Planetes e a saúde mental no espaço

Como a obra “Planetes” trata do tema da saúde mental dos astronautas?

A exploração espacial vem sendo abordada como um tema na ficção científica há muito tempo. A humanidade sonhou com as estrelas e os astros por milhares de anos. Conhecemos mais a lua ou Marte do que nosso próprio oceano[1], além de usar conhecimentos de astronomia até mesmo para definir a passagem do tempo. No passado e no futuro, o espaço sideral sempre está presente de uma maneira ou de outra.

Uma das obras que retrata este sonho humano é a série Planetes (プラネテス), criada por Makoto Yukimura, que conta com um mangá — serializado entre 1999 e 2004 — e a sua adaptação para anime — exibido entre 2003 e 2004 — ambos ganhadores do prêmio Seiun de melhor série de ficção [2]. Esta série se destaca pelo seu realismo, principalmente em retratar o espaço e suas propriedades físicas: essa abordagem mais técnica e fidedigna é conhecida como um tipo específico de ficção científica, o “Hard Sci-Fi“. Além disso, a obra apresenta uma vasta crítica social, ambiental, geopolítica e multicultural, essa última não tão comum em mídias japonesas. Desta vez, no entanto, limitaremos nossa análise aos elementos humanos! Falaremos especificamente sobre os efeitos psicológicos das viagens ao espaço, a fronteira final encontrada pelos seres humanos, e suas representações em Planetes.

Em um primeiro momento, podemos definir duas situações distintas: viagens espaciais de curta duração e de longa duração; essa última, em especial, teria efeitos mais drásticos. Para fazermos este diálogo iremos discutir SPOILERS dos episódios/capítulos do anime/mangá, então sigam por sua conta e risco!

Um dos grandes pontos de interseção entre as duas iterações da obra é a inovadora viagem para Júpiter, uma longa jornada com uma pequena tripulação, que se torna o objetivo e foco principal do protagonista (Hoshino Hachirōta, apelidado de “Hachimaki” devido à bandana que utiliza). Esta empreitada demoraria em torno de 7 anos ou 2500 dias, mais do que 5 vezes o tempo previsto para uma viagem tripulada para Marte (440 dias). Curiosamente, essa mesma viagem para Marte era um sonho impensável no início do milênio mas não tão distante de nossa realidade atual.

Em nosso mundo não ficcional, simulações controladas foram realizadas para mimetizar o tempo dessa ida até Marte [3,4,5] e muitas reações humanas são semelhantes àquelas mostradas durante a história de Planetes. Alguns comportamentos defensivos e de pensamento em grupo, como valores parecidos e relutância de expressar sentimentos interpessoais negativos, foram observados na tripulação que fazia parte de simulações de uma viagem a Marte. Adicionalmente, foi observado um aumento nos sentimentos de solidão e de falta de suporte dos seus pares, afetando cognitivamente esses tripulantes [8].

Correlacionando com a obra, ambas as mídias representam experiências traumáticas de Hachimaki; dentre elas, podemos destacar o trauma que sofre numa de suas missões como um coletor de sucata. Ele perde sua conexão com a nave, ficando à deriva no espaço por algum tempo. Durante o acontecimento, Hachirōta se desespera, mas é resgatado em seguida, e após alguns exames no hospital instalado na cidade humana na lua, tudo parece correr bem. No entanto, o último deles, envolvendo o uso de uma câmara de privação sensorial, mostra que o protagonista não saiu ileso. Ao ser isolado e ter seus sentidos silenciados por certo tempo, o jovem trabalhador tem diversos sintomas fisiológicos distintos: sua respiração e batimentos cardíacos se aceleram e ele passa a ter alucinações de si mesmo e de como o trauma é uma desculpa perfeita para ele não atingir seus objetivos, que o fazem ser suspenso do trabalho e ficar sob observação. O jovem teme perder sua licença de trabalho e ser afastado do espaço, o que pode acontecer caso não passe nos testes de aptidão após seu tratamento. Após essa interseção é necessário separar as obras, pois elas possuem abordagens distintas para o tema.

O mangá tem uma abordagem muito mais íntima, no qual o protagonista entra em uma profunda crise existencial decorrente deste incidente, inicialmente superado após tocar em uma das turbinas da nave que levará a humanidade na primeira viagem tripulada a Júpiter; seu objetivo de vida passa a ser integrar a equipe e auxiliar a empreitada. Contudo, diversos outros eventos se desencadeiam e acabam promovendo condições como a depressão, insônia, isolamento prolongado, sentimentos de solidão, falta de propósito e sentido da vida, o que é a realidade. Por fim, isso é somado ao sentimento de grande complexidade do universo. Diferente do estado fisiológico alterado inicialmente, começamos a observar uma deterioração da condição psicológica, com esses temas muito bem abordados e representados no estado mental do protagonista. O mangá foca na deterioração, assim como na recuperação e recapacitação de Hachimaki. Esse caminho percorrido acaba por abordar as quatro formas de lidar com a crise existencial, de acordo com o filósofo Peter Wessel Zapffe [6]: o (1) isolamento, (2) ancoragem, (3) distração e a (4) sublimação. Respectivamente, nessa iteração da obra é possível observar isso no (1) solitário acampamento lunar, na recuperação inicial (2) tocando a turbina do novo foguete e vislumbrando um novo objetivo, na (3) pornografia dada a ele como presente de seus amigos, e por fim, quando ele se recupera e declara (4) “Eu não estou mais sozinho… e por isso eu irei sobreviver”.

No anime, a experiência de Hachimaki é majoritariamente decorrente do trauma que sofre nessa missão. Nesta iteração, a abordagem é muito mais neurofisiológica: durante o exame na câmara de privação sensorial, a direção das cenas foca no desespero sentido pelo personagem, as alterações em sua respiração e batimentos cardíacos, além das alucinações em que Hachimaki enxerga a si mesmo. O trauma é superado da mesma forma do mangá, por uma estratégia de ancoragem: a visita ao local de construção do motor da nave que fará a primeira viagem tripulada a Júpiter faz com que seu objetivo de vida seja integrar a equipe e fazer parte da história humana. A partir daí, o anime reforça os temas geopolíticos da narrativa, dando pouca atenção aos questionamentos e momentos introspectivos vividos pelo protagonista no mangá. Sua nova motivação, no entanto, cria conflitos externos: para embarcar numa viagem arriscada que duraria sete anos, o personagem precisa fazer concessões, abandonando seu emprego e cortando seus relacionamentos para alcançar seus objetivos. Suas ações se tornam bem mais frias do que as de sua versão do mangá, e as alucinações de si mesmo são recorrentes, servindo como um cruel lembrete de seu trauma passado e desafiando suas novas motivações.

E na vida real? Quais são os atributos necessários aos candidatos à vanguarda da exploração espacial, e como essa atividade os afeta?

Imagem/Divulgação: A esquerda Hachirota Hoshino de Planetes, a direita o traje de um astronauta

Para ser um astronauta, é preciso cumprir diversos critérios: ter um diploma de ensino superior, experiência na área científica, aptidão física e passar por uma avaliação psicológica. Comumente, candidatos com transtornos psiquiátricos são reprovados. A avaliação psicológica inclui entrevistas, testes com psiquiatras e exercícios de campo que simulam alguns dos possíveis desafios encontrados fora da Terra. Em geral, são procurados candidatos qualificados, resilientes e com boas habilidades sociais. Afinal, são escolhidos para missões arriscadas e isoladas na imensidão fria do espaço: os profissionais ficarão distantes de suas famílias, cônjuges e amigos, além de serem privados de sensações comuns do cotidiano [7].

É claro, existem diferenças entre os processos seletivos dos diferentes programas espaciais existentes. Por fim, a seleção costuma levar cerca de 2 anos, e um astronauta recém-selecionado pode levar até 10 anos para realizar sua primeira viagem espacial [7]!

As viagens espaciais de mais longa duração têm impactos fisiológicos e comportamentais sobre os tripulantes, sendo o elemento humano a variável mais complexa da exploração espacial. Durante os voos extensos, podem se desenvolver problemas psicológicos como distúrbios do sono, transtornos de humor e energia reduzida, além de problemas interpessoais que atrapalham o trabalho em equipe; mesmo os trabalhadores mais bem preparados e motivados podem encontrar problemas ao confrontarem a “fronteira final” [8].

Co-autor do artigo:  Vladimir Pedro

Referências

[1] NASA – Oceans: The Great Unknown. [s.d.]. Disponível em: https://www.nasa.gov/audience/forstudents/5-8/features/oceans-the-great-unknown-58.html. Acesso em: 23 fev. 2021.

[2] 日本SFファングループ連合会議:星雲賞リスト. [s.d.]. Disponível em: http://www.sf-fan.gr.jp/awards/list.html. Acesso em: 23 fev. 2021.

[3] Gushin, V., Shved, D., Ehmann, B., Balazss, L., Komarevtsev, S. (2012). Crew-MC interactions during communication delay in Mars-500. Paper # IAC-12-A1.1.2. International Astronautical Federation. Proceedings, 63rd International Astronautical Congress, Naples, Italy, 1–5 October 2012.

[4] Sandal, G.M. (2012). “Groupthink” on a mission to Mars: Results from a 520 days space simulation study. Paper # IAC-12-A1.1.3. International Astronautical Federation. Proceedings, 63rd International Astronautical Congress, Naples, Italy, 1–5 October 2012.

[5] Van Baarsen, B., Ferlazzo, F., Ferravante, D., Smit, J., van der Pligt, J., van Duijn, M, (2012). The effects of extreme isolation on loneliness and cognitive control processes: Analyses of the Lodgead data obtained during the Mars105 and the Mars520 studies. Paper # IAC-12-A1.1.4. International Astronautical Federation. Proceedings, 63rd International Astronautical Congress, Naples, Italy, 1–5 October 2012.

[6] The Last Messiah | Issue 45 | Philosophy Now. [s.d.]. Disponível em: https://philosophynow.org/issues/45/The_Last_Messiah. Acesso em: 23 fev. 2021.

[7] The Right (Mental) Stuff: NASA Astronaut Psychology Revealed | Space. [s.d.]. Disponível em: https://www.space.com/26799-nasa-astronauts-psychological-evaluation.html. Acesso em: 23 fev. 2021.

[8] SEEDHOUSE, Erik. Astronaut selection and medical requirements. In: Lunar Outpost. [s.l.] : Praxis, 2009. p. 151–182. DOI: 10.1007/978-0-387-09747-3_6.

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Comentários

  1. Parabéns pelo trabalho! Muito interessante perceber com essa leitura que na narrativa desse animê e mangá, mesmo quando o personagem está isolado, as questões sociais ainda estão presentes. Como a questão de precisar do reconhecimento do outro para construir um sentido de vida.