O Trágico e o Cômico em Naruto

Ao longo deste texto iremos analisar o primeiro capítulo da obra Naruto e como o protagonista inicia sua história como um menino comum e desordeiro, mas que, por ambicionar o reconhecimento dos membros da vila, desafia a ordem que vive. Existe um afrontamento por parte do protagonista, assim como ocorre com os heróis trágicos. Como veremos adiante, neste processo de desafiar o seu destino, o protagonista tem que lidar com a dor enquanto consequência de tentar ir contra ao que lhe estava traçado, além disso, ele tem revelado sobre si um segredo e tem sua realidade modificada de forma inesperada. Ainda assim , com a tragédia, o final de Naruto se aproximará de um final cômico no qual mesmo sendo portador de uma falha ele não será destruído por ela.

As tragédias do teatro grego narram a história da ação dos “homens elevados”, heróis que transitam por um caminho rumo ao seu aniquilamento. Há um percurso de ações intrínseco às tragédias: o protagonista desafia aos deuses, às autoridades ou ao seu destino, o que é chamado de “hybris”, em seguida acontece o sofrimento intenso como consequência deste desafio, é neste momento que a “páthos”, a compaixão, com relação ao herói, é despertada no espectador, e assim surge a “agnóris’ ou “anagnórise”, que é o reconhecimento de uma ação inesperada. Então, é desencadeado o clímax, o crescimento trágico até a “peripécia”, a mudança repentina de estados nas personagens, resultando na “cathársis”, a purgação das emoções tanto do herói quanto dos espectadores, sendo esta a reflexão purificadora e, por fim, teremos a “catástrofe, o  resultado de todas as ações, o desfecho trágico. Além de tais elementos, Aristóteles descreve como parte essencial do enredo das tragédias a Peripécia, que é o giro das ações em sentido contrário; o Reconhecimento, que é a mudança que se dá entre pessoas, do desconhecimento ao conhecimento; e o Patético, que é justamente a ação que produz destruição ou sofrimento, como mortes em cena, dores excruciantes, ferimentos, etc.

Se a tragédia é a exibição da ação dos homens superiores e reconhecidos, a comédia é a representação dos homens inferiores, comuns e que não são famosos por algum grande feito ou origem. Os heróis cômicos, assim como os trágicos,  são portadores de falhas, contudo a diferença entre eles é que o herói cômico provocará situações risíveis, enquanto o trágico será conduzido à sua destruição por elas.

O enredo trágico

O prólogo de Naruto nos apresenta o herói, ou personagem principal, como um menino sem talento,  mas portador de uma forte determinação e otimismo. Mesmo após falhar na atividade proposta, no teste, para ser aprovado como ninja, ele tem a esperança de conseguir ser aceito pela intervenção do instrutor Mizuki, mas tem seu sonho frustrado quando o professor Iruka é categórico em reprová-lo. Esta ação de Iruka é totalmente o contrário do que o protagonista estava esperando: é o início de sua peripécia.

Ao tentar reverter seu destino, segue o conselho de Mizuki, contudo o plano que deveria ser uma saída para ajudá-lo terminou por aumentar a inimizade que os demais ninjas sentiam por ele, tornando-o um criminoso procurado. Na verdade, ele estava sendo um fantoche para Mizuki. O que, contudo, provocará o sofrimento de Naruto não será o fato de ter sido enganado pelo ninja, mas a revelação de que ele é o hospedeiro da raposa de nove caudas. Durante todos os anos de sua vida, o garoto não conseguia entender o motivo de ser excluído pelas outras pessoas, e neste momento descobre que isto se deve ao fato dele ser considerado um monstro passando, assim, pelo reconhecimento. Todos já sabiam sobre sua verdadeira condição, enquanto ele se tornou consciente disto somente naquele momento. Mizuki pode não o ter ferido diretamente, mas foi a ação patética que feriu a sua existência.

A partir daquele momento, o personagem principal passa a questionar a própria identidade. Tomado pela frustração de ter sido enganado e tratado com hostilidade pelos membros da vila, assim como por achar que mesmo Iruka o odiava, ele começa a ser tomado pela ira. Como podemos ver na imagem abaixo, Naruto aparece com os cabelos arrepiados, com lágrimas nos olhos, golpeando o chão, e uma luz o envolve indicando, que o chakra da Kyuubi está tomando conta dele. A catástrofe do protagonista parece estar traçada: ou ser consumido pelo ódio e tomado pela raposa ou ser morto por Mizuki.

Imagem/Divulgação: Naruto – Mashasi Kishimoto

A sorte dele só muda devido a Iruka que consegue reconhecer a sua dor na dor de Naruto, e decide salvá-lo ainda que isso custe sua própria vida. Se o protagonista se descobriu monstro devido a Mizuki, foi devido a Iruka que ele conseguiu se libertar da sua imagem enquanto monstro. Ao escutar o seu professor falar que, apesar de todas as dificuldade e sofrimentos passados, ele se manteve humano e não se deixou consumir pela ira, ele toma a decisão de que, mesmo carregando o demônio de nove caudas, ele é e continuará sendo o “Uzumaki Naruto”, um verdadeiro integrante da Vila.

Naruto e o percurso do herói trágico

A história de Naruto começa mostrando um menino arteiro e debochado, sem nos apresentar quais as verdadeiras motivações por trás das suas ações desordeiras. O protagonista é representado como sem talento, mas, ainda que aparentemente isto pareça impossível, ele diz sem hesitação que se tornará o ninja que irá superar todos os outros líderes da Vila. Sua hybris é desafiar sua própria falta de habilidade.

Contudo, a determinação dele não é o bastante para o fazer ser aprovado no teste que seria o primeiro passo para a realização do seu sonho. Após a sua reprovação, vemos ele sendo usado para um propósito maléfico e descobrimos que realmente existe uma motivação para as pessoas o rejeitarem. Os sentimentos do protagonista passam a se tornar cada vez mais intensos, ele vivencia e coloca para fora a sua raiva, frustração e sofrimento. Ao mesmo tempo que Iruka desperta seu sentimento de compaixão, refletindo sobre a raiva, dor e solidão de Naruto, e então comparando-a com a sua própria, nós também conseguimos experimentar todas estas emoções do personagem principal, identificando-as com as nossas próprias.

O ápice do capítulo acontece no momento seguinte, quando o protagonista, escondido, ao escutar a fala de seu professor, consegue ele mesmo reconhecer o seu sentimento. Isto está representado na imagem a seguir, que mostra um fundo negro, contrastando com a iluminação do personagem, acompanhando desta forma o sentimento do personagem sendo trazido da sua própria escuridão.

Imagem/Divulgação: Naruto – Mashasi Kishimoto

Na página seguinte vemos o personagem chorando copiosamente, inclusive com secreções saindo do seu nariz. Essa ilustração não é bonita, pois seu objetivo é transpassar a emoção de uma forma realista, de modo que consigamos comparar com um choro real, que não é belo. Também dá certo ar cômico, e ao mesmo tempo profundo à expressão – o choro é uma liberação de tensão emocional, no fim das contas. E entregar-se à emoção, sem ligar para o nariz escorrendo não só liga com a juventude do personagem como dá uma dimensão da magnitude e poder dos sentimentos expressos.

Naruto poderia acreditar tanto em Mizuki, que disse que ele era um monstro, quanto em Iruka, que afirma que o menino era  humano. Ele precisou purgar os seus sentimentos para, então, encontrar-se dentro de si, para decidir no que acreditar. Uma vez que fez sua escolha, o personagem conseguiu, enfim, ter forças e lutar para proteger aquele que foi o primeiro a lhe reconhecer.

O desfecho do capítulo acaba sendo reconciliador. Apesar do protagonista ter de conviver com a realidade de que é o portador da Kyuubi, ele descobre que mesmo assim existe, ao menos, uma pessoa, Iruka, que o aceita e o reconhece como humano. Agora, tem consciência de qual será a maior dificuldade para conquistar o reconhecimento das outras pessoas, pois não é só uma questão de provar as suas habilidades, mas de provar a sua humanidade.

O tragicômico

Sendo um shōnen, o mangá Naruto começa focado no público de jovens meninos e, de acordo com o tempo de serialização, foi adquirindo aspectos mais sérios, acompanhando o amadurecimento do seu público leitor inicial. A história, principalmente no começo, busca causar muitas situações de riso, com as trapalhadas de Naruto e as suas caretas. O protagonista possui muitas características com as quais jovens se identificam, como ser bagunceiro, ir mal na escola, não ter respeito pelos mais velhos, etc.  É interessante observar que ele começa agindo mais como um protagonista cômico do que trágico e, ao longo da trajetória da sua história, a sua complexidade vai aumentando.

Kishimoto Masashi utiliza diversos recursos para trazer uma atmosfera bastante cômica. Podemos notar muito claramente as expressões dos personagens, que possuem sempre reações bastante teatrais e exageradas, sem necessariamente uma atenção estética, como se existisse uma despreocupação total com o belo ou com o correto. As expressões são desenhadas por vezes de maneira grotesca, e nos conduzem a um estado de surpresa ou riso.

Por desenhar personagens bastante simples, em linhas soltas e rápidas, o autor consegue uma certa “elasticidade” no seu modo de representar, podendo puxar, deformar, conter, e expandir as diversas reações dos personagens e, ainda assim, manter a sua identidade e particularidade. A forma da representação das figuras humanas usada nos mangás, não respeitando a anatomia original, mas de forma mais “caricata”, assemelha-se ao uso das máscaras cômicas, que também continham sorrisos e reações tortas e exageradas.

Imagem/Divulgação: Naruto – Mashasi Kishimoto

Na imagem acima podemos observar que o professor Iruka, escutando o garoto falar sobre seus desejos sinceros, está com um pedaço de macarrão pendurado na boca. Este tipo de solução cômica é amplamente utilizado por toda obra de Kishimoto Masashi. Outra característica bastante recorrente é o uso bastante dinâmico das onomatopeias e do texto escrito em diferentes formas. Elas são bastante “barulhentas” se comparadas ao uso feito em outros mangás, e contribuem de forma efetiva para o efeito humorístico.

O autor também se utiliza destes mesmos recursos gráficos para ilustrar as situações trágicas de sua obra, mantendo uma coerência imagética por toda narrativa, mas que ao mesmo tempo consegue nos fazer experimentar o que os personagens estão sentindo em seus momentos de intensa tristeza, perda, dor e agonia, como na imagem abaixo, onde o protagonista chora, o seu rosto é grosseiro e distorcido. O menino que outrora era motivo de riso e portava um sorriso contagiante agora causa grande comoção no leitor. Pela habilidade do mangaká, de envolver seu público com o personagem, conseguimos  acompanhar a alternação entre momentos cômicos e descontraídos com situações trágicas.

Imagem/Divulgação: Naruto – Mashasi Kishimoto

Conclusão

Existem muitas diferenças técnicas entre o teatro grego e os mangás, principalmente com relação a utilização de artifícios visuais uma vez que, nas peças gregas, as ações são contadas pelas falas dos personagens, enquanto os mangás utilizam a linguagem visual para representar as ações dos personagens. Ainda assim, se aproximam por retratar as ações de homens tanto comuns como extraordinários, de modo que conseguem promover sentimentos reais aos seus determinados públicos.

Mesmo já finalizada, a obra é conhecida e lida tanto por antigos leitores quanto por pessoas que estão recém se aproximando dos mangás. Isto é uma evidência da capacidade que Naruto tem de captar e representar as ações humanas, promovendo uma identificação dos seus leitores, e o distinguindo e o consagrando dentro do competitivo universo dos mangás.

Referências

Aristóteles. Poética. In: NOVA CULTURAL, Editora (Org.). Os Pensadores Aristóteles. 1°. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

GUIMARÃES, Nadaja Coelho. O trágico e o cômico nas mangás Shonen e Seinen. 2018. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) – Instituto de Letras, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2018.

GRAVETT, Paul. Mangá: Como o Japão Reinventou os Quadrinhos. São Paulo: Conrad, 2004.

KISHIMOTO, Masashi. Naruto. 2015. ed. [S.l.]: Panini Brasil, 2015, 192 p., v. 1°.

KISHIMOTO, Masashi. Naruto: O livro secreto do Guerreiro. 2014, ed. [S.l.]: Panini Brasil, 2014, 243 p.

SCHODT, Frederik L. Manga! Manga!: The World of Japanese Comics. 2012. ed. rev. e atual. New York: Kodansha USA, Inc, 2012. 256 p.

Artigos Relacionados

Comentários