Política e moral na série Disgaea

Política e moral com certeza são dois temas que muito me atraem, já falei disso partindo do jogo Undertale, focando as relações diversas e a gestão da morte, mas agora desejo falar do mesmo assunto trazendo a série de jogos Disgaea. Meu foco desta vez será descrever um pouco a política em seu aspecto mais processual, de decisão, no seu desenrolar e não necessariamente no seu produto final. Também falarei um pouco sobre a moral em Disgaea, porém mais como uma forma de ilustrar uma possibilidade de sociedade que não vivemos hoje.

Elementos que tornam a série Disgaea única

Criada pela NIS (Nippon Ichi Software), a série Disgaea ganhou rapidamente o mundo com uma proposta de Strategy RPG (ou SRPG) que cativava tanto pelo enredo como pelo sistema de combate. Os jogos são repletos de cenas de humor, mas também existem momentos em que eles transmitem tristeza, tudo isso colocado de um jeito que torna os personagens carismáticos. Não há ser humano, por exemplo, que passe um tempo jogando algum desses jogos e não conheça o icônico Laharl e sua risada.

O sistema de combate apresenta tanto elementos mais comuns, quando comparada com outros jogos do estilo, como também elementos totalmente exagerados que foram intencionalmente pensados para serem exagerados. Isso acaba dando um toque de humor também aos combates, e, além disso, o jogo apresenta possibilidades de crescimento para os personagens que não possui um fim definido. Se num jogo comum de RPG o esperado é termos um sistema de níveis que geralmente vai do 1 ao 99, na série é possível ir até o 9999, e você pode literalmente reencarnar um personagem, fazendo ele voltar ao primeiro nível com alguns bônus de crescimento, para então ser possível ir novamente até o 9999.

O exagero no combate em Disgaea.

Contudo, há dois outros pontos na série que tornam seus jogos únicos e que inclusive serão o foco deste texto: a moral “invertida” e a Dark Assembly (o senado). O primeiro está mais ligado ao enredo, aos personagens que são retratados como demônios e suas ações. Basicamente para todos os personagens de Disgaea, ou quase todos, o que é considerado correto é fazer o que entendemos como o “mal”. Roubar, matar, torturar, tudo isso é bem visto entre os demônios, mas vale destacar que o jogo brinca com esses comportamentos de modo a quebrar estereótipos, ainda que na maior parte do tempo ele reforce a ideia “demônio = maldade”.

O segundo ponto diz respeito a um grupo de demônios, sendo a maioria extremamente forte, que decide sobre como as coisas irão funcionar nos jogos. Eles decidem literalmente quase tudo, desde o que poderá ser vendido nas lojas até o nível dos inimigos. Durante o jogo você pode convocar uma reunião do senado para lançar propostas que podem favorecer seu estilo de jogo naquele momento, mas você precisa convencer os senadores acerca do tópico de interesse da reunião. A votação é extremamente simples, só existe “sim” e “não”, nada de abstenções. Caso a maioria absoluta vote sim você terá sua proposta aprovada imediatamente! Mas, se a maioria rejeitar a proposta você tem duas opções: desistir da proposta; convocar nova reunião para decidir a mesma coisa, e assim ficar tentando a sorte para senadores mais inclinados à proposta comparecerem; ou simplesmente convencer todos os senadores a aceitar tudo com base na porrada.

Imagem/Divulgação: Proposta ao senado (Dark Assembly): melhoria da barra de bônus nos combates (tornando mais fácil conseguir itens ao final).

Política e moral: interdependências

Política é algo tão amplo que circunscreve nossas vidas cotidianamente, no entanto talvez poucas pessoas já pararam para pensar sobre o que é política afinal. A maioria talvez diria que política é sinônimo de enganação ou de roubo, mas e se eu te disser que a vida no lugar onde você mora, seja casa, apartamento ou etc., depende da política para funcionar? E que você também constrói relações políticas dentro do espaço onde mora?

Vamos a um exemplo simples: a pia do banheiro e o uso da torneira. Como será que devemos usar a torneira da pia para escovar os dentes? Alguns diriam que ela deve permanecer fechada, mas outros podem achar por bem que ela permaneça aberta durante toda a escovação dos dentes. Cada grupo, neste caso, terá suas razões para defender seus pontos de vista, mas se esses grupos dividirem o mesmo espaço é possível que haja atritos sobre o uso dessa torneira. Até manter ou fechar uma porta pode ser alvo da discussão, desde que esta porta seja compartilhada entre os grupos de alguma forma.

O uso da torneira ou da porta passará por um processo de gestão, em que será decidida a forma como uma ou outra coisa será utilizada por ambos os grupos ou pessoas. Por isso que política vem do grego polis (cidade-estado), pois esse termo representa o espaço coletivo cuja gestão era pactuada entre as pessoas. Já a forma de compreender o uso dessa torneira ou dessa porta implica na visão que cada grupo ou que cada pessoa tem sobre cada objeto, seu ponto de vista moral. No entanto, enquanto norma, a moral no singular indica o que é desejável e o que deve ser seguido. Esta palavra deriva do latim moralis, que significa conjunto de costumes (mores) de uma sociedade.

Mas e se as partes não conseguirem chegar num consenso sobre como as coisas devem funcionar? Se no conflito não surgir o consenso mínimo, então observaremos a expressão mais visível do poder: a coação. É possível que no fim de um conflito uma das partes imponha sua regra sobre a outra, neste ponto devendo obedecer ou se retirar. Por isso uma solução separatista seria anti-política por excelência, pois ela indica que a partir de um dado momento a gestão não será mais coletiva. Com esses exemplos já é possível destacar que política é algo que só funciona mediante o compartilhamento de um espaço ou objeto, então se algo não é compartilhado ele não é objeto da política. Digamos que eu tenho uma caneta que pertence somente a mim e que eu quero usar toda a sua tinta em uma semana. Só cabe a mim a decisão de como usar a tinta da caneta, pois ela é um objeto privativo da minha pessoa. Disso decorre que para entender política também precisamos compreender a relação entre público e privado.

A moral acaba por ser um fenômeno mais transversal, que se traduz tanto na forma de uma norma que impele os grupos ou pessoas a agirem de determinada forma, como também a forma que cada grupo ou pessoa compreende uma dada questão. É conjunto dessas visões tanto compartilhadas como particulares a grupos e pessoas que vemos as discussões políticas ocorrerem, delas surgem os conflitos e os consensos. Assim, é possível perceber a íntima relação entre política e moral, e isso nos ajudará a entender um pouco o funcionamento de ambos os conceitos em Disgaea.

Enxergando a série Disgaea pela lente da política e da moral

De certa forma é possível analisar qualquer jogo de RPG médio a partir dessas duas categorias, ou mesmo qualquer enredo que seja (no formato jogo ou não). Isso porque, como foi dito, política e moral envolvem conflitos e consensos, poder e resistência. Quando você enfrenta o chamado “Boss”, em um RPG, é comum haver algum diálogo anterior em que ambas as partes, vilão e mocinhos, tentam convencer um ao outro com argumentos sobre como a vida deve funcionar, o que deve ser feito e assim por diante. O que finalmente decidirá quem terá seu ponto de vista respeitado e aplicado é simplesmente o poder: derrote o chefão e você consegue o final que deseja. Poucos são os jogos em que outros caminhos são oferecidos, mas a frequência em que o uso da força aparece simplesmente denota a importância da variável poder para compreender as relações políticas.

Disgaea, porém, é um desses jogos em que também é possível captar a política através dos consensos, com o processo de decisão política a partir de uma instituição (no caso o senado). Nesse caso, o instrumento do senado é uma forma de trazer para a série Disgaea a política nas suas formas mais explícitas, pois o objeto primo de um senado é a discussão sobre o funcionamento do espaço coletivo que ele representa politicamente. É através das propostas enviadas ao senado que o jogador pode perceber a forma como um senado funciona. Obviamente entre o jogo e a vida real existem inúmeras diferenças, mas deixe-me descrever melhor alguns fatos que ocorrem no jogo para termos uma ideia exata dessa diferença.

No jogo é possível perceber que você pode comprar o voto dos senadores com objetos de seu interesse, e que no jogo são completamente aleatórios (o que torna cômico também), dessa forma você pode fazer com que eles votem a seu favor. A partir do Disgaea 2 você também observa grupos de interesses no senado, como o grupo dos Orcs ou o grupo dos Dragões Celestiais, e que você pode se aliar a determinados grupos para amplificar sua aceitação entre os integrantes da casa. Porém, apoiar as pautas de determinados grupos significa ser odiado por outros, de modo que se torna impossível agradar todo mundo. Além disso, você também pode buscar efetivar sua vontade por meio do uso da força, que no caso será a sua própria, e caso você seja vitorioso a proposta será imediatamente aprovada por livre e espontânea pressão.

Agora eu pergunto: é possível perceber tudo isso num cenário político real? Eu diria sem medo de errar que sim! Existem interesses diversos na política que confundem-se com os interesses privados, existem grupos representados por partidos e coligações políticas, e o uso da força é basicamente o que mantém um Estado funcionado e garantindo algum tipo de efetivação sobre o que é decidido. Certamente existem muitas diferenças, mas decidi trazer esses pontos de convergência porque quero demonstrar como que um jogo pode nos fazer perceber, numa vivência prática, a política funcionando.

O tema da moral, por sua vez, também está presente na construção de quase todo tipo de enredo. Ora, quase sempre vemos personagens que possuem pontos de vista, ou enxergamos isso na forma como um grupo pensa sobre o que é certo ou errado. Por trás dos conflitos políticos sempre existem concepções morais, e o conflito em si simplesmente reflete as diferenças de pensamentos, caso contrário não haveria conflito algum.

No caso da série Disgaea, o teor moral nos parece invertido a primeira vista. Se matar para nós é algo errado, nos jogos isso é louvável e esperado. Essa diferença faz com que a ótica dos conflitos na nossa sociedade seja direcionada a uma forma de controle sobre a morte, pelo menos do ponto de vista do direito formal, enquanto que em Disgaea esse conflito se torna direcionado para uma espécie de moeda de troca ou aquisição de status. Dito de outra forma, o demônio que mais mata se torna mais respeitado e prestigiado, pois é visto como mais forte e assim tem direito de governar.

Imagem/Divulgação: Um pouco sobre o que é bem visto, ou considerado correto, para os personagens da série.

Esse contraste me faz pensar que é mais fácil enxergar a moral funcionando quando ela é diferente daquilo que esperamos. Por exemplo, normalmente não nos perguntamos sobre o porquê de personagens em um jogo estarem usando roupas, ou, para usar um exemplo mais banal até, porque sistematicamente os homens usam cabelo mais curto e as mulheres usam cabelo mais longo. Porém, ao olhar mais de perto sempre vamos perceber que numa dada sociedade nem todas as pessoas irão concordar com coisas consideradas centrais, e o mesmo ocorre na série Disgaea.

Ver vários jogos e sentir não só no enredo, mas nas suas mecânicas e propostas de jogo, como que existem formas diferentes de viver a vida pode nos colocar diante de um espelho: vamos começar enxergar em nós aquilo que antes era simplesmente natural, e então podemos nos questionar de onde vem nossos hábitos afinal.

Referências

Bobbio, N. (2000). Teoria geral da política: a filosofia política e as lições dos clássicos. Trad. Daniela Beccaria Versiani. Rio de Janeiro: Campus.

Artigos Relacionados

Comentários