A realidade nos jogos eletrônicos

Será que um jogo eletrônico com enredo, ou mesmo sem ele, pode nos fazer pensar em como funciona nossa vida, seja na maneira de pensarmos ou em questões relacionadas à organização das nossas sociedades? A maioria das pessoas talvez dissesse que “não, jogo é jogo, realidade é realidade”, numa compreensão que separa de maneira radical esses dois “universos”. Pierre Levy, filósofo contemporâneo interessado em compreender os efeitos de tecnologias como a internet, diria que essa separação não existe. Para ele faria mais sentido falar na oposição entre o virtual e o atual (e não o real), uma vez que ele compreende o virtual como possibilidade. Uma mensagem de voz em um aplicativo de conversas é uma informação eletrônica com o potencial de ser reproduzida por alguém, assim o virtual converte-se em atual, se concretiza.

O que isso tem haver com jogos? Absolutamente tudo. Jogos eletrônicos, enquanto “mensagens”, se concretizam para nós, trazem informações que captamos ao jogar. Assustamo-nos ao jogar um survival horror, sentimos tristeza e raiva quando uma personagem querida de algum jogo morre em algum momento da história. Tudo isso é real, está acontecendo em algum momento e nos provoca reações. É seguro dizer, a esta altura, que jogos eletrônicos são uma realidade na medida em que eles efetivamente existem para quem se encontra jogando.

Foram nesses encontros com os jogos que aprendi muita coisa sobre mim, sobre os Outros, sobre o mundo, de forma muito contrária ao pensamento comum que circula na sociedade. Por exemplo, jogando o recente jogo Hades, um roguelite que saiu para PC, aprendi muito sobre a cultura da Grécia antiga e a forma como eram compreendidos os fenômenos sociais, físicos e metafísicos que ganham materialidade na figura de deuses e deusas. Já refleti bastante sobre o fenômeno da religião e suas possibilidades jogando alguns RPGs japoneses como La Pucelle Tactics (Para PS2-PSP) e Final Fantasy X (Para PS2-PC). Quando entramos em contato com o que é diferente, portanto distinto de nós, nos percebemos no processo, nos damos conta de que somos diferentes em relação ao que aparece. É assim que o jovem Hegel desenvolve sua ideia de reconhecimento, da mesma forma Rousseau apresenta a tese de que o ser humano é bom por natureza a partir do contato que ele estabelece com populações indígenas, as quais foram materializadas na figura do “bom selvagem”.

Essa oportunidade que um jogo nos fornece de imergir naquele universo distinto pode funcionar como um verdadeiro vidro fumê, uma vez que suas propriedades óticas variam em função da luz no ambiente: em um determinado momento estamos vendo o que está do outro lado, porém, quando o jogo de luz se inverte, o vidro se torna espelho e passamos a ver nossa imagem.

“Somos as pessoas que foram expelidas do paraíso e forçadas a viver na cruel superfície da terra”. Cain – Xenogears (PS1).

 

Mas tudo isso também aparece em mangás, animês, filmes, séries, livros, etc., então porque jogar um jogo? Uma pequena grande diferença que torna os jogos tão interessantes é a possibilidade de interação e de investigação. É possível e provável que um jogo nos faça tomar decisões, das mais simples até as mais complicadas (talvez até dilemas). Também é comum haver a possibilidade de explorar as coisas ao nosso redor, observar as arquiteturas, os diálogos e suas construções. O ritmo e o conteúdo que aparece pode depender e muito da forma como o jogo é jogado, de modo a afetar inclusive o final de um enredo.

Pensando no sentido inverso, vale a pena refletir sobre como que a vida em sociedade também é pautada em elementos que se assemelham bastante ao de um jogo. Vivemos a partir de regras, o campo do direito seria a maior expressão formal disto que estou trazendo, mas essas regras podem variar de situação para situação. Buscamos estimar quais seriam as consequências das nossas decisões, tentamos dar algum sentido quando as coisas parecem caóticas ou aleatórias. Pierre Bourdieu, sociólogo contemporâneo, fala dos campos sociais a partir da lógica dos jogos e do jogar. Se um campo social é aquele espaço em que pessoas interagem a partir de códigos e convenções que fazem sentido apenas para este contexto e não outro, como o campo da moda, da política ou da academia, é justamente porque em cada um desses campos existem regras específicas e pessoas interessadas em segui-las. Bourdieu chega a utilizar a palavra jogo para descrever esse interesse em ocupar e se movimentar dentro de um campo social. No entanto, associar as interações sociais ao jogar acaba sendo visto como uma forma de reduzir a vida em sociedade, diriam muitos, como se essa aproximação fizesse com que as pessoas deixassem de levar as coisas a sério. Eu posso dizer que concordo bastante com Bourdieu nesse sentido, a analogia que ele utiliza representa nossa realidade.

Talvez seja oportuno encerrar este texto dizendo que sempre buscarei dialogar com as ideias que estou expondo aqui, por isso achei interessante escrever sobre esse assunto mais geral em primeiro lugar. Quero falar sobre várias séries de jogos, focando muito em RPGs, que é um dos estilos de jogo que mais gosto e mais joguei na vida, talvez para demonstrar um potencial que geralmente é desprezado ou mal compreendido pelas pessoas.

Referências

– HEGEL, Georg. Wilhelm. Friedrich. System of Ethical Life. New York: State University of New York Press, 1979. Disponível em https://www.marxists.org/reference/archive/hegel/works/se/index.htm
– ROUSSEAU, Jean Jacques. Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
– LÉVY, Pierre. O que é o Virtual? Disponível em: http://www.mom.arq.ufmg.br/mom/02_arq_interface/6a_aula/o_que_e_o_virtual_-_levy.pdf
– BOURDIEU, Pierre. Razões práticas: Sobre a teoria da ação. Trad. Mazia Corrêa. São Paulo: Papirus, 1996.

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Comentários

  1. Esse texto é muito instigante! provocou para pensar sobre os meus próprios preconceitos com relação aos jogos… eu achava que os jogos eram totalmente alienados das nossas vivências em sociedade! Olha a minha ignorância. Depois que eu joguei Life is Strange, penso de forma totalmente diferente… seu texto explica de forma didática como os jogos podem fazer refletir sobre nossas relações com o outro e os nossos papéis na sociedade, como esse jogo me fez refletir várias vezes ao ponto de eu descobrir minhas próprias vulnerabilidades, medos e preconceitos, porque tive a opção de fazer várias escolhas pela personagem Max e que tiveram consequências possíveis de serem vivenciadas caso eu estivesse na mesma situação.

    1. Muito obrigada Bruna!! Sinto que cumpri meu principal objetivo rsrs
      Sinto que toda produção humana nos faz aprender sobre a humanidade, sobre como as pessoas enxergam as coisas ao redor, sobre várias coisas.Jogos em particular convidam também para a ação e decisão, o que nos faz pensar em mais um mundo inteiro de coisas.

  2. Perfeito esse texto D’Angelles! Ao contrário do que muitas pessoas pensam, ao encaixar jogos apenas como um entreteinimento momentâneo desconectado da realidade, existe muita possibilidade de diálogo entre o real e o fictício. O que não significa que necessariamente “ficção influência e altera realidade”, como muitos também dizem para demonizar alguns jogos e histórias no geral. Gostei demais da tua reflexão sobre isso e to ansiosa pra ler mais textos!

    1. É exatamente isso Lori!!
      De fato existe esse outro exemplo também, em que as pessoas assumem que os jogos influenciam negativamente comportamento das pessoas. Confesso que não tinha pensado nesse exemplo especificamente para escrever o texto! E curioso que sempre quando ele aparece é envolvendo comportamentos ditos “anti-sociais” e violentos.