Attack on Titan: fronteiras do inconsciente

Psique Anime: Attack on Titan

O Artigo a seguir contém Spoilers!

Maria, Rose e Sina

Com o final da primeira parte da quarta temporada de Shingeki no Kyojin, muitos mistérios foram revelados, a obra de Hajime Isayama continua se demonstrando digna de prima. O envolto em torno do segredo, de fora das muralhas e sua revelação, são com certeza o ápice do anime até o momento. A sensação da descoberta de algo além de nós, traz uma mistura de medo, euforia, desespero, alívio e esperança. O choque de realidade, representado como a morte de algo velho e o deparar com o novo, o desconhecido, até então oculto e incompreendido, é a consciência de um fato, que não pode mais ser negado, ou ignorado. Essa “morte” do velho possui um simbolismo, que no fundo, em nossa mente sussurra: “As coisas nunca mais serão as mesmas”, significa que a partir desse momento, é necessário seguir em frente, pois cada passo será uma nova descoberta, um novo desafio e tudo será diferente, pelo simples fato de adquirir consciência de algo.

YMIR

Essas fases de “morte” como transformação, são experimentadas em diversos momentos de nossas vidas: a primeira ida a escola, a transição para a adolescência, para a fase adulta, em seguinte a velhice. O caminho humano é como diria a Esfinge, transitório, do raiar da manhã até o pôr do sol nos caminhamos com diversas patas. Muitas representações simbólicas de transformação são encontradas em mitos e lendas, talvez, a mais famosa do mundo ocidental seja a história de Adão e Eva. Ao comer do fruto proibido do conhecimento os primeiros humanos têm consciência de sua existência e a condição do qual vivem, e passam a enxergar o que os cerca. Um paraíso, construído por Deus, apenas para eles, um local divino que provém tudo que necessitam. Com a consciência de tais fatos surgem dúvidas, inquietações e consequentes problemas, que faz com que aquele local, o Éden, não lhes sirva mais. Pois agora a consciência assume o papel da natureza primeira, ela ocupa seu espaço. A reflexão é a característica principal desse estágio, o fator natural, o agir instintivamente e empiricamente dá lugar às dúvidas e problematizações. Segundo Jung esse afastar-se dos instintos e a oposição a eles é um fator contribuinte para a “criação” da consciência, semelhante a um adolescente rebelde, que indaga aos pais: “Agora eu cuido da minha vida”.

Essas fortes oposições ao homem primitivo e sua negação geram como consequência barreiras psíquicas que nos afastam do inconsciente, do ser animal que somos. O período de domínio do inconsciente sobre o consciente realmente existiu há muitos anos atrás, com os primeiros humanos. O paraíso de Adão e Eva, existiu enquanto seres “puros” de consciência, nesse momento de nossa história a natureza cumpria o papel do intelecto, as soluções para todos os problemas estavam em seu seio.

[750] “Por que a consciência agora é chamada para fazer tudo aquilo que a natureza sempre fez em favor de seus filhos, a saber : Tomar decisões seguras, inquestionáveis, e inequívocas”.

Carl Jung, Etapas da Vida Humana

Ymir e o Demônio – Shingeki no Kyojin – Imagem/Divulgação

O que podemos afirmar sobre esse despertar, é tão somente o fato de que surge por meio de um rompimento, uma ruptura através de um confronto que resulta em dualidade, a separação das partes. Na mitologia, esse emergir é representado pelos contos de criação do universo, que em alguns casos ocorre por meio de batalhas ferozes entre Deuses, ou, pelo simples e misterioso despertar da luz que surge em meio a escuridão. A exemplo dos Gregos e Chineses:

Conto Grego: No princípio era o Caos. Caos, em grego (Kháos), do (khaínein), abrir-se, entreabrir-se, significa abismo insondável. O Caos é “a personificação do vazio primordial, anterior à criação, quando a ordem ainda não havia sido imposta aos elementos do mundo”

Conto Chinês: Na tradição chinesa, o Caos é o espaço homogêneo, anterior à divisão em quatro horizontes, que equivale à criação do mundo. Esta divisão marca a passagem ao diferenciado e a possibilidade de orientação, constituindo-se na base de toda a organização do cosmo.  ” A existência e a inexistência geram-se uma pela outra…ambos são distintos em seus nomes mas tem a mesma origem…O comum entre os dois se chama mistério”.

A ruptura com a mãe natureza deixa suas marcas, nos sentimos órfãos e abandonados, obrigados a seguir pelo caminho que agora conseguimos enxergar, sabemos que não a volta àquele estado anterior, sendo impossível esquecer a consciência de um fato. O pecado original, o sacrifício do estado de inocência é um ponto chave que ocorre em vários momentos do anime, sendo o mais marcante, a primeira aparição dos Titãs na muralha de Maria, após cem anos de “paz”, o olhar do Titã Colossal por cima dos muros e o desespero dos personagens principais, ainda crianças, marca essa fase transitória, no qual aquela vida pacífica se demonstrou apenas uma ilusão passageira.

Mangá Attack on Titan Imagem/Divulgação

[751] “Cada problema, portanto, implica na possibilidade de ampliar a consciência mas também a necessidade de nos desprendermos de qualquer traço de infantilismo e de confiança inconsciente em a natureza. Esta necessidade é um fator psíquico de tal monta, que constitui um dos ensinamentos simbólicos mais essenciais da religião cristã. É o sacrifício do homem puramente natural, do ser inconsciente e natural, cuja a tragédia começou com o ato de comer a maçã do paraíso…nos apresenta o despontar da consciência como uma maldição.”

Carl Jung, Etapas da Vida Humana

No anime, se levarmos em consideração as muralhas em seu significado metafórico, podemos compreender o seu caráter materno, não à toa, são batizadas com nomes femininos, a primeira e maior delas, Maria a mãe de Jesus, portanto um símbolo da natureza e o inconsciente que nos cerca. A diante analisaremos algumas considerações acerca das muralhas de Maria, Rose e Sina.

ANOTHER BRICK IN THE WALL

“Todos são somente tijolos na parede” 

Tradução música Another brick in the wall – Canção da Banda Pink Floyd

Mangá Attack on Titan – Imagem/Divulgação

Carl Jung, foi um dos grandes responsáveis, por trazer a questão do inconsciente como um fenômeno existente e presente em nossa vida diária. Devemos imaginar, a grosso modo, o que os psicanalistas e pensadores desse período estavam querendo dizer: Há algo em sua mente que você desconhece, do qual não tem controle e possui vontade própria. Hora, assumir que existe algo dentro de nossa mente que não possuímos controle, um pensamento ou ação, que nos passa despercebido, que entretanto pode influenciar toda nossa vida, se essas afirmações lhe soam estranhas, para a época em que foram elaboradas em meados de 1900, era uma verdadeira revolução cognitiva.

Nosso consciente, a força responsável por tudo que construímos, plataforma onde depositamos nossa confiança, não é o único pilar, e pior, não é o centro da sala de nossa existência. Nesse momento, em pleno Iluminismo, com a glorificação do Homem como centro do Universo e a razão como “arma” suprema em sua luta contra a natureza, seu trunfo, o aspecto cognitivo, a luz capaz de iluminar os cantos mais obscuros da ciência se depara com uma inconveniente descoberta. E levanta a dúvida a priori – somos apenas poeiras ao vento?! Todas as verdades, certezas, e seguranças, que essa nova era poderia trazer, podem sumir em um simples instante? As muralhas que antes nos protegiam parece nos cercar, será que existem Titãs dentro delas?

Essa dramatização acerca do surgimento desses conceitos parece exagerada e afinal realmente é, mas o impacto que causa é profundo. Após essas descobertas sobre a psique humana vários estudos e teorias surgem e buscam respostas para os paradigmas humanos, nesse caminho mecanismos são descobertos, como a famosa teoria de Freud sobre os impulsos reprimidos e a estrutura da psique. Em resumo, nossa mente tem “mecanismos de defesa” que atuam para garantir sua integridade. Portanto, traumas e desejos inapropriados socialmente são reprimidos perante uma barreira, onde repousam no inconsciente, entretanto, essas potências psíquicas não desaparecem da mesma, é esse espaço onde aguardam que leva o nome de inconsciente, um vasto campo de pulsões que esperam o momento propício para se manifestar novamente, a qualquer deslize da consciência. Sonhos, atos falhos, doenças, são exemplos desses “escapes” de pulsões.

Em resumo, Freud diz que existem “muralhas” mentais que nos protegem de “Titãs” internos mas Carl Jung vai ainda mais além quando propõe que o inconsciente não é somente um depósito de questões reprimidas e/ou contidas pela consciência, fruto de experiências pessoais, mas um universo infinito de experiências coletivas da humanidade sem qualquer caráter pessoal, uma natureza inata, a priori, de onde surgem as potências e os impulsos que nos levam a vida, o berço de nosso nascimento. Jung está dizendo então que as próprias muralhas são feitas de “Titãs”! Uma das representações simbólicas mais associada a esse inconsciente chamado por ele de coletivo é a figura do mar. O mar é o símbolo da imensidão e o desconhecido, não sabemos de todos os seres e a vida que habita em suas profundezas, nos sentimos inábeis, perante ele, uma gota em meio ao oceano.

” Além da muralha, há um mar. O Armin que disse…Mas além do mar, eu sempre me questionei o que tinha além dele”

Eren episódio 1, terceira temporada.

Nessa escuridão estão contidos, monstros, demônios, seres devoradores, como Titãs que desejam nossa carne. O inconsciente é uma mãe feroz, um Dragão que busca vingança pela desobediência de seu filho, pelo pecado, de ir além. Pois a consciência emerge do inconsciente, como a luz que nasce do Caos. São necessárias barreiras para proteção contra esses seres monstruosos, instintos animais como a cólera, a luxúria, a gula, pecados humanos colocados por Dante como punições do mais baixo inferno, memórias e traumas, atos que desejamos esquecer.

E o que seria esse inferno, senão um conjunto de muralhas, separadas por níveis? Em Shingeki no Kyojin, as muralhas representam as barreiras de nossa própria consciência, em conjunto ao inconsciente, para garantir nossa integridade frente ao desespero e a verdade, as memórias apagadas, que revelam: Você não está no controle. As mesmas memórias roubadas pela família Reiss, para esconder sobre a sociedade humana fora das muralhas.

Mapa do Inferno, de Sandro Botticelli

Os Titãs, são símbolo do devorador inconsciente, guiado apenas pelos seus instintos, um ser que advém da natureza, ele representa o primeiro estágio do ser humano antes de morder a maçã proibida do Éden ou utilizar o fogo de Prometeu. É o ser básico que negamos em nós, que se move em busca de alimento e satisfação, uma verdade que preferimos esconder. O ser humano é um animal, nossa humanidade nos antecede, somos fruto de uma natureza devoradora que se encontra à espreita cujo a força está além de nosso domínio e compreensão. Por isso são formamos barreiras que nos protegem desses Titãs, desejamos esquecer que afora, existe o perigo e que aqui, neste local, estamos “protegidos” pelo universo que criamos.

Titã Bestial – Shingeki no Kyojin – Imagem/Divulgação

Entretanto, essa é uma visão, um tanto, demonizada de nosso inconsciente, embora possua conteúdos que podem ser “perigosos”, com o tempo compreendemos que esses demônios são como a sombra de um gato, que projeta um monstro imenso na parede. Não que essas potências não tenham a força necessária para impulsionar os maiores males do mundo, como a guerra, o ódio, a fome, a ganância, o preconceito, mas seus conteúdos só ganham força à medida que os alimentamos. Em si são puros, inatos de bem ou mal.

Dentro de mim, existem dois lobos: O lobo do ódio e o Lobo do amor. Ambos disputam sobre mim.
E quando me perguntam, qual lobo é o vencedor? Respondo: O que eu alimento.

Provérbio indígena.

No inconsciente coletivo jaz o veneno e a cura, tesouros também se escondem em meio ao seu mar, não só reprimimos traumas negativos e sentimentos ruins mas nossas maiores qualidades, aquelas nunca antes exploradas, vividas, uma parte de nós que nunca pode se nutrir, pois viveu somente a ilusão de dentro das Muralhas, cercada pelo medo de vir a ser. No fim nossa maior força é o poder de escolha, ao nos depararmos com um fato podemos decidir se iremos viver dentro das muralhas ou atravessar o mar e confrontar nosso destino. Ao tomarmos nossa escolha em prol ao impulso a vida de seguir adiante os muros gigantes que antes nos protegia se tornam nossa prisão em uma ilha minúscula afastada do continente, onde não cabemos mais.

As viagens de Gulliver Jonathan Swift – 1726

 “As grades do condomínio são para trazer proteção, mas também trazem a dúvida, se é você que ‘tá nessa prisão! ”

Música Minha alma – Canção da Banda O Rappa

OTHER SIDE AND BEYOND

Muitos mistérios sobre a obra ainda devem ser revelados, todavia até esse momento Attack on Titan nos dá margem a um emaranhado de reflexões sobre nossas vidas. Quais as ilusões e muralhas que anda construindo em sua volta? Quando olhamos para além dos muros, quais os seres que alimentamos ao longo da vida? Quem te espera do outro lado do muro são Titãs, ou humanos? Além desse universo pode existir um oceano de infinidades. Cabe a escolha, um passo adiante. Em próxima postagem sobre o assunto, iremos situar o nome dessa força que nos joga para além dos muros, o ímpeto, a insatisfação por estarmos aprisionados pela nossa própria condição passageira. Em Attack on Titan já vimos muito sobre essa “força”, seu nome é Shingeki no Kyojin (Titã de Ataque).

Todas as considerações aqui levantadas foram pautadas com base no anime, não acompanho o mangá, portanto considerei somente as informações que tenho até o momento, fato que não muda a questão simbólica apresentadas até o momento na obra.

“Será que vivemos apenas para viver, será que procurar, não encontrar, não nos preocupamos , não mudar um pouco, vemos, não ver, nos sentimos para refletir”.

Tradução música The Other Side – Canção da Banda Beyond the Black

Imagem/Divulgação

Referências Bibliográficas

Brandão Junito de Souza. Mitologia Grega: Volume I. Vozes, 2007.

HENRIQUES V.F. Considerações acerca do conceito de psiquificação na obra de Carl Gustav Jung. Dissertação de Mestrado, UFSJ, São João del-Rei, 2015.

Jung, Carl G., and Mateus R. Rocha. A Natureza Da Psique. Vozes, 2000.

Legge, James, et al. The Tao Te Ching. Cheng-Wen, 1969.

SANCHES, A. O instinto de morte e o ” além do princípio do prazer”: um diálogo entre Sabina Spielrein e Gilles Deleuze. Natureza Humana, São Paulo, v. 20, n. 1, p. 98-114, jul/2018.

                                                           SITES

https://www.vagalume.com.br/pink-floyd/another-brick-in-the-wall-traducao.html

https://www.vagalume.com.br/o-rappa/minha-alma-a-paz-que-eu-nao-quero.html

https://www.letras.mus.br/beyond-the-black/the-other-side/traducao.html

 

Artigos Relacionados

Comentários