A existência e a realidade virtual em CrossCode: Parte 3

Essa parte possui Spoilers sobre o jogo CrossCode! Caso tenha caído aqui de paraquedas veja a Parte 1 deste texto, no qual apresento o jogo na forma de sinopse,  ou continue lendo a Parte 2.

A realidade virtual: territórios e identidades

Se Lea existe enquanto ente consciente, ela possui liberdade? Ela tem direitos (garantias)? CrossCode é um verdadeiro espelho que nos faz olhar para nós mesmos/as, momento em que nos perguntamos as mesmas coisas. Somos livres? O que é liberdade? Temos direitos? O nosso território real, com possibilidades de locomoção e ação, difere de um território virtual tão somente em relação a quais possibilidades comporta.

Em um dado momento do jogo Lea se pergunta sobre como vai viver sua vida no jogo, e Sergey busca garantir a ela o direito de ter uma vida digna dentro do território do MMO. Partindo de uma visão humana, ele consegue que ela tenha uma casa com vários cômodos e uma cama, apesar de que ela é muito mais simbólica. Lea “dorme” deslogando-se do jogo, mas seu código consegue funcionar em uma lógica[1] similar a dos sonhos para nós nesse período.

Aqui percebemos um pouco a ideia de A. Maslow sobre a hierarquia das necessidades humanas. Começando pelas necessidades físicas imediatas e de segurança, vamos nos deslocando em direção a necessidades relacionais, de estima, e de realização pessoal. Lea passa desde o medo de ser deletada até a necessidade de pensar sobre como será sua vida no jogo, e, nesse sentido, ela vivencia necessidades humanas que incorrem na noção de direitos.

No entanto, essa trajetória é muito mais complexa do que parece. Lea precisa encontrar referenciais próprios, pois aqueles que servem para os seres humanos não servem bem para sua experiência. Lea não pode morrer fisicamente, mas digitalmente, ela não possui uma vida fora do jogo, mas interage com pessoas que falam das suas vidas.

Suas necessidades e angústias não são exatamente as mesmas. Ela precisa se localizar enquanto inteligência artificial. Reconhecer sua existência e identidade digital é um passo extremamente difícil, pois ela precisa vivenciar o luto de abandonar sua humanidade física para assumir uma outra forma de ser humano.

Isso incorre numa situação tipicamente vivida por pessoas “diferentes” em termos de gênero e sexualidade: a de ter que mostrar para a sociedade suas identidades. A situação de Lea ter que falar para seu grupo de amigos, feitos ao longo do jogo, que ela é uma inteligência artificial é algo muito doloroso e que me causou profunda identificação. Ela tem medo de ser rejeitada e de sofrer exclusão por ser quem é, do mesmo jeito que pessoas trans, lésbicas, assexuais e etc.

Imagem: “Lea, querida… Então, você… é um NPC (Personagem não jogável)?” = Linda.

Neste ponto o jogo toca na temática da identidade de forma mais explícita, já que ao longo do enredo, de uma forma ou de outra, Lea sempre está pensando sobre si. Quando Lea se coloca enquanto inteligência artificial com a ajuda de Sergey, uma pessoa utiliza expressões como clone e bot, referindo-se de forma um tanto pejorativa para ela. Infelizmente o jogo não explora muito essa situação, mas essa rápida passagem me colocou para pensar bastante.

Para concluir

CrossCode é um jogo que me surpreendeu no seu jogar, com suas mecânicas incríveis de exploração e combate. Porém, o enredo foi o que mais mexeu comigo. De forma intencional ou não, a situação vivida por Lea me fez pensar sobre o que é a vida e como ela funciona, ou o que é uma vida em primeiro lugar.

Para mim, isso é exatamente o objeto e o fazer da filosofia: provocar-nos a pensar sobre nós e tudo o que nos cerca. Aquilo que é natural e automático passa a ser colocado entre parênteses, e, então, nos perguntamos sobre nossas certezas.

Mas CrossCode também nos faz sentir, e perceber que esses sentimentos mobilizam pensamentos e vice-versa. Enquanto jogava eu ri, me alegrei, me angustiei, chorei, e tudo isso me fazia pensar não só sobre o jogo e a Lea, mas também sobre minha própria vida.

NOTAS

1 – Quando falo em lógica me refiro à discussão de Freud sobre o inconsciente. Quando descreve o inconsciente, Freud indica que este não seria apenas uma “região” ou tópica da mente que não é de acesso direto, mas um sistema mental que funciona sob outra lógica e outra temporalidade.

Clique aqui para ler – A existência e a realidade virtual em CrossCode: Parte 1
Clique aqui para ler – A existência e a realidade virtual em CrossCode: Parte 2

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