Animes e Mangás: tribos, mitos e psique

Contexto Histórico         

Os eventos ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial impactaram a cultura nipônica a nível social, econômico, ético e moral, obrigando a grande nação japonesa a se reinventar. Dentro desse contexto surgem os animes como marco cultural dessa revolução. O termo anime é o nome dado às animações japonesas, que muitas vezes adaptam os conteúdos presentes nos mangás (histórias em quadrinhos); Os animes hoje são transmitidos por diversas mídias no Japão como a televisão, cinema e plataformas de streaming ( que atualmente atuam em escala mundial).

O que poucos sabem é que as animações japonesas tem forte influência ocidental, em principal dos Estados Unidos, após a aproximação dos dois países pós-Segunda Guerra Mundial. Nesse período ocorreu o surgimento e o sucesso do mercado de HQs americanas (por exemplo: Capitão América, Namor que  surgem no período da guerra) bem como suas grandes produções cinematográficas da época. Como reflexo dessa influência as primeiras produções de animes utilizaram enquadramento cinematográfico para animar seus mangá. O grande mangaká Osamu Tezuka (1928-1989), expressa nitidamente em palavras tal influência:

“Por que os filmes americanos são tão diferentes dos japoneses? Como eu posso desenhar quadrinhos que façam as pessoas rir, chorar e se emocionar como aquele filme? ’’.

Vale ressaltar aqui a diferença entre mangá e anime: para o povo japonês toda e qualquer animação, sendo ela japonesa ou não, recebe o nome de anime cuja origem da palavra advém de termos estrangeiros, que significa literalmente animação. O termo mangá, entretanto, como cita Gravett em seu livro MANGA: SIXTY YEARS OF JAPONESE COMICS (2004 p.13), data do século XIX e foi usado pelo artista japonês Hokusai em 1814 para designar livros de “rascunhos excêntricos”.

O ideograma 漫 “Man” tem um significado primário de “involuntário” e possui um significado secundário de “moralmente corrupto”. Já o ideograma  画 “Ga” significa imagens. Os conteúdos abordados nessas páginas expressam todos os tipos de aspectos da cultura japonesa, desde temas infantis e fantasiosos, como também mais adultos, como: sexo, violência e filosofia de vida. Ao contrário do que muitos podem pensar, nem todo anime tem sua origem de um mangá, inclusive o crescimento do mercado de mangás foi impulsionado pelo crescimento do mercado de animes, e vice-versa, o que torna comum alguns equívocos em relação a esses conceitos.

– Man
– Ga

Imagem/Divulgação: Desenhos Hokusai – Hokusai Mangá

Pois bem, aos poucos a indústria de animações japonesas foi crescendo, sendo hoje grande responsável pela difusão da cultura nipônica mundo a fora, a exemplo da série Demon Slayer, cujo o filme se tornou a maior bilheteria em anime do mundo e a maior de um filme no Japão. É admirável observar como o povo japonês adaptou a seu modo os efeitos do capitalismo e da cultura ocidental, como por exemplo, a tecnologia, mercado onde o Japão é potência mundial.

Winterstein:
“Ao lado de exportações de aparelhos eletrônicos, veículos automotores um dos principais expoentes da expansão japonesa no mercado mundial são histórias em quadrinhos e desenhos animados. ’’

O universo dos animes e mangás exploram temáticas como: comédia, horror, ação, aventura, drama, entretanto o grande diferencial está no modo como são colocados esses temas. Os japoneses conseguem, quase que por mágica, fazer com que o leitor ou espectador mergulhe na trama, através de personagens carismáticos e enredos, que muitas vezes evocam sentimentos cotidianos, onde até um anime com uma temática aparentemente monótona e simples como, por exemplo, jogo de damas se torna envolvente e emocionante. (Nada contra os honrosos e geniais leitores jogadores de Damas).

A imensidão e complexidade do assunto nos permite compreender, portanto que ao se tratar de animes e mangás, estamos falando diretamente de uma expressão cultural japonesa. A fins de simplificar o entendimento desse fenômeno trago o conceito de Tribo Urbana  parar tratar de todo o conjunto cultural do Japão que envolve esse universo, dos animes, mangásotakus.

Tribo

Imagem/Divulgação: Dr.Stone

Mas o que seria uma tribo urbana? Qual a relação com animes e mangás? Segundo Michel Maffesoli (primeiro sociólogo a cunhar o termo)  tribos urbanas são:

” Pequenos grupos cujos elementos se unem por partilharem os mesmos princípios, ideais, gostos musicais ou estéticos que assumem a sua máxima expressão e visibilidade na adolescência.  Elementos estes que os distinguem do resto da sociedade e ao mesmo tempo os identificam. ’’

Podemos perceber facilmente, após ler esse conceito, que aqueles chamados de Otakus (no entendimento ocidental, leia o seguinte texto para saber mais) se classificam como uma tribo urbana. As generalidades de uma tribo, sejam elas urbanas ou não, envolvem um aspecto cultural, com costumes, vestimentas e rituais específicos que podemos identificar. Animes e mangás são parte essencial dessa expressão criativa e representam elementos presentes na vida da tribo.

E toda a tribo possui um conjunto de símbolos e signos, que são estruturados  em formas narrativas.  A essa expressão através de contos de uma sociedade antiga ou primitiva atribuímos o nome de mito. Existem fortes exemplos: a mitologia grega, nórdica, judaica, cristã, e por fim a japonesa, que os próprios mangakás se inspiram para elaborar seus enredos. Logo animes e mangás podem ser entendido por duas perspectivas:

Primeiro, ele é uma releitura, um recall dos mitos antigos; em segundo um novo conto, um novo mito contado de uma perspectiva mais atual. Em ambos os casos, existe forte relação com caráter mítico da humanidade. É exatamente nesse ponto que conseguimos conectar tribos, otakus e  psicologia, especificamente o ramo chamado psicologia analítica ou junguiana.

Por dentro da Psique

Imagem/Divulgação: Mob Psycho

Carl Gustav Jung, é um dos grandes nomes da psicologia e possui um conceito ainda hoje considerado polêmico – o Inconsciente Coletivo. Nele o autor propõe que nossa mente herda certas imagens, símbolos, paradigmas que existem desde os princípios da humanidade, e que são expressos pelo ser humano em todos os campos de sua vida, através dos pensamentos, comunicação, sensações, corpo, movimento,  arte, entre outros.

Em específico aqui vamos analisar nossa capacidade expressiva através da arte dos contos, poemas, escrita e pintura, meios de comunicação que contém grande carga simbólica. Os animes e mangás não fogem a esse meio, é uma arte expressa através de contos registrados em quadrinhos e posteriormente e animações. Esse é o único ponto que o difere de um poema ou conto, pois a narrativa herdada se mantém a mesma desde os primórdios do ser humano e pode ser facilmente identificada ao analisarmos mais a fundo.

Os mitos são expressões das forças internas que atuam em nossa Psique (mente), em sua maioria são conteúdos inconscientes que se manifestam conscientemente através de histórias, paradigmas e símbolos que se repetem em diversos períodos e sociedades distintas. Não é difícil portanto  observar a semelhança existente, por exemplo, entre a narrativa simbólica de Naruto e o conto de Sigurd o grande herói Nórdico. O leitor pode pensar ao ler o artigo: Mas obviamente que os enredos de animes e mangás têm base em diversos contos antigos e lendas e possuem  influências culturais, logo é certo que a narrativa tende a ser semelhante.

De certo modo nosso caro leitor tem razão, entretanto lhes peço para se atentar  há algo mais profundo, para além das inspirações pessoais dos autores. O decorrer da narrativa contém em suas entrelinhas conteúdos simbólicos, presentes desde os primórdios – a busca pelo autoconhecimento, a vida eterna, confronto com nossa sombra, paradigmas do amor –  tais conteúdos estão presentes no homem para além de seu conhecimento pessoal, da sua consciência, limitada a experiência individual. O que busco explicar é um olhar hermético aos conteúdos presentes nos enredos dos animes e mangás, um trecho do livro: os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo de Jung pode vir a expressar melhor essa ideia :

“O inconsciente coletivo é uma parte da psique que pode distinguir-se de um inconsciente pessoal pelo fato de que não deve sua existência à experiência pessoal, não sendo, portanto, uma aquisição pessoal. Enquanto o inconsciente pessoal é constituído essencialmente de conteúdos que já foram conscientes e, no entanto desapareceram da consciência por terem sido esquecidos ou reprimidos, os conteúdos do inconsciente coletivo nunca estiveram na consciência e, portanto não foram adquiridos individualmente, mas devem sua existência apenas à hereditariedade. O inconsciente coletivo não se desenvolve individualmente, mas é herdado. Ele consiste de formas preexistentes, arquétipos, que só secundariamente podem tornar-se conscientes, conferindo uma forma definida aos conteúdos da consciência. ’’

Devo lembrar aqui do ideograma da palavra mangá, o sufixo Ga, significa” imagem” e Man de “involuntário” que nesse contexto podem ser entendido como símbolos, processos de criação que começam pela livre e espontânea expressão, muitas vezes sem um significado a priori. Creio que ao perguntarmos aos grandes cartunistas, mangakás e desenhistas como se deu o início do processo de criação de seus primeiros rascunhos a resposta seria algo como: comecei a rascunhar sem pretensões, deixei meus pensamentos fluírem, tive inspirações através de sonhos, devaneios.

Um exemplo pode tornar mais claro o que venho a dizer: Júlio Verne, escritor famoso por obras literárias visionárias, admitiu que suas ideias muitas vezes foram inspiradas por sonhos. Em um deles viu uma máquina diferente de tudo que existia e era capaz de se locomover embaixo da água usando eletricidade, este sonho lhe serviu de inspiração para o livro Vinte Mil Léguas Submarinas.

Imagem/Divulgação: Navio One Piece acima e abaixo Nautilus – Vinte Mil Léguas Submarinas

Sonhos são porta de entrada para o mundo inconsciente, momento onde a consciência não está sobre vigília e os conteúdos presentes nas camadas mais profundas da psique surgem em forma de imagens e símbolos involuntários sem as amarras das leis que regem a realidade. Esse exemplo demonstra a forte influência dos conteúdos do inconsciente sobre nossas vidas, não é incomum encontrar situações como essa no meio artístico, onde as ideias surgem além do pensar consciente. Se perguntarmos aos mangakás é provável que tenhamos situações semelhantes sobre fontes de inspiração.

É essa camada mais sútil, impessoal e comum ao ser humano, que Carl Jung da o nome de inconsciente coletivo. Os arquétipos (imagens) podem se manifestar através de uma meditação, um sonho, insight no meio do vazio de nossos pensamentos, durante um banho relaxante, ou desenhos aleatórios. Não questiono aqui as influências externas e o produto final, mas sim o que o antecede.

“O arquétipo representa essencialmente um conteúdo inconsciente, o qual se modifica através de sua conscientização e percepção, assumindo matizes que variam de acordo com a consciência individual na qual se manifesta. ’’ Carl Gustav Jung

O conteúdo presente nos animes e mangás são um “remake’’ por assim dizer dos mitos antigos, portanto podem ser analisados por uma ótica semelhante, são expressões artística dos conteúdos psicológicos internos de um povo. A cultura deve ser compreendida como um macro organismo que representa um inconsciente compartilhado de experiências adquiridas ao longo de milhões de anos de espécie, que pode ser analisada através do micro-organismo compreendido como psique. Em próximos artigos tentarei elaborar e expor conceitos, deixando claro que é possível analisar o fenômeno dos animes e mangás, pela visão da psicologia de Jung.

Como leitura complementar a esse texto recomendo mais 3 artigos aqui do portal:

Referências Bibliográficas

Catão, Bruno Alves, et al. “Tribo De Consumo De Animes: O Anime Como Um Totem.” Revista Gestão e Desenvolvimento, 2017, p. 126.
Gravett, Paul. Manga: Sixty Years of Japanese Comics. Collins Design, 2010.
Jung, Carl G., and Maria L. Pinho. O Homem e Seus símbolos. Nova Fronteira, 2008.
Jung, Carl Gustav, et al. Os arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Vozes, 2001.
Kishimoto, Masashi, et al. Naruto. VIZ Media, 2007.
Winterstein, Claudia Pedro.“Mangás e animes : sociabilidade entre cosplayers e otakus.’’. São Carlos : UFSCar, 2010.

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