O mito de Amaterasu e o autocuidado

Amaterasu é a deusa sol da mitologia japonesa, uma das principais kami (divindades) do xintoísmo. O mito de Amaterasu fala, dentre outras questões, sobre o nascimento dos japoneses, mas também pode ser pensado a partir do método de amplificação da psicologia analítica, trazendo aproximações com as questões do autocuidado, autoestima e da autoimagem, tão importantes na constituição de uma pessoa e para a vida em geral.

Kami

A história da origem dos kamis e do próprio Japão é descrito no livro mais sagrado e antigo do país: o Kojiki, publicado pela primeira vez no ano 712 (período Nara). Nele, duas divindades se apresentam (e isso é uma diferença muito importante entre as religiões monoteístas e politeístas): Izanagi (イザナギ) e Izanami (イザナミ), as divindades da criação.

Antes dessas duas deidades supremas existia apenas o caos. De acordo com o shinto, foi graças aos irmãos (e casal) divino que o Japão foi criado. Com o tempo Izanami foi gerando, ou melhor, parindo novos deuses. Porém, ao gerar o kami do fogo Kagutsuchi (カグツチ), Izanami morre com os ferimentos de queimadura durante o parto.

Desolado e sozinho, Izanagi vai procurar por sua amada no mundo dos mortos do shinto, o Yomi (黄泉). Ao encontrá-la, Izanami diz para Izanagi não olhar para ela. Ignorando o alerta de Izanami, Izanagi a olha e vê que sua amada está apodrecida. Nesse momento, chocado com sua visão, Izanagi sai do reino dos mortos e retorna ao mundo dos mortais.

Ao chegar ao mundo dos mortais (Ashihara no Nakatsukuni – 葦原中国), Izanagi foi se purificar no rio Tachibana. Nesse ritual três divindades nascem. A primeira foi a deusa do Sol Amaterasu (天照). Ela nasceu quando Izanagi jogou água em seu olho esquerdo.

Depois surge o deus da Lua Tsukuyomi (ツクヨミ), que nasce quando Izanagi joga água no seu olho direito. Por útlimo veio Susanoo (須佐之男命), deus do mar e das tormentas que surge após o kami derramar água em seu nariz. De acordo com o shinto, Amaterasu, Tsukuyomi e Susanoo são os filhos mais importantes de Izanagi. Além disso, após o nascimento de seus filhos, Izanagi ficou feliz e nomeou Amaterasu como governante do Takamagahara (高天原), a planície celestial.

Amaterasu é, entre outras coisas, essência de luz. Por isso ela é a mais importante, afinal, sua luz é fundamental tanto para Takamagahara, quanto para Ashihara no Nakatsukuni. Quando Susanoo se rebela e causa destruição nas planícies celestes, Amaterasu se assusta e se recolhe em uma caverna.

A Caverna

O recolhimento de Amaterasu mergulha o mundo mortal e o mundo celeste em caos e escuridão gerando uma série de desastres nos dois mundos. Sua ausência causou tantos danos que inúmeros outros kami se reuniram para decidirem o que fazer para fazer a deusa do Sol voltar ao seu lugar. Quando os deuses chegaram a um consenso, Omoikane (思兼), divindade da sabedoria começa um ritual do lado de fora da caverna Ama-no-Iwato onde Amaterasu se refugiou. Para o ritual, Omoikane contou com a ajuda de outras divindades que criaram os tesouros imperiais do Japão: Yata no Kagami, o espelho sagrado, Kusanagi no Tsurugi, a espada sagrada e Yasaka No Magatama, a joia sagrada.

Outros dois deuses fizeram uma espécie de adivinhação com ossos queimados, realizaram orações e prestaram oferendas a deusa do Sol. Depois, Amenouzume (天宇受売命), deusa da alegria começou a dançar enquanto 800 outros kami riam e diziam que existia uma divindade mais poderosa que Amaterasu.

Ao ouvir o deboche dos deuses, Amaterasu duvidou da afirmação. Então, uma outra divindade mostra o espelho sagrado para a deusa do Sol que vê seu reflexo, mas não se reconhece. Quando Amaterasu se aproxima do espelho para ver melhor, outro kami a puxa para fora da caverna e a luz é devolvida ao universo.

Eis o mito de Amaterasu, em que a luz é devolvida ao universo. Alguns aspectos simbólicos são importantes para a análise do mito, que seguirá através da ótica da psicologia analítica, criada por Carl Gustav Jung.

Iluminando arquétipos

Para Jung, os deuses e divindades funcionam como arquétipos. O postulado sobre arquétipos é uma das bases da teoria junguiana. O arquétipo fala sobre o arcabouço de experiências da humanidade sobre um dado tema, por exemplo: Todos, independente do lugar físico, ou do momento histórico, sabem o que é mãe, pai, entre outros. O colorido da experiência individual é quem dá formatação pessoal para o arquétipo, ao mesmo tempo existe uma camada coletiva, da humanidade, sobre a experiência com dado tema. O arquétipo é, ao mesmo tempo, individual e coletivo. Sobre a questão do arquétipo, RAMOS (2002) afirma:

“Os arquétipos são núcleos instintivos passados de forma psicobiológica de geração a geração (a gênese do inconsciente coletivo é, portanto, apriori ao nascimento. A criança já nasce com ele). Trazem padrões de comportamento herdados da humanidade desde seu surgimento.”

Os deuses e as temáticas míticas trazem, portanto temas arquetípicos, pois tocam em lugares constitutivos da alma (psique) humana. Nas alegorias míticas e dos contos de fadas percebemos temáticas como o amor, a dor, a morte e outras, A mitologia e a psique se relacionam desde os primórdios da humanidade, o mito surge como expressão da visão de mundo e de homem.

A partir destas definições, vai se tornando evidente a relação entre mitos e arquétipos, pois os mitos nada mais são do que uma forma de expressão dos arquétipos, falando daquilo que é comum aos homens de todas as épocas, porque falam dos valores eternos da condição humana. Ainda sobre a questão, MELLO E MERCADANTE (2016):

“Os mitos se referem às realidades arquetípicas, isto é, a situações com que todo o ser humano se depara ao longo da vida, e vão além ao explicar, auxiliar e promover as transformações psíquicas, tanto no nível individual como no coletivo, de certa cultura. Toda a mitologia se torna, assim, uma forma de tomada de consciência, um elemento para nos identificar. Existem mitos universais e os de cada cultura, mitos iguais para todas as épocas, com novas roupagens, porque o que é arquetípico é o tema e a partir deste tema podem surgir novas formas de colocação.”

Há importantes símbolos no mito em questão, que devem ser pensados sobre o mito de Amaterasu. Primeiramente, a figura do sol, nas mitologias, geralmente é colocada como um atributo referente ao masculino e a figura da lua, um atributo referente ao feminino. Para a psicologia analítica, a mulher possui uma contraparte interna inconsciente masculina, chamada de animus e o homem possui uma contraparte interna e inconsciente feminina, chamada de anima.

Autocuidado

A deusa sol pode ser pensada como luz para aspectos importantes do feminino que necessitam de integração para a consciência. O mito mostra sobre como Amaterasu, após uma situação com o seu irmão, se retirou para uma caverna e lá se isolou.

O fato de entrar na caverna e se retirar mostra, de maneira simbólica, momentos como o da depressão, em que a energia psíquica disponível se torna menor e o indivíduo pode vivenciar a chamada “noite escura da alma”. Há momentos em que uma necessidade maior de estar em contato consigo mesmo e adentrar a “caverna” se fazem necessários. A psique possui movimentos em que a energia psíquica segue “para frente” em progressão.

Na progressão, percebe-se movimentos do indivíduo rumo ao mundo externo e a adaptação deste com o meio no qual vive. Conquistas, expansões, entre outros, são fenômenos observados na progressão. Já na regressão existe um outro direcionamento da energia, o interno, onde a energia psíquica flui para o inconsciente, tendo aqui maior relevância as necessidades internas, ou seja, é uma adaptação do indivíduo às próprias exigências internas e ao mundo interior.

Entrar para dentro da caverna significa uma jornada em rumo de si mesmo para além das aparências, é em tal momento em que o indivíduo olha para si em profundidade, para além, por exemplo, das exigências sociais e/ou de outros, mas sim um mergulho dentro das profundezas do ser, que envolve responsabilidade e autocuidado.

O autocuidado vai além dos cuidados com estética e imagem, para além de redes sociais, versa sobre questões como: Com quem me relaciono? Quem escolho como parceiro (a)? Como anda a minha saúde financeira? Quais amigos me rodeiam?

O autocuidado ultrapassa a esfera física e chega a lugares psíquicos que podem auxiliar na saúde e bem-estar em geral, tal como na autoestima e no cuidado sobre si mesmo. Olhar para a interioridade é um trabalho constante que envolve empenho, paciência e cuidado, em um “ofício” artesanal, onde o ser é a sua própria obra.

Reflexos Solares

Ainda refletindo sobre o mito de Amaterasu, outro símbolo importante é o do espelho. Agora vamos nos encontrar com toda a Beleza que nos habita? Você se vê bonita(o) ou acredita que para ser bela(o) você precisa ser um(a) modelo (a) ou se encaixar em algum padrão “ideal” de beleza?

Sobretudo, Amaterasu vem auxiliar, enquanto símbolo, abandonar os velhos conceitos e julgamentos sobre o que é belo e nos ajudar a perceber a singularidade, com a ajuda de um espelho, com a sua inteira presença, sem julgamentos e em total estado de permissão para acessar toda a sua beleza.

A deusa e seu mito, além de trazer luz para a natureza externa e interna, pode ser pensada sobre o sagrado dentro de cada um, sagrado também que pode ser pensado como da ordem da intimidade pessoal. Conhecendo-se melhor e desenvolvendo aspectos relativos a autoestima positiva, o indivíduo pode olhar para si em maior profundidade, conhecer melhor e integrar partes inconscientes de si mesmo e se desenvolver, além de ampliar a consciência.

O mito de Amaterasu, embora antigo, se mostra atual e passa através de diferentes momentos históricos, trazendo uma importante reflexão. Mito e símbolos se entrecruzam em uma trama do imaginário da psique, trazendo sua relevância e sua atualidade, tal como um tema de grande relevância. O mito japonês de Amaterasu traz a ideia de que o espelho fazia a Luz Divina sair da caverna e refletir sobre o mundo.

No simbolismo siberiano, os dois grandes espelhos celestes refletem o universo. Na tradição Veda, o espelho é a miragem solar das manifestações; simboliza a sucessão de formas, a duração ilimitada e sempre mutável dos seres. Na literatura islâmica o espelho mágico permite ler o passado, presente e futuro.

A outra face do espelho inspira terror por descortinar nossa verdadeira alma. Nos contos de fada, aparece entre a madrasta e Branca de Neve entre a Bela e a Fera, sempre trazendo em seu reflexo a realidade. É a imagem que denuncia, que revela o que foi negado, desilude, traz o peso da verdade. O espelho coloca o homem de frente para sua face real.

Pode-se considerar a alma como sendo um espelho. Assim, além de um simples reflexo, a alma passa a fazer parte do que se volta para ela. Sendo a alma um espelho perfeito, ela participa da imagem e, com isso, se transforma, existindo, portanto, uma relação entre o sujeito contemplado e o espelho que o contempla. A alma participa da própria beleza à qual ela se abre.

Amaterasu retoma que a própria beleza precisa ser admirada primeiramente pelo próprio indivíduo. A verdadeira beleza vem de dentro, do sol interior. Quando se reconhece a própria beleza, brilha-se tanto que todos percebem e desejam ficar perto.

Eis então uma ligação possível entre o mito de Amaterasu e a questão relativa à autoimagem, autoestima e autocuidado, como grandes auxílios para a constituição de uma pessoa. Retomando, novamente, o mito se reedita ao longo dos tempos e, por ser uma temática arquetípica, trata sobre um tema tão importante da alma humana, que é, ao mesmo tempo, antiga e atual.

Referências Bibliográficas

JUNG, C.G. Obras Completas. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.

MELLO.L.T., MERCADANTE.E.F. Relações contemporâneas entre o envelhecer, a religião e cultura, sob a luz junguiana dentro da mitologia africana. Revista Kairós Gerontologia, v.9, n.4, p.383 – 399, 2016.

RAMOS, L. M. A. Apontamentos sobre a psicologia analítica de Carl Gustav Jung. ETD – Educação Temática Digital, Campinas, SP, v. 4, n. 1, p. 110–144, 2008. DOI: 10.20396/etd.v4i1.616. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/etd/article/view/616. Acesso em: 30 ago. 2021.

Amaterasu: A Mitológica Deusa do Sol no Japão

 

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