A questão do bullying em “A Voz Do Silêncio”: a cultura surda e o ijime

A Voz do Silêncio, também conhecido pelo seu título em japonês, Koe no Katachi, é um mangá shounen completo em 7 volumes escrito e ilustrado por Yoshitoki Oima. No Brasil a obra já foi completamente publicada e atualmente está sendo republicada em uma edição de luxo em 4 volumes pela Editora NewPOP. Com o sucesso de sua adaptação cinematográfica em 2016 pela Kyoto Animation, a obra ainda conquistou mais sucesso ainda na mídia, tendo o filme exibido no cinema de diversos países além do Japão. Não é de se surpreender, afinal, a obra trata de um tema bastante sério e que afeta instituições de todo o mundo: bullying.

A história de A Voz do Silêncio aborda a temática do bullying através de duas experiências bastante diferentes. A primeira delas é a de Shouko Nishimiya, uma estudante surda que é transferida para uma nova escola no primário e acaba se tornando alvo de bullying. A segunda é a de Shouya Ishida, o principal bully de Nishimiya que se tornou o novo alvo após a saída de Shouko do colégio. Foi partindo dessas duas visões sobre um mesmo problema que surgiu uma curiosidade para compreender como se dá a construção dessas vivências e em qual ponto elas se tornam semelhantes, apesar de terem motivações e conclusões diferentes. 

Mesmo que o filme em si trate do tema com bastante responsabilidade e passe inteiramente a mensagem da obra original, a abordagem desse artigo será com base no mangá, que, por ser uma versão mais completa, ilustra melhor a questão. Porém, ainda sem a leitura do mangá e apenas com a versão do filme é possível ler e compreender esse artigo, que será dividido em 3 partes lançadas ao longo de abril/maio:

  • A cultura surda e o ijime japonês
  • O bullying sob o olhar da psicologia analítica e o vínculo agressor-vítima
  • A construção de uma identidade traumática e outras consequências

A cultura surda

Imagem/Divulgação | Mangá: A Voz do Silêncio

“Muito se engana aquele que acha que surdo não tem acesso a cultura, ele não apenas tem como também a produz.” (Lima & Senna, 2019)

Uma das motivações que podem levar ao bullying, especialmente entre crianças, é a não compreensão e aceitação das diferenças. No caso de Nishimiya e Ishida é nítido, até pela forma como Shouya se refere à Shouko como “extraterrestre”, que existe uma estranheza, incompreensão e até uma certa noção de “ameaça” em relação ao outro. Há um choque cultural.

“Mas como assim? Se ambos os personagens são japoneses, não fazem parte da mesma cultura?” Bem, primeiro temos que considerar uma definição básica para a palavra cultura. Dentro das ciências sociais, ela pode ser resumida em: um conjunto de ideias, símbolos, comportamentos e práticas sociais aprendidos e repassados a cada geração pela sociedade. Se valendo desse princípio e do fato de que a pessoa surda possui uma língua e toda uma forma de comunicação, visualização e modificação de mundo próprias, que são repassadas socialmente através de gerações, existe então uma cultura surda, que se dá principalmente por estímulos visuais (Lima & Senna, 2019).

“[…] a Surdez para além de ser uma condição física é um modo de ser e existir no mundo.” (Lima & Senna, 2019)

Dito isso, existe uma barreira cultural entre Nishimiya e seus colegas de turma, a qual é fortalecida pela dificuldade na comunicação verbal. A princípio a personagem depende exclusivamente de um caderno para se comunicar com a turma, já que nem mesmo o professor sabe a língua de sinais e, quando proposto por outra professora o ensino dessa, não há interesse por parte dos estudantes. Apenas uma aluna, Sahada, se dispõe a aprender a Shuwa (língua japonesa de sinais), mas logo após a tentativa de se inserir dentro da cultura surda e aprender com a Nishimiya, Sahada também acaba virando alvo de bullying e para de frequentar o colégio. 

A mensagem passada ao resto da turma após a situação de Sahada é de que você faz parte ou do “nosso” ou do “outro”, e ao escolher a cultura do “outro”, do “alienígena”, como o próprio Ishida se refere, você também é uma “ameaça” à cultura vigente. Sendo assim, não surpreende que outros alunos tenham demonstrado cada vez menos interesse em se aproximar de Nishimiya e preferiram se somar ao grupo de bullies ou se manterem numa suposta neutralidade.

Ijime: o contexto do bullying no Japão

Imagem/Divulgação | Mangá: A Voz do Silêncio

O termo Japonês referente ao que conhecemos como bullying é ijime, porém, a definição de ijime é um pouco diferente da nossa definição para bullying. Especialmente no Brasil, o bullying é frequentemente colocado como sinônimo de violência escolar, porém para os japoneses a violência escolar e o ijime são conceitos diferentes. 

De acordo com Morita (1999), ijime é “um tipo de comportamento agressivo de alguém que tem uma posição dominante no processo de interação coletiva, por atos intencionais ou coletivos, que causem sofrimento mental e/ou físico para outra pessoa dentro do grupo.” Pode-se perceber que Morita enfatiza o sofrimento mental em sua definição, isso porque o ijime é mais relacionado com violência psicológica do que física, sendo inclusive um problema frequentemente negligenciado por ser “inferior” à violência escolar (física).

Morita também diz no livro The Natural of School Bullying: A Cross-National Perspective que os esforços governamentais e de educadores japoneses para prevenir a violência escolar sempre foram semelhantes à forma como países europeus lidam com o bullying. Ele frisa essa diferença entre o bullying na europa, que é mais relacionado com a violência física, enquanto no japão a violência principal nesses casos é a psicológica. Por mais que a violência escolar no Japão fosse um enorme problema até meados da década de 70, ela foi diminuindo com essas medidas de prevenção, em contrapartida o ijime apenas se mostrou cada vez mais presente e difícil de ser ignorado pelas autoridades e pela mídia.

O reconhecimento midiático do ijime e a preocupação real com esse problema só se tornaram reais após uma onda de suicídios em 1984 e 1985. Com isso o ijime se tornou um dos grandes problemas mostrados na mídia de massas na década de 80 no Japão, requerendo assim uma reação das autoridades, que começaram a se atentar ao problema e buscar formas novas de combate, diferentes das usadas com a violência escolar. Apesar disso, a insegurança do povo com esse problema apenas cresceu quando em 1986 foi noticiado o primeiro caso descrito de ijime na mídia: um alarmante “funeral falso” organizado por alunos, inclusive com participação de professores, contra um outro aluno. Após isso a cobrança em relação ao papel dos professores se acentuou bastante, sendo naquele momento publicados centenas de livros e artigos direcionados ao tema. 

Como resultado dessa onda de preocupação, os casos que surgiam diariamente na mídia rapidamente diminuíram, porém isso não significa que o ijime se tornou um problema resolvido, ele apenas saiu de foco para a mídia. O ijime permanece até hoje sendo um problema constante nos colégios japoneses, principalmente por estar bastante conectado com casos de suicídio.

Estatisticamente falando é difícil apontar dados concretos sobre o bullying no Japão, já que muitos professores e escolas não reportam atos violentos que ocorrem nas instituições, porém com os dados divulgados em 2020, que apontam 612 mil casos reportados por 30 mil escolas em 2019, já dá para perceber a gravidade do problema. 

O ijime em A Voz do Silêncio

Imagem/Divulgação | Mangá: A Voz do Silêncio

O sociólogo e professor Asao Naito afirmou para a BBC, em um artigo sobre o caso recente de uma aluna brasileira que sofreu com tal problema em uma escola no Japão, que:

“A essência do bullying no Japão está no fato de que as crianças são vistas pelo grupo, e não individualmente. Há uma visão de que o grupo deve agir de forma única, o aluno pertence à escola e deve se comportar conforme o esperado do grupo”.

Essa afirmação, apesar de se referir ao caso de uma aluna estrangeira, descreve perfeitamente a situação de Shouko Nishimiya, que mesmo sendo japonesa é, de certa maneira, vista como uma “estrangeira”. Shouko enfrenta as mesmas barreiras culturais e de linguagem que um aluno estrangeiro encontraria, inclusive o próprio termo “estrangeiro” tem em sua origem o termo “estranho”, significando “o que é de fora”, que é como tais alunos , que estão “de fora” da ordem daquele grupo, são tratados.

Como dito anteriormente, Shouya Ishida também utiliza o termo “extraterrestre” para descrever Nishimiya,  o que é curioso se considerarmos que a origem de tal palavra também se dá na ideia de “alguém que é de fora”. O tempo todo está delimitada uma linha que separa Shouko de Shouya e o resto daquela microssociedade escolar. É a partir disso que se iniciam as agressões, primeiramente verbais e psicológicas, mas posteriormente físicas, sofridas pela personagem durante a infância.

Já com Ishida, que se torna o alvo quando Nishimiya muda de colégio, a motivação é outra. O ijime sofrido por ele se mantém inteiramente aliado à esfera da violência psicológica e se baseia na culpabilização. Após o caso de Shouko se tornar um problema levado às autoridades por envolver a perda de diversos aparelhos auditivos caros, o professor e a turma apontam Ishida como o bully. Por mais que outras pessoas estivessem envolvidas, quando Shouya levanta essa questão seus amigos se voltam contra ele e começam a repetir o que foi feito à Shouko com ele. Shouya, que começa a se sentir culpado por tudo o que aconteceu, apenas aceita todo o seu “castigo” sem reagir, se considerando merecedor de tal tratamento e construindo uma identidade traumática ao longo dos anos.

Concluindo…

A mangaká Yoshitoki Oima não peca em sua abordagem dessa cultura surda e do choque gerado entre essa e a cultura não-surda dominante até então naquele ambiente escolar. A autora faz um trabalho excelente no geral também ao retratar isso em sua arte, seja com a presença frequente da língua de sinais ao longo da obra ou simplesmente na forma em que as ilustrações são apresentadas quando o ponto de vista é de Shouko Nishimiya. Mais ao final do mangá, quando temos momentos em que ela é a narradora, é perceptível o cuidado da autora ao retratar os sons e a visão de mundo de Nishimiya através da arte, que fica com poucas falas, efeitos sonoros colocados de uma forma mais “caótica”, como se fossem meramente barulhos pouco identificáveis etc.

Além disso, em um primeiro momento, o mangá e filme A Voz do Silêncio introduzem de forma muito cuidadosa essa questão do ijime, no quesito de uma violência psicológica, que é mais discreta porém muito presente e negligenciada nas estruturas escolares. Tanto no ijime sofrido por Shouko, como no sofrido por Shouya, que tem origens bastante diferentes, apesar de se conectarem em relação ao contexto, é possível ver a essência do ijime como algo diferente da violência escolar. Inclusive é apenas quando o ijime com Shouko cruza uma fronteira para a violência escolar (física) que as autoridades escolares tomam alguma providência, o que nunca chegou a ocorrer com Shouya, por exemplo.

Seguindo uma divisão semelhante a da própria história, ná próxima parte desse artigo veremos um aprofundamento desse bullying e do enredo de A Voz do Silêncio sob a ótica da psicologia analítica e, em uma terceira parte, teremos a finalização com as consequências mostradas no mangá e no filme (podendo conter spoilers!). Nos vemos na parte 2!

Onde ler?

  • Compre o volume 1 em português pela Amazon
  • Compre o volume 1 em português pela loja da Editora Newpop
  • Compre o volume 2 em pré-venda pela Amazon
  • Compre o volume 2 em pré-venda pela loja da Editora Newpop
  • A adaptação do filme também está disponível na Netflix

Referências:

  • LIMA, K. do N. S. A Cultura Surda a partir da Linguagem dos Quadrinhos. RELACult – Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura e Sociedade, [S. l.], v. 5, n. 4, 2019. DOI: 10.23899/relacult.v5i4.1323. Disponível em: https://periodicos.claec.org/index.php/relacult/article/view/1323. Acesso em: 29 mar. 2021.
  • MORITA, Yohji. The Natural of School Bullying: A Cross-National Perspective. Londres: Routledge, 1999.
  • https://www.bbc.com/portuguese/internacional-55860613 (acessado em 29/03/2021)

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Comentários

  1. Querida Lori, parabéns pelo excelente texto! Eu não imaginava que bullying e ijime poderiam ter diferentes significados e como esses significados afetam a forma como as pessoas lidam com essas violências na escola. Será que esse mangá é inspirado em experiências que de fato ocorreram? Estou ansiosa para ler a segunda parte do texto!

  2. Lori, eu li teu texto agora (incrível por sinal!!!).
    Nossa, muito importante a ideia que tu quer transmitir, e a forma como tu fez foi muito boa! São muitas questões para pensar, e nisso fiquei com vontade de conhecer a obra.
    De cara já é raríssimo ver uma obra que retrate pessoas com deficiência ou membros dos grupos tipos como “outros” na sociedade, marginalizados e etc. Ainda que talvez a maior parte focalize as vivências negativas e etc, não deixa de ser importante demais buscar sensibilizar as pessoas para alguns temas.
    Também não fazia ideia de que havia um termo mais específico para o Japão e que ele abarca uma forma diferente da nossa de compreender a questão, ainda que hajam semelhanças. Essa ênfase nos aspectos psicológicos é algo muito análogo ao que hoje vemos em relação às formas de manifestação do preconceito. Se antes ele era flagrante hoje ele é sutil, e isso não significa que ele deixou de existir, ao contrário do que muita gente pensa. Sob um olhar mais atento poderíamos dizer que ele tanto se mantém em níveis parecidos como ele está mais difícil de ser combatido, afinal alguém pode fazer uma “brincadeira” racista, por exemplo, e depois dizer que o preconceito só existe aos olhos de quem destaca o racismo na comunicação trazida.
    Achei muito interessante como que a autora dá sequência ao ciclo de violência trazendo como alvo a própria pessoa que antes excluía a personagem. Talvez boa parte das pessoas não parasse para refletir numa situação dessas, ou pensaria no momento e depois esqueceria. De qualquer forma sem dúvida é um espiral de violência que constrói pessoas infelizes, dentro desse esquema de “eu excluo você” um dia a coisa pode se voltar para própria pessoa. Penso muito isso em relação ao preconceito.