O fenômeno Hikikomori: o corpo no isolamento, a ficção e a realidade

A vida imita a arte ou a arte imita a vida? Talvez um dos termos mais conhecidos da língua japonesa no ambiente otaku seja o Hikikomori (ひきこもり ou 引きこもり). Esse termo indica uma forma de retração social aguda, caracterizada pelo isolamento social e confinamento, principalmente quando a pessoa passa a maior parte de seu tempo dentro do próprio quarto. A palavra designa tanto o fenômeno em si quanto os próprios acometidos. Esse acontecimento é bastante reconhecido no Japão, possuindo diversas representações na cultura popular japonesa, como falamos anteriormente no texto “O fenômeno Hikikomori: representações na cultura pop japonesa”. Contudo, não há um limite geográfico para esse problema: ele também existe em diversos outros países orientais e ocidentais. Portanto, hoje iremos falar um pouco sobre essa condição e como ela pode afetar o nosso corpo!!

“O Hikikomori não simplesmente acontece, e em nenhum ponto aleatório da história ele acontece sozinho. O aumento do número de Hikikomori, incluindo o fato de que eles se auto identificam como tais e não se identificam mais em categorias psiquiátricas, nos ensina muito do ponto de vista da antropologia da saúde mental, da psicanálise e da teoria da subjetividade.”
– Nicolas Tajan pg. 219 (2021), tradução livre dos autores

Resumidamente, em sua maioria, o sujeito Hikikomori é do sexo masculino, adolescente ou jovem adulto, descrito como apático, niilista, desiludido, afastado da escola e da sociedade no qual a internet representa uma “saída de emergência” para as dificuldades que enfrentam — sociais, econômicos ou psicológicos — os quais se isolam buscando proteção contra o risco de se envergonharem da própria inadequação. É importante ressaltar que a baixa prevalência em mulheres pode ser uma subestimação devido a valores atribuídos a esse gênero na sociedade japonesa; além disso, outro fato interessante é a baixa taxa de suicídio entre os Hikikomori.

Essa representação masculina, niilista, desiludida e apática está bem presente em diversas obras, principalmente de fantasia de poder e Isekai (異 世界), como Mushoku Tensei: Isekai Ittara Honki Dasu (無職転生 ~異世界行ったら本気だす~) e Re:Zero − Starting Life in Another World (Re:ゼロから始める異世界生活). Mushoku Tensei é uma novel japonesa que foi adaptada para anime recentemente, cuja segunda temporada será lançada em breve; ela conta a história de Rudeus Greyrat (ルーデウス・グレイラット), um homem de 34 anos que antes de reencarnar em um mundo de fantasia era um virgem nada atraente que vivia isolado, sendo evitado até mesmo pela própria família. Re:Zero, outra novel japonesa adaptada para anime, por sua vez, mostra a jornada de Subaru (ナツキ・スバル) num mundo cheio de perigo e magia, para o qual ele é transportado de uma hora para a outra enquanto saía de uma loja de conveniência perto de sua casa. Curiosamente, apesar das semelhanças de enredo, essas obras diferem em diversos pontos — um deles bem peculiar! Rudeus não fazia atividades físicas, enquanto Subaru exercitava-se todo dia — o que a história utilizava para justificar a sua força física. Contudo, o primeiro representa muito mais a realidade! Mas como sabemos disso?

Figura 1: O protagonista Subaru incentiva sua amiga e interesse romântico Emilia (エミリア) a se alongar e exercitar, hábito o qual ele praticava diariamente antes de ser transportado para outro mundo.

Um estudo realizado para entender os impactos do estilo de vida “Hikikomori” na saúde física de 104 indivíduos foi realizado por Yuen e colaboradores em 2018. Nele, apesar de observado um bom funcionamento físico em geral, a sedentariedade dos participantes promoveu uma alta incidência de hipertensão e pré-hipertensão, no qual impactava de forma mais grave os indivíduos que estavam nessa condição por mais tempo. Além disso, esse aumento da pressão arterial foi correlacionado com a idade e parâmetros do índice de obesidade, demonstrando, também, uma mudança no peso corporal, no qual os indivíduos de baixo peso passaram para o sobrepeso e/ou a obesidade ao longo da duração do isolamento. Essas questões são um grande risco, já que sugerem uma maior chance de complicações cardiovasculares e outras doenças crônicas.

Figura 2: Do real para a fantasia, a mudança corporal do protagonista Rudeus Greyrat do seu passado Hikikomori para seu atual corpo.

Por fim, há outras questões que envolvem esse fenômeno no Japão, como fatores familiares. Atualmente, o isolamento conta com outro enorme componente: a realidade de pandemia e a quarentena, que vêm sendo associados ao aumento da solidão e de distúrbios relacionados ao estresse. Além dos desafios políticos, sociais e/ou econômicos os quais já levam as pessoas a expressarem um comportamento semelhante ao dos Hikikomori, acredita-se que com esse estressor — a pandemia — um fenômeno Hikikomori comum ocorrerá em um nível global, pós-pandêmico. No Brasil, um desses fenômenos é o que está sendo chamado na mídia de “Síndrome da Gaiola”, na qual o medo e a ansiedade impedem jovens de saírem de casa, com fatores, características e idade muito próxima da observada no fenômeno Hikikomori. Portanto, lembrem-se que tanto a saúde física quanto mental é extremamente importante: tome cuidado e …

“[…] seja bom consigo mesmo”.
– Neon Genesis Evangelion ep. 26, tradução livre dos autores.

Co-autor do artigo: André Almo

Bibliografia

KATO, T. A.; SARTORIUS, N.; SHINFUKU, N. Forced social isolation due to COVID-19 and consequent mental health problems: Lessons from Hikikomori. Psychiatry and clinical neurosciences, v. 74, n. 9, p. 506–507, set. 2020.

SARCHIONE, F. et al. Hikikomori: Clinical and Psychopathological Issues. European Psychiatry, v. 30, p. 1288, 2015.

TAJAN, N. Mental Health and Social Withdrawal in Contemporary Japan. [s.l: s.n.].

YUEN, J. W. M. et al. A Physical Health Profile of Youths Living with a “Hikikomori” Lifestyle. International journal of environmental research and public health, v. 15, n. 2, p. 315, 11 fev. 2018.

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