O anime como constituinte do sujeito

Vive-se em um mundo contemporâneo, onde a mídia adquiriu um papel formador e estruturador da vida do sujeito, ela dita regras, padrões de certo e errado, além de estereótipos. A família atual não é a mesma família dos anos 70, ou a mesma família do começo do século. Mudanças foram feitas nos paradigmas familiares e a televisão entra como um terceiro, modelador do indivíduo e sua educação. Neste prisma que o anime é inserido, com seus heróis, histórias, por vezes sanguinárias, todavia que mostram às crianças ou adolescentes e até adultos valores como a amizade, o respeito e o companheirismo. A contemporaneidade, traz, consigo, o aprimoramento da tecnologia em suas novas formas. A globalização alterou não só a mídia e a vida dos indivíduo, mas também os símbolos envolvidos.

É notável que um interesse crescente por parte de crianças e adolescente em comprar animes é visto no Brasil. As histórias são as mais diversas, tanto no mangá, quanto no animê, além do fato de que, ali, naquele espaço a criança pode se identificar com as emoções do/a protagonista, o que pode, por consequência, gerar um efeito catártico. A explicação para algumas cenas violentas, com sangue e exageradas nos traços de expressão é exatamente esta, para os desenhistas japoneses, esta catarse é obtida via protagonista.

Outro fato notório é que os heróis japoneses, diferente em tese dos americanos, possuem vidas comuns, com problemas que são por vezes exacerbados por conta do desenhista em questão. No exemplo de Sailor Moon, que será alvo de artigos posteriores, a protagonista possui os problemas normais de uma adolescente, sua mudança corporal, a importância do grupo de amigas e o luto pelo estado infantil que, agora, é um novo estado, além do anseio pela idade adulta e problemas escolares. Esses personagens, dos desenhos japoneses, não são “super” por si só, possuem problemas e sonhos, o que permite um canal de identificação dos consumidores maior com aquele/a personagem, como diz FURUKAWA (2005):

“Ao inserir personagens mais próximos da realidade em que vivem ou com ideias semelhantes ao dos leitores, sem os “super” de um herói ocidental, a leitura dos mangás permitiu ao leitor que ele se identificasse com os personagens, podendo vivenciar as fantasias e sonhos ou buscar alternativas para o seu próprio mundo.”

Ainda seguindo tal linha de raciocínio, FURUKAWA (2005):

“Ao abordar diferentes assuntos, com personagens de personalidades autênticas e verdadeiras, os animes e mangás conseguem despertar emoções comparadas a qualquer produção que articula ficção e realidade.”

Fluidez

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Ao contrário do que pode ser pensado, o anime possui também público adulto e gêneros específicos para tal público. Voltando ao tema inicial deste tópico, percebe-se a mudança da sociedade para uma sociedade fluida. Fluidez é um conceito utilizado e criado por Zygmunt Bauman, em oposição ao conceito de solidez, visto nas décadas de 50 e 60.  Esta metáfora da liquidez foi conceituada pro Bauman para apresentar as características do mundo atual. Nas épocas de solidez, a característica eram valores definidos, até rígidos, sociedade patriarcal, a família era constituída de um pai que, geralmente, trabalhava para o sustento da família, a mulher, dona de casa e filhos. Em contraposição à solidez este conceito existe, pois, na contemporaneidade, os valores encontram-se em crise e o indivíduo não possui mais medo de fatores externos, mas também, fatores internos agora se juntam como componentes de medo.

Veja aqui: O que significa ser um mangá shounen?

Para o autor tudo agora é líquido: As relações afetivas, bens materiais, a espiritualidade e até as próprias pessoas, o que urge para outro fato, o descarte. Tudo é descartado na contemporaneidade e o medo da solidão é um dos maiores existentes, além disso, a voracidade para tamponar uma angústia é imensa, gerando, de certa forma um ciclo vicioso entre a fluidez, o descarte e o medo da solidão. Tudo é consumido sem pensar e os indivíduos atribuem tal fato como algo corriqueiro “sempre foi assim”, o que não é real. Segundo SOCZEK (2003):

“..ideia que Bauman utiliza para expressar sua concepção de modernidade, que, para ele, adquiriu uma perspectiva “transbordante”, “esvaída”, em oposição ao conceito de “sólido” enquanto duradouro, dada a fluidez do mundo contemporâneo.”

Ainda sobre a questão da fluidez e da sociedade contemporânea, SILVA (2011) afirma:

“As mudanças experimentadas pela sociedade contemporânea modificaram a forma de interpretar o mundo e, consequentemente, o consumo. A pós – modernidade desvencilha-se de todos os tipos tradicionais de ordem social, de uma maneira que não tem precedente. O contemporâneo passa a ser marcado pelo fim dos padrões, da estabilidade, da segurança e das certezas. Surge o tempo da indefinição, do medo e da insegurança.”

Na citação acima, pode-se perceber o conceito de fluidez atuante, ou seja, aos valores sólidos em decadência e, com eles a antiga segurança que funcionava de certeza, agora substituída pela insegurança e pelo medo generalizado. Continuando debruçados sobre esta questão, é compreensível e adequado notar que a televisão e em especial o anime, funciona como modelador e educador para crianças e jovens, trazendo, também, uma retomada aos valores sólidos, hoje esquecidos pela liquidez. A característica mais notada na sociedade atual é a rapidez. Tudo é rápido e, hoje, com apenas um toque, pode-se conectar com amigos que estão em lugares longínquos, todavia, a tecnologia, globalização e a própria sociedade faz com que essa prática da rapidez seja criada e, de certa forma legitimada, o que produz em maior escala tal prática, que novamente será legitimada e levará novamente outra produção, em um ciclo.

O que era durável ou tido como bem durável hoje não é mais, é descartado, sendo rei o momento presente, a sua intensidade maior ou menor, sempre com rapidez, com consequência o desapego e uma vida almejando a felicidade numa busca incansável. Para manter a auto – estima o consumidor deve comprar um ou outro produto, adquirir, que em breve será obsoleto, tudo isso, para adquirir temporária posição social, na visão do autor.

A atmosfera do líquido é rápida, como já dito, voraz e não permite a estruturação de planos para longo prazo, mais uma vez não permitindo a manifestação do sólido, dando entrada somente ao “presente do presente”, ou seja, o presente que é seguido e sucedido de outro presente, apenas isso, descartando assim o futuro, em conjunto com os planos. Esta característica da sociedade atual quebra com a inércia retilínea, deixando justamente, no que antes era retilíneo, agora curvo. Para a ótica de Bauman não há satisfação, ela é temporária e logo o indivíduo deve, como uma espécie de obrigação, consumir novamente e novamente, gerando uma luta incansável pela posição social e a felicidade, que é encontrada momentaneamente e descartada.

A felicidade  então vira uma espécie de “lugar ilusório” e os indivíduos querem obtê-la, todavia, com o mínimo de esforço e sacrifício amenizar as tão aterrorizantes incertezas e medos, manipulando de forma quase certeira a identidade.

Outra consequência da liquidez é a crise da identidade do “ser” que se baseia em sentimentos vindos do individuo de inadequação, perda da luta do si – mesmo, questionamentos depressivos e/ou existenciais profundos e, mais uma vez, medo e insegurança. A identidade agora é múltipla, facetada, contraditória, complexa, fugaz. O medo aparece turvo, difuso e atinge a toda a sociedade, independentemente de classe social, credo ou raça, pois o ambiente é percebido como hostil, sendo esta a essência do medo atual e não mais as incertezas, que poderiam ser pensadas como uma forma de medo para os padrões antigos, sólidos.

Sujeito e Sociedade

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Agora que o conceito de fluidez já foi esclarecido, pode-se entender de melhor forma, contextualizada, a sociedade atual. Relembrando o tema do trabalho, o anime, em meio a esta fluidez, traz consigo, de forma implícita, valores sólidos, numa espécie de resgate a solidez, à amizade e ao autoconhecimento e, de uma forma sutil, a conexão do homem com o arquétipo do si – mesmo. Sobre este arquétipo, RAMOS (2002) coloca:

“O self (si mesmo)

– É o núcleo não só do inconsciente, mas, também, de toda a psique.

– É o arquétipo que leva o homem à busca pelo conhecimento de si mesmo, pelo autoconhecimento, pela integração com os demais homens, pela vivência espiritual, pela integração com Deus. Essa busca é denominada por Jung de processo de individuação (será falado sobre esse conceito mais adiante) e trata-se da busca pela totalidade psíquica (a integração entre consciente e inconsciente).- A vivência do self está associada à numinosidade.”

Como um arquétipo possui polaridades positivas e negativas, deve-se atentar para o falso self. Sobre esta questão, GALVÃO, GOMES E FERREIRA (2007):

“Essa necessidade se distancia, na medida em que um lado sombrio da contemporaneidade, ou seja, avanços tecnológicos, produtividade por extensa jornada de trabalho, (falsa) independência nas inter – relações, internet, uso abusivos dos antidepressivos para se manter em estado de euforia constante, entre outros, fazem do homem um ser altamente “adaptado” e “falsamente” feliz e saudável diante de sua essência, o retrato de tudo isso é contínuo adoecimento. Pode-se dizer que, mesmo com tudo isso, o homem nunca esteve tão solitário e aborrecido, tão distante do seu verdadeiro self.”

Esta citação pode ser pensada como uma relação com o conceito de Bauman, com a rapidez da sociedade e o consumismo exacerbado e o medo constante, generalizado. As demandas vitais se tornam monstruosas e ameaçadoras, sem sequer saber onde começam ou sequer terminam, tudo fica junto, numa forma de amálgama.

Percebe-se que o homem adoece e se afasta de seu verdadeiro self, vivenciando o falso self. O indivíduo sofre perdas, físicas e psicológicas, de identidade, como dito, se perde numa amálgama de identidades, fruto da fluidez contemporânea.

Ainda referente à questão do verdadeiro self, RAMOS (2002) aponta:

“A vivência do self pode ser alcançada mediante uma busca própria (nesse caso, o indivíduo aprende através de suas próprias experiências, “acertando” e “errando”, enfrentando seus “anjos” e “demônios”. É a forma mais difícil (sofrida) de vivência do self), mediante o recurso da psicoterapia (nesse caso, ele terá o auxílio de outra(s) pessoa(s) na sua busca. A função da psicoterapia para Jung é auxiliar o indivíduo no seu caminho pelo processo de individuação) ou mediante a sua inclusão em instituições religiosas (que propiciem a vivência da numinosidade, ainda que inconscientemente.”

Animes como signos

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Voltando à questão do anime, agora a questão de sua importância é mais clara, com papel de estruturador, educador, catártico e de identificação, por parte de seu público. Os signos escolhidos entram em ressonância com suas preferências e demandas pertinentes ao momento único, pessoal, intransferível, por elas vividos. Sobre esta questão FURUKAWA (2005) reflete:

“É importante frisar que enquanto ser humano “não acabado” existe uma parte de si que é um vir -a –ser que modifica constantemente de acordo com as vivências, no qual a busca de conhecimento e crescimento pessoal é algo que não cessa. É a partir da interação que se tem com as outras pessoas significativas, que vão sendo transmitidas as regras para o bom convívio, a aprendizagem de uma linguagem, a história e maneiras de lidar com os momentos da vida. Sem esses meios, a criança é incapaz de se constituir como um ser humano que tem modos de estruturar o tempo, nomear sentimentos e de conduzir a vida de forma singular.”

Este processo é interno, interior e individual, reconhecendo as capacidades e transforma-as, usando a energia libidinal de forma criativa, assim é um caminho para o processo de individuação. A respeito deste processo, RAMOS (2002) coloca que:

“O eixo central da Psicologia Analítica é o processo de individuação. Trata-se da busca do ser humano pelo conhecimento de si mesmo, pelo autoconhecimento, pela integração com os demais homens, pela vivência espiritual, pela integração com Deus. Trata-se da busca pela totalidade psíquica (a integração entre consciente e inconsciente).”

Concluindo, então, a importância do anime , FURUKAWA (2005) afirma:

“Apesar do mangá/anime ter um contexto que muitas vezes não condiz com a realidade do Brasil, a relação que este material vai estabelecer com o adolescente brasileiro é singular e pode influenciar na produção de sentidos ou continuação deste sentido num nível mais compatível com os sentimentos que a pessoa está vivendo. Assim, ao ler ou assistir um mangá e/ou anime, que possuem uma configuração subjetiva, este mobilizaria emoções relacionados a experiências anteriores, presentes ou desejos futuros que vão interagindo de acordo com as particularidades de cada sujeito, ajudando-os nos conflitos diários e formando parte na construção da identidade.”

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