Política da vida ou da morte em Undertale

Undertale é um jogo de RPG (Role Playing Game) em que você não precisa matar os monstros que aparecem em seu caminho para concluir o jogo! A princípio isso parece apenas um diferencial em relação a outros jogos, como algum sistema específico de interação que torna o jogo mais atrativo e diversificado. Porém, essa ideia constrói toda uma filosofia que guia suas ações no jogo: diante do outro existe uma decisão moral e ética a ser tomada, e cada decisão terá suas consequências.

Esse cenário de possibilidades e seus significados nos faz pensar nos nossos “inimigos”, ou, melhor dizendo, os monstros que aparecem para nós. Estou realmente diante de um inimigo? De qualquer forma, é sobre esse assunto que o presente texto versará. Também pretendo discutir algumas noções sobre política enquanto conceito que organiza a dicotomia “conflito x poder”, focando exclusivamente o aspecto do conflito (falar de poder tornaria o texto muito longo).

Os corpos monstruosos.., segundo o olhar de quem vê

Uma das discussões centrais do jogo, se não a central, está ligada ao valor que os corpos possuem. Pense na seguinte situação: Você está em um jogo e existem “inimigos” na sua frente, portanto você precisa eliminá-los para prosseguir, correto? Mas…, de onde vem a noção de inimigo? O que caracteriza o Outro como seu inimigo ou aliado? Essa é uma questão que pode conduzir nossa atenção para as relações entre seres humanos e entre a humanidade com o mundo. Explorar o valor dos corpos, então, requer atentar-se primeiro para as relações que os corpos estabelecem.

Se eu me vejo como brasileira, outra pessoa do Brasil pode ter um valor diferente de uma pessoa de outro país, e isso afeta minha relação com ela. Curiosamente, se eu deixo de enfatizar que sou brasileira e agora me vejo como nordestina, posso ver outra pessoa do mesmo país que eu, mas que não é do nordeste, de uma outra forma. A copa do mundo é um período em que podemos observar como que a mudança do foco de interesse molda nossas relações. Porém, voltando ao ponto, a ideia aqui é ilustrar que o valor dos corpos é relativo a uma série de fatores.

O exemplo dado acima está atrelado à noção de identidade nacional ou geográfica, mas ele também se aplica aos corpos em si enquanto estruturas biológicas. A depender de como seu corpo é percebido em termos de gênero, raça-etnia e etc., ele pode ter mais ou menos valor na sociedade, dadas as relações de poder e o espaço que determinados grupos possuem na sociedade. Tudo isso, claro, desconsiderando elementos contextuais para tornar a ideia mais entendível.

E o que tudo isso tem haver com o jogo? A relação implícita que se faz entre monstro e inimigo. Ora, porque um monstro tem que ser seu inimigo afinal? Seu corpo abjeto pode facilitar nosso distanciamento, fazendo com que não tenhamos remorso em tirar sua vida. Essa retirada de humanidade do Outro, que nos leva a se distanciar e ter menos empatia, é retratado pelo fenômeno da infra humanização. Nos campos de concentração do Nazismo, e em outros massacres da história da humanidade, haviam justificativas para matar que incorriam nesse pensamento (Bar-Tal, 1990). Se está justificado que posso matar, logo estou fazendo uma coisa certa e desejável. O que Undertale mostra é que Monstros podem ser muito mais parecidos com seres humanos do que poderíamos pensar.

Imagem/Divulgação: Opções de conflito no jogo. Da esquerda para a direita: Lutar, agir, usar item, misericórdia.

Mas monstros não existem, pode pensar alguém. No entanto, a noção de corpos abjetos de Judith Butler (2019) é ampla o suficiente para pensarmos melhor. Existem corpos mais importantes, que causam maior alarde quando são mortos do que outros, corpos que tem maior valor. O assassinato do menino Henry, amplamente noticiado na mídia, ofusca vários casos de crianças negras que estão sendo mortas todos os dias em operações policiais nas periferias do Brasil. Se Foucault (2008) indica que a biopolítica é o controle da vida e de quem viverá na sociedade, Mbembe (2016) deriva desse pensador o conceito de Necropolítica para ilustrar as vidas que são perdidas todos os dias pela gestão dos governos, vidas percebidas como de menor valor. Não há exemplo mais triste do que a pandemia que vivemos enquanto escrevo este texto.

A partir da criação de um discurso sobre um corpo que lhe confere o status de aberrante ou abjeto, portanto repugnante à norma da sociedade, ameaçador do bom convívio e etc., cria-se um inimigo e com isso a justificativa de eliminá-lo. Este processo é descrito por Foucault (1988) em relação à criação da homossexualidade enquanto categoria médico-diagnóstica. Criada como desvio, ela serve para ativar uma percepção de que existe uma sexualidade errada no Outro, e que um exame poderá nos revelar uma verdade sobre o corpo que se comporta de maneira indesejada. Controla-se o que é permitido fazer e como é permitido existir, seja em comportamento, seja em traços físicos.

Os corpos abjetos, portanto, são aqueles considerados diferentes por uma norma criada. Ao invés de vermos uma busca pelo entendimento mútuo e pela consideração do Outro em sua “diferença”, o que prevalece é uma política de eliminação do Outro. Isso incorre em uma discussão moral que também é interessante ser explorada.

Política e moral: conflito ou consenso?

A relação que temos com o Outro pode ser entendida a partir de uma pressuposição sobre o que ele é e o que ele pode fazer comigo. Se eu confio numa pessoa, então eu posso buscar ouvi-la em suas necessidades, protege-la e por ela ser protegida. Se eu não confio, eu posso ver essa pessoa como estranha, distante, talvez potencialmente ameaçadora. Assim pode se ver você que joga Undertale em relação aos monstros no jogo: confiar podendo ser arriscado? Ou matar podendo ser injusto?

Se o pensamento regente for o de que é preciso matar antes que te matem, talvez a eliminação do Outro possa ser a política assumida como mais interessante. Nesse caso temos a gestão do espaço compartilhado, entre eu e um Outro, conduzida pelo pensamento do conflito: Somente um pode existir. Por outro lado, se eu penso que o Outro pode me ajudar e eu posso ajudar de volta, unir forças pode ser a política aqui adotada. A gestão do espaço obedecerá outra lógica: eu posso existir com o Outro, e talvez eu terei mais chances de existir por conta deste Outro. Há uma distinção entre esse pensamento caso ele seja fundamentado pelo egoísmo ou pelo altruísmo, mas ela pode ser um tanto intuitiva para que seja necessário explicar.

Imagem/Divulgação: Lutar ou ter misericórdia?

Se a política é a gestão do comum, a moral é o código que fundamenta essa gestão e confere-lhe sentido. Uma política pode ser vista como boa ou ruim, certa ou errada, a depender da lente moral utilizada, ainda que “bem”, “mal”, “certo” e “errado” sejam conceitos relativos. É de forma arbitrária que julgamos as ações que tomamos, e então assumimos que monstros devem morrer por eles serem diferentes de nós. Undertale estremece um pouco esse pensamento trazendo a possibilidade de uma outra experiência.

Mas.., é possível haver vida sem morte? A possibilidade em que todas as pessoas coexistem em felicidade? Ou, como destaca Flowey, personagem do jogo, “nesse mundo é matar ou morrer”? Autores como Marx e Engels (2002) apontam que a chamada pré-história da humanidade, dentro da qual ainda nos encontramos, existem conflitos entre classes que ganha forma a depender da sociedade e da época que estamos analisando. Por outro lado, a história da humanidade para Marx, em que se supera esse capítulo de pré-história, seria a ilustração da possibilidade de viver sem exploração? Isso é significado de harmonia?

Talvez um passeio por alguns pensamentos na filosofia e também na psicologia possa nos trazer caminhos para refletir sobre o assunto. Hobbes (2002) utiliza célebre frase de Platão “o homem é lobo do homem” (homus homini lupus est) para indicar que formação do Estado é uma necessidade, caso contrário imperaria um contexto de violência que seria natural no ser humano. Hanna Arendt (2006) formula o conceito de banalidade do mal para ilustrar um contexto em que a própria racionalização é utilizada para subjugar o Outro. Rousseau (1973) indica que o ser humano seria bom por natureza e culpa a sociedade pela sua corrupção. Steven Pinker (2011) percebe nossos tempos como de paz quando comparados com milênios atrás, em que as guerras eram regra e não a exceção. Nietzsche escreve Assim Falava Zaratustra (2011) para destacar, dentre várias coisas, que a superação da moral implica em seu abandono, caso contrário o ciclo de dominação se manterá. Seria esse um caminho possível?

A sucessão de todas essas ideias nos indica que vários pensadores e pensadoras buscaram, de alguma maneira, entender o fenômeno do conflito na humanidade, buscando possibilidades de como é possível sua gestão ou mesmo se há espaço para sua erradicação. Undertale simplesmente traduz essa dinâmica e nos faz pensarmos, enquanto jogadores e jogadoras, sobre o que fazer diante de tudo isso e quais consequências uma determinada ação poderá acarretar para mim e para os demais que me rodeiam.

No jogo e fora do jogo

Undertale, a sua maneira, nos faz pensar sobre o que seria correto fazer, ainda que não haja solução definitiva. Para além do jogo me pergunto se é possível haver conciliação e paz.

É possível que sim, se pensarmos que não existe um destino para o ser humano, e que o futuro será inteiramente fruto das ações em cada momento histórico, não havendo, então, espaço para determinismos. Por outro lado, se pensarmos que a violência sempre foi presente em todas as épocas da humanidade, e talvez em todos os povos, parece que não há muito espaço para uma saída pacífica. Na prática penso que não existe uma solução pronta ou final, o que significa dizer que cada sociedade e cada época terão suas questões e seus paradoxos. Sequer podemos falar em paz ou violência no sentido total, mas em situações de paz ou de violência.

Além disso, o jogo também nos leva a perguntar: porque a violência nos atrai tanto? Porque animações, filmes ou jogos com violência são tão atrativos? A banalização de conteúdo violento em produções artísticas diversas nos fez simplesmente deixar de enxergar tais obras como carregadas de conteúdo violento.

O jogo demonstra de maneira vivencial todas essas questões que trouxe em teoria, e isso faz toda a diferença. Pensar em um dilema é diferente de se ver diante de um, pensar na escolha do outro é diferente de escolher em primeira pessoa. Por isso sinto que o jogo, com seu enredo, cenários, músicas e escolhas nas situações mais diversas, causa um impacto que minhas palavras não podem captar. Undertale me fez rir, chorar, sentir amorosidade, medo, angústia, inúmeras coisas.

Perceber tudo isso torna este formato tão potente, e me pergunto se seu alcance não é maior do que o da academia científica, às vezes isolada e voltada para si, costumeiramente distante da sociedade. Com a permissão para fazer um trocadilho, Undertale pode não ser uma história não tão escondida assim.

Referências

ARENDT, Hannah. Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil. London: Penguin Books, 2006.

Bar-Tal, Daniel. Group beliefs: A conception for analyzing group structure, processes, and behavior . New York: Springer-Verlag, 1989.

BUTLER, Judith. Corpos que importam: os limites discursivos do “sexo”. São Paulo: N-1 edições, 2019.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. 13. Ed. Trad. Maria Thereza C. A. e J. A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.

FOUCAULT, Michel. Nascimento da Biopolítica. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fonts, 2008.

HOBBES, Thomas. Do Cidadão. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. Arte & Ensaios, n. 32, pp. 123-151.

NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

PINKER, Steven. Os anjos bons da nossa natureza: porque a violência diminuiu. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

ROUSSEAU, Jean Jacques. Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

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Comentários

  1. Querida D’Angelles!!! Tive a experiência de jogar um pouco e realmente fiquei surpresa quando descobri que o diálogo com esses “monstros” predominavam mais que a luta, porque eu estava acostumada com jogos que tratam o outro como alguém que precisa ser combatido. Chamou muito a minha atenção o fato de ser possível até criar relações de ajuda mútua entre os personagens, embora fossem de mundos completamente diferentes. Realmente esse jogo ajudou para pensar sobre como podem existir motivações que nos unem apesar das diferenças…

    1. Eu até me pergunto, Bruna, se esse pensamento automático de que o monstro é um inimigo foi algo trazido pelos vários jogos ao longo do tempo, ou se a associação entre diferente e inimigo pode ser algo muito presente em nós de antemão. Como eu tendo para pensar na perspectiva pós-estruturalista eu sinto que o social sempre aparece de um jeito ou de outro, mas é curioso pensar nisso.
      Eu recomendo demaaaaais tu terminar esse jogo, ele é muito incrível. Nunca imaginei que eu fosse sentir tantas emoções diferentes jogando o mesmo jogo.