O Robin agora é bissexual e a sedução dos inocentes!

Recentemente na DC comics, na edição Batman urban legends #6, Robin se descobre bissexual e isso fez o universo nerd entrar em polvorosa. O Robin em questão é Tim Drake, que também atende pelas alcunhas de Red Robin e Drake.

As acusações de lacração e destruição da infância, doutrinação gayzista, ideologia de gênero e outros discursos de chorume odioso, têm infestado as discussões sobre o assunto e a sexualidade de Drake tem sido utilizada como demérito às suas capacidades. E aqui entra o ponto importante que quero discutir aqui com vocês: A relação íntima entre histórias em quadrinhos e elementos sociais.

Primeiramente, queria começar falando sobre como as HQs representam um recorte apurado e preciso sobre questões sociais, de uma maneira mais ampla, antes de adentrarmos ao problema aqui.

Heróis da Sociedade

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Desde que a narrativa de super-heróis surge como um gênero das histórias em quadrinhos, no ano de 1938, ela se vê muito ligada como reflexo da sociedade. Na verdade, se voltarmos antes mesmo da consolidação do gênero, veremos que isso é algo quase indiscutível.

Autores como Scott McCloud (1995) apontam que talvez as primeiras manifestações do que entendemos como HQs, encontram-se nas pinturas rupestres e podem ser associadas com diversas manifestações ao longo da história humana, desde pinturas, quadros sequenciais ou tapeçarias. RAHDE (1996) citando Gaiarsa nos diz:

“Os acadêmicos […] dizem que os desenhos famosos das cavernas pré-históricas – que foram a primeira história em quadrinhos que já se fez eram um ‘ensaio de controlar magicamente o mundo’. Ora, estes desenhos controlavam […] a realidade e eram mágicos – sem mais”.

O ponto importante é que a arte sequencial sempre foi utilizada para retratar o contexto social. Um homem primitivo não pintaria algo que não fosse, de alguma forma, significativo. Na idade média não se faria uma tapeçaria para algo que não valesse a pena ser contado. E assim, chegamos à idade moderna com as HQs, representando esse papel de serem espelhos que refletem o contexto sócio histórico.

E isso talvez possa parecer distante, mas nem é tanto. Vamos olhar pra 1938, e pro surgimento do Superman. Sabe o que estava rolando em 1938? Já tínhamos um mundo que estava passando por conflitos geopolíticos e econômicos em decorrência de vários eventos que passaram desde o fim da primeira guerra mundial , a quebra da bolsa de Nova York, diversas guerras civis e outros conflitos acontecendo. De maneira geral, a gente pode olhar para 1938 e pensar que talvez houvesse a necessidade, coletiva, de uma figura que servisse como um exemplo a ser seguido. Um farol de esperança que representaria, através do seu emblema da casa de El, um salvador em um mundo tão psicologicamente fragilizado.

Curiosamente, ou não, nesse período as HQs começaram a ser um produto extremamente lucrativo, e foram perdendo gradativamente a associação com o público infantil. Elas passaram a ser uma ótima maneira de reproduzir, consciente e inconscientemente, o mundo real, em seus aspectos mais profundos.

Em 1940, tivemos o Capitão América socando a cara do Hitler, bem na capa da revista pouco antes dos EUA adentrarem a segunda guerra. Em 1942 tivemos a criação da Mulher Maravilha, que trazia um conflito entre ter que abandonar o seu lar na Ilha Paraíso, e lutar num mundo em guerra. Num momento em que as mulheres americanas precisavam sair de casa e ir trabalhar nas fábricas, abandonando toda a tradição que viviam até então.

Nos anos 50, houve um aumento da criminalidade juvenil e os quadrinhos foram os primeiros culpados, afinal de contas quem diria que um mundo devastado no pós guerra teria aumento de criminalidade? Só pode ser culpa das HQs! Guardem aí a década de 50 porque nela ocorreu a criação do código de censura dos quadrinhos, principalmente por conta de um livro publicado em 1954 pelo psiquiatra Fredric Wertham. Esse nome vai voltar à tona quando falarmos mais especificamente da sexualidade do Robin.

Nos anos 60, a luta por direitos civis das minorias se vê refletida em X-men. Nos anos 70, a guerra às drogas tornou-se assunto recorrente. Temos até mesmo o Ricardito, sidekick do Arqueiro verde utilizando heroína na icônica capa de Green Lantern Green Arrow #85

Nos anos 80, a desconstrução da imagem do herói perfeito vem com obras como Cavaleiro das Trevas e Watchmen, num momento de profunda desigualdade social e que se estende ao longo de toda década de 90. Nos anos 2000, atentados terroristas, inclusive 11 de Setembro, estiveram nas páginas das HQs.

Eu poderia citar inúmeros exemplos aqui, mas o importante, caso não tenha ficado claro ainda, é que as HQs refletem o contexto social. Não são como muitos talvez acreditem, um descolamento da realidade ou uma linda fuga ao mundo da imaginação. E aí, caso você ainda não tenha percebido e tá aí com cara de meme do Pikachu surpreso, HQs são reflexos sociais.

Eu falei aqui das narrativas do gênero de super-herói, mas isso se aplica a praticamente qualquer gênero, pois o autor não é um sujeito alienígena. Ele estará inserido em um contexto sócio histórico, envolto em um Zeitgeist (espírito da época) que pode ser simplificado aqui como um movimento social que norteia, impulsiona e direciona produções científicas, artísticas e etc dentro dos momentos históricos. Depois de todo esse rolê pelo túnel do tempo, vamos ao que interessa.

A Caverna do Batman

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Polêmicas envolvendo a sexualidade da dupla dinâmica, não são novidade. Lembra do Wertham que eu citei? Então, ele era um psiquiatra que trabalhava numa clínica que atendia a jovens e adultos e tem um livro chamado “A sedução dos inocentes”, publicado em 1954. Dentre as muitas afirmações estapafúrdias do Wertham, como: “Mulher Maravilha induz ao sadomasoquismo e lesbianismo”, “Capitão Marvel (SHAZAM!) pode levar a tendências violentas e desejos de decapitação”, “Besouro Azul é como Kafka para crianças e provoca pesadelos” e mais uma dezena de falácias que não se sustentam em dados clínicos para comprovar a quantidade de coisas que ele alegava, no meio disso tudo aí, havia uma menção a Batman e Robin como sendo responsáveis por provocar desejos e pensamentos homossexuais. O autor propôs que “homens homossexuais se identificam fortemente com os quadrinhos do Batman, por conta da camaradagem entre o super-herói e seu jovem ajudante”. “Batman e Robin oferecem ao leitor a realização do desejo de dois homossexuais vivendo juntos”. Ou “Como muitas outras crianças inclinadas homo-eroticamente, ele possuía uma devoção especial pelo Batman”.

Os escritos de Wertham possuem todos os problemas éticos que se pode pensar no sentido de qualquer produção científica. Eles não tinham o mínimo de rigor. Wertham, misturava a fala de diversos pacientes para chegar ao texto final produzido, além de ocultar e distorcer partes das falas para favorecer aquilo que pretendia mostrar. A coleta dos dados era imprecisa, o depoimento de Wertham ao senado dizia que ele havia atendido mais de 500 crianças e jovens por ano, mas entre 1946 e 1956, 500 era o número total de jovens que haviam sido atendidos na clínica.

Muitos dos relatos que Wertham traz, na verdade, eram sobre crianças e jovens aos quais ele nem mesmo atendeu, mas formulou algo através de uma narrativa contada por outra pessoa, além de vários outros problemas.

Wertham, refletia a busca por um culpado para o comportamento da juventude, um comportamento que nem sempre estava adequado aos padrões e normas sociais. O que ele fez foi tentar retirar toda a responsabilidade do contexto sociocultural, orgânico, subjetivo entre outras possibilidades e aventar que as HQs eram o demônio a ser exorcizado. Para Wertham, a leitura das HQs representava uma ameaça social e cultural.

Normalmente, eu não me permito ler um autor de forma descontextualizada de seu tempo e sugiro que você leitor, faça o mesmo. Afinal, ser anacrônico é um erro que dificulta muito o entendimento do que está sendo posto ali, só que Wertham, acaba sendo tão atual hoje, quanto em 1954. Mas antes de prosseguir eu gostaria de indicar, além da leitura do próprio livro “A sedução dos inocentes”, a leitura do artigo da Carol Tiley “Seducing the innocent: Fredric Wertham and the falsifications that helped condemn comics”, que é bastante completo sobre muitas das falhas éticas e falsificações cometidas por Wertham.

Mas o fato é que esse espírito de Wertham ainda ronda por aí, protegido pela capa do bem estar e cuidado com as crianças e sua saúde psicológica. E assim como Wertham, esses sujeitos estão munidos de nada além das suas crenças, constructos e preconceitos pessoais. Muitos dos conteúdos que aparecem sobre essa bravata, muito possivelmente são elementos mal trabalhados, que se projetam no discurso.

Jung (2012) coloca que “Vemos aquilo que melhor podemos a partir de nós mesmos” e o que Jung tem a ver com isso tudo? Explicarei brevemente. Quando Jung fala essa frase que coloquei aí em cima ele tá falando de uma equação pessoal. Essa equação, é a maneira que nos faz lidar com o mundo do jeito que lidamos, percebendo as coisas como percebemos, dando mais importância pra algumas coisas e ignorando outras. A nossa equação pessoal, é a somatória de tudo que aconteceu conosco, gente, e atravessa a maneira como lidamos com a realidade. Ela quem vai determinar, inclusive, que tipo de conteúdo você vai reprimir e que tipo de conteúdo você vai projetar.

Entendeu agora qual é o ponto de ligação entre Jung e a maneira como se vê a sexualidade do Robin como ameaça? O ponto é que tem algo na equação pessoal daquele sujeito que se reflete na maneira como ele vê o personagem, e aí o personagem, possivelmente, é uma ameaça pra ele, ou esse conteúdo, que ele tem e não pra uma criança hipotética, que precisa ter sua infância preservada.

Algo na narrativa desse personagem ecoa no sujeito e desperta esse tipo de resposta. E eu não quero aqui recorrer a apontamentos de questões sexuais frustradas ou mal trabalhadas em quem tem esse tipo de visão, pois seria leviano já que não necessariamente precisaria ter relação com esse conteúdo específico pro sujeito se incomodar com isso. Mas, o fato é que é muito mais fácil projetarmos as coisas que não lidamos bem na gente, e nos incomodam, pois reconhecer no outro dá muito menos trabalho do que admitir qualquer coisa internamente.

De Robin para Robin

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Tim Drake, tá longe de ser o melhor Robin, esse posto pra mim, sempre vai ser do Dick Grayson. Mas Tim é, sem dúvidas, o que mais se aproxima da genialidade de Bruce Wayne, por exemplo. Ele certamente foi um dos melhores líderes que os Titãs tiveram, foi um ótimo amigo pro Superboy, foi um ótimo namorado pra Stephanie Brown enquanto estiveram juntos, mas parece que nada disso importa mais, agora que ele se descobre bi.

O romance dele com a Spoiler, inclusive, acaba sendo apontado como a justificativa perfeita para que ele não possa ser bi. Afinal, teve um longo relacionamento com muito amor envolvido e uma relação de parceria muito profunda. O quanto isso é absurdo e descaracteriza tudo que eles viveram.

O que parece faltar a quem tece esse tipo de crítica é perceber que aquilo que vem acontecendo com Drake é nada mais nada menos do que um reflexo do mundo real. As pessoas podem e vivem experiências amorosas significativas, antes de se perceberem bissexuais, ou até homossexuais, pois aqui vai entrar um caráter muito subjetivo de como essas experiências foram vividas por aquele sujeito. Alguns podem estar inclusive se forçando a relacionamentos héteros, justamente porque não querem enfrentar o preconceito que pessoas como essas que destilam esse discurso de “sedução dos inocentes” apresentam.

Essas pessoas querem evitar que as crianças se tornem gays, justamente pois sabem que existem pessoas como elas no mundo, que são intolerantes e preconceituosas, pois se não houvesse esse tipo de pessoa, qual seria o problema de ser gay ou qualquer outra manifestação da sexualidade?

Quando eu disse que às vezes há elementos de quem tece esse discurso se projetando, eu falava essencialmente disso. Tim Drake é um Batman tão bom quanto Bruce Wayne, e quando se questiona a sua sexualidade como demérito, o discurso que esta implícito aí é de que qualquer outra manifestação de sexualidade, que não seja heterossexual, está fadada a não atingir feitos incríveis.

Assim como o Wertham, eu estudo se de fato existem elementos psicológicos que se projetam nessa relação com personagens de ficção. E de fato isso existe. Mas essa relação se dá num nível muito menos obscuro, do que ele propunha e precisa ser levada em conta sempre no nível pessoal. Aspectos coletivos aparecem em alguns elementos arquetípicos que tais figuras representam, como por exemplo o Superman trazer elementos dos mitos solares, ou o Batman trazer elementos de uma sombra coletiva da cidade de Gotham.

Mas quando se trata do sujeito individual, o que importa mais é a relação que ele tem com essa figura heroica, na maneira como essa narrativa se constrói e não nas projeções escusas e fantasiosas de quem quer que tente interpretar isso. Não se pode agir como Wertham e dizer que de maneira subliminar Batman e Robin representam um casal gay e por isso quem se identifica com eles tem um caráter gay também. Essas interpretações obscuras só se tornam obscuras porque são nitidamente aspectos do inconsciente de quem as vê assim, tentando projetá-los sobre os outros.

As possibilidades de interpretação real de como essas narrativas pode exercem “algum grau de influência”, na verdade, são bastante claras e convém observar esses fenômenos da maneira como se observam mitos ou contos de fada, em sua estrutura simbólica e organização e não apenas em palpites, ou observações pouco criteriosas.

Esse discurso ecoa desde 1954 com “A sedução dos inocentes”, e de vez em sempre ganha um pouco mais de volume. Há alguns anos, em 2012, tivemos um caso semelhante quando o Lanterna Verde original, Alan Scott, se assumiu gay, mesmo tendo sido casado e tendo filhos. Ou quando o Estrela Polar, que já era assumidamente gay, se casou.

Pessoas gays ou bi já existem no mundo desde antes dos quadrinhos existirem, e se eles acabarem essas pessoas também continuarão existindo. Os quadrinhos, enquanto representação da sociedade, precisam refletir esses aspectos. Embora seja uma forma de diversão, eles são também uma maneira de se perceber o mundo à sua volta. Ninguém se torna gay, hétero ou bi simplesmente por uma influência de uma revistinha.

Quem acompanha Titãs sabe que já houve indícios de que, possivelmente, Tim Drake e Connor Kent, o Superboy, pudessem ter algum tipo de sentimento romântico além da amizade, isso lá por 2003 e 2004. Demoraram 17 anos para que, talvez, Drake pudesse se permitir viver algo relacionado a sua sexualidade de maneira a corresponder o que de fato fazia sentido para ele. Se isso não é ser uma representação precisa de como as HQs são espelhos sociais e de que muitas pessoas, assim como o Drake, precisam de um mundo mais acolhedor para manifestarem sua sexualidade, eu posso desistir de toda minha pesquisa com Psicologia e HQs.

A Sedução dos “inocentes”

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Boa parte da comunidade nerd e geek, talvez só veja mesmo as figuras e não consiga entender a dimensão dessas obras e como a representatividade nelas não é nada além do mundo real. E se elas conseguissem entender que o problema não está na sexualidade de personagem, por qualquer que seja, mas no preconceito que ela projeta, já dava uma melhorada boa.

A “sedução dos inocentes” não é real e não pode causar mal algum. Agora, essa necessidade de manter um paraíso da infância intacto, se incomodar com sexualidade de personagem que nem existe, e não conseguir enxergar o mundo além do próprio umbigo, isso sim pode ser prejudicial!

Referências Bibliográficas

JUNG.C.G .Tipos psicológicos. In: Obras Completas de C. G. Jung, vol. VI. Petrópolis: Vozes, 2011e. (Original publicado em 1921).

MCCLOUD, Scott. Desvendando os quadrinhos. São Paulo: Makron Books, 1995

RAHDE, Maria Beatriz. Origens e evolução da história em quadrinhos. Revista Famecos, v. 3, n. 5, p. 103-106, 1996. Disponível em <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/view/2954/ >

Tilley, C. (2012). Seducing the Innocent: Fredric Wertham and the Falsifications That Helped Condemn Comics. Information & Culture, 47(4), 383-413. Retrieved August 18, 2021, from http://www.jstor.org/stable/43737440

Wertham, Fredric, Seduction of the innocent.New York : Rinehart, ©1954 (OCoLC)647379585

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