Pane no sistema: medo e congelamento nos animes

Luta, Fuga e Congelamento

Medo não é uma coisa ruim de sentir… é uma habilidade essencial que te deixa sentir que sua vida está em perigo.”

Superbia Squalo (スペルビ・スクアーロ) Katekyo Hitman Reborn.

O medo é uma emoção expressa pela percepção ou reconhecimento de algo que pode representar um perigo ou ameaça. Em relação ao tempo, este “algo” pode ser relacionado a eventos presentes ou a uma antecipação de um acontecimento futuro. Além disso, o medo pode ter uma origem inata — isto é, algo inerente à natureza humana — ou estar ligado a algo aprendido. Ele é responsável por gerar diversas mudanças no nosso corpo, inclusive alterar o nosso comportamento. Podemos encarar a fonte de nosso medo de diferentes formas: agressivamente, fugindo da ameaça ou até mesmo ficando paralisados — essa última atitude costuma acontecer em casos de terror extremo!

Antigamente, achava-se que esse fenômeno de paralisia — também conhecido como comportamento de congelamento, resposta de congelamento ou petrificação — ocorria apenas em algumas espécies, principalmente em presas; hoje, no entanto, já se sabe que nós seres humanos também possuímos essa resposta! Ele pode vir à tona em resposta a diversos estímulos, como objetos, sons ou qualquer outra coisa que esteja associada a um medo extremo, levando a alterações na pressão, períodos de tempo em posição fixa, aumento dos batimentos cardíacos, suor e sensação de falta de ar. Portanto, um novo personagem entra na antiga frase de “Luta ou fuga”, que se torna “Luta ou fuga ou congelamento”. Esse congelamento pode ocorrer antes ou depois dessa resposta de luta ou fuga. Estas considerações, no entanto, estão ligadas ao medo racional, que difere do irracional, que caracteriza as fobias e são um pouco mais complexas — embora a resposta seja a mesma. 

Medo, Animes e Mangás

Há diversos casos de congelamento em animes, mangás e webnovels. O medo e as reações a ele são temas comumente encontrados nas obras japonesas. Por exemplo, o chamado sakki (殺気), que pode ser traduzido como “intenção assassina” ou “sede de sangue” é frequentemente exalado por vilões ou personagens dominados pela raiva, e muitas vezes é capaz de paralisar oponentes. Antagonistas de alguns animes e mangás, como Orochimaru (大蛇丸) e Zabuza Momochi (桃地再不斬) em Naruto (NARUTO -ナルト-) e Stain (ステイン) em Boku no Hero Academia (僕のヒーローアカデミア) mostram intenções assassinas tão formidáveis que impactam mesmo adversários habilidosos ou os próprios protagonistas das séries. Mas como os heróis de diversos títulos, tão corajosos, sentem medo?

Para se sobreviver num mundo implacável e permeado por poderes fantásticos, como nos shounen, o medo é uma ferramenta mais do que necessária! Além disso, por estar intimamente relacionado à ansiedade emocional, o medo serve à sobrevivência ao gerar respostas comportamentais apropriadas para situações de risco. Portanto, foi preservado ao longo da nossa evolução. Assim, podemos concluir que, surpreendentemente, o medo não é antagônico à coragem! Por definição, a coragem é a disposição de enfrentar as adversidades mesmo quando temos medo; é ele, então, a condição que torna possível sermos corajosos; ou, em alguns casos, perdermos a nossa vida (ops!)! Veja a seguir alguns exemplos!

Figura 1: Mami Tomoe (巴 マミ) paralisada frente a uma situação aterrorizante e irracional em Puella Magi Madoka Magica (魔法少女まどか☆マギカ). Imagem / Reprodução
Figura 2: No anime Naruto Shippuden (ナルト疾風伝) ainda jovem Kakashi Hatake (はたけカカシ), considerado um ninja prodígio, experimenta o medo ao se deparar com Orochimaru (大蛇丸), um ninja lendário com um poder capaz de aterrorizar nações inteiras. Imagem / Reprodução
Figura 3: No anime Hunter x Hunter (ハンター×ハンター), o poderoso Meruem (メルエム) sente medo pela primeira vez em sua vida. Imagem / Reprodução

Co-autor do artigo: André Almo

Referências

BRACHA, H. S. Human brain evolution and the “Neuroevolutionary Time-depth Principle:” Implications for the Reclassification of fear-circuitry-related traits in DSM-V and for studying resilience to warzone-related posttraumatic stress disorder. Progress in Neuro-Psychopharmacology and Biological Psychiatry, v. 30, n. 5, p. 827–853, 1 jul. 2006.

OLSSON, A.; PHELPS, E. A. Social learning of fear. Nature Neuroscience 2007 10:9, v. 10, n. 9, p. 1095–1102, 28 ago. 2007.

ROELOFS, K. Freeze for action: neurobiological mechanisms in animal and human freezing. Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, v. 372, n. 1718, 19 abr. 2017.

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