas/mudas, com a diferença de que ela consegue dizer poucas palavras (5 ou 6 no máximo), mas que não sabe língua de sinais. Nesse sentido, é por meio das expressões dela, sempre muito marcantes, que podemos tentar entender os conflitos e angústias que ela vive.

Está curtindo essa jornada existencial por Crosscode? Clique aqui e acompanhe a última parte deste artigo!

Artigos Relacionados

Comentários