Por que a imagem do herói nos fascina tanto?

Eu quero começar minhas contribuições aqui no Minuto Otaku falando, fundamentalmente, sobre o Herói,  que está presente em boa parte das narrativas da história da humanidade. Como ela ganha essa característica de nos capturar e fascinar? Para isso, é preciso, invariavelmente, falar sobre um termo fundamental da Psicologia Analítica, que é o Arquétipo. Eu tentarei ser o mais simples possível para facilitar esse entendimento. E é importante  dizer, que esse texto vai servir de base pra textos futuros aqui no portal.

O que é um Arquétipo?

Imagem/Divulgação: Midoriya Izuku/ All Might – My Hero Academia

De maneira breve, podemos pensar o Arquétipo como uma potencialidade de interpretar e se relacionar com um símbolo de maneira minimamente semelhante. O Arquétipo, em si mesmo, é algo inatingível pois ele não existe, só o que temos acesso são as imagens arquetípicas. Mas o que isso representa na prática? Isso é o que torna o arquétipo algo suprapessoal, ou coletivo.

Quando a gente se depara com alguma obra de arte, mito, narrativa fantástica ou qualquer coisa nessa vibe, estamos lidando com essa potência de interpretar e se relacionar com aqueles símbolos, e isso parte de duas premissas: a pessoal, que vai falar da sua vida e das suas experiências e a impessoal, ou coletiva, que seria o Arquétipo.

E aí, esse arquétipo sem forma definida, mas com algumas características que se repetem e se organizam de maneira semelhante. Pensa aí na figura do herói. Você vai, muito possivelmente, associar ela a algumas imagens inicialmente, certo? Agora expande isso, retira as imagens e tenta achar elementos semelhantes entre essas figuras que você imaginou. Existirão muitos elementos que são comuns a todos os “heróis” que você imaginou, mas também existirão diferenças e isso acontece pois o “Arquétipo” é apenas essa organização de elementos. Quando a gente lida com um personagem, seja lá onde for, ele é apenas uma parcela de representação do Arquétipo e não o Arquétipo em si. Tudo o que temos acesso são as imagens arquetípicas.

Sabe um bom exemplo para simplificar e pensar isso? As classificações da Biologia, quando você fala de um crustáceo ou um mamífero, você não está falando de uma coisa em si, mas de uma “etiqueta”, que reúne algumas características em comum e te ajuda a entender do que se trata aquela classificação. De maneira didática e simples, vamos pensar o Arquétipo como essa etiqueta. Mas vou deixar uma definição aqui da Marie Louise Von Franz sobre o tema.

Os arquétipos são “(…) estruturas inatas e implícitas, que sempre e em toda parte produzem pensamentos, imagens, sentimentos e emoções semelhantes no homem, paralelamente aos instintos, aos nossos impulsos específicos para a ação.” Von FRANZ (1997, p.29).

E pra não me alongar em uma explicação sobre estrutura psicológica e dinâmica das estruturas, que posso falar em outro momento, já que seria um ponto importante pra todo mundo que se dispõe a pensar na ótica junguiana, vamos seguir a premissa de que o aparelho psíquico é constituído por consciência e inconsciente, sendo que esse inconsciente possui aspectos pessoais/individuais e suprapessoais/coletivos. Conforme expressa von FRANZ (2001, p.37): “O inconsciente é tudo aquilo que sabemos ser ‘psiquicamente real’, mas que não é consciente”.

O Arquétipo tem sempre uma capacidade de se relacionar com alguns aspectos tanto da sua consciência quanto do seu inconsciente pessoal, quando você entra em contato com ele, e o que vai nos interessar aqui é como isso ocorre no caso do Herói. Mas antes de seguir, deixa só frisar um aspecto que é bastante importante em termos técnicos, pois quando temos uma representação arquetípica “encarnada” num fenômeno artístico ou religioso, o termo mais adequado seria de representações coletivas (representations collectives), pois estamos diante do que Jung chama de figuras ditas arquetípicas, mas isso pode ser uma diferenciação para outra hora, a quem interessar, essa discussão se encontra bem aprofundada no vol. 8/2 “ A natureza da Psique”.

Sobre a figura do Herói

Imagem/Divulgação: Monkey D. Luffy – One Piece

Voltando ao que interessa, se você pesquisar a definição de herói no Google, vai chegar a definição do dicionário Oxford Languages que é a seguinte:

1-MITOLOGIA filho de um deus ou uma deusa com um ser humano; semideus.

2-MITOLOGIA mortal divinizado após sua morte; semideus.

3-POR EXTENSÃO indivíduo notabilizado por suas realizações, seus feitos guerreiros, coragem, abnegação, magnanimidade etc.

4-POR EXTENSÃO indivíduo capaz de suportar exemplarmente uma sorte incomum (p.ex., infortúnios, sofrimentos) ou que arrisca a vida pelo dever ou em benefício de outrem.

5-POR EXTENSÃO figura central (de um acontecimento, um período). “os h. da Revolução Francesa”

6-POR EXTENSÃO pessoa que se distingue ou é centro de atenções. “o h. da festa”

7-POR EXTENSÃO principal personagem de uma obra de literatura, dramaturgia, cinema etc.

8-INFORMAL indivíduo que desperta enorme admiração; ídolo.

Origem ⊙ ETIM gr. hḗrōs,ōos ‘chefe, nobre; semideus; herói; mortal elevado à classe dos semideuses’.

Por essa definição, a gente já começa a entender o porquê de serem possíveis tantas representações diversas para a figura do herói, mas que ainda sim possua alguns elementos centrais que sejam comuns a elas. Mas vamos nos aprofundar um pouco mais para entender como isso se relaciona com o tema deste artigo. Um herói, é em dada medida um representativo pra vida, mesmo que isso ocorra de maneira fantástica. E isso se dá fundamentalmente pelo fato de mesmo, que não estejamos cientes, nós somos os heróis da nossa própria jornada, e o que a gente faz quando se identifica como narrativas heróicas é buscar maneiras de lidar com a nossa construção de sujeito. E isso não é um papo de coach sem sentido ou uma fantasia infantil. Para por um segundo e pensa na sua vida.

Ela pressupõe toda uma trajetória com diversos desafios e tretas que você enfrenta, tem momentos de glória, momentos de sofrimento, momentos que você supera obstáculos, momentos que você tá com a cara na lama. A única diferença disso pra uma narrativa fantástica é que uma tem origem no mundo real, e a outra na imaginação, ou seja no inconsciente. E é justamente o fato de as narrativas fantásticas terem origem no inconsciente que faz com que a gente consiga projetar se relacionar com elas de maneira a encontrar elementos que nos auxiliem na nossa própria jornada. E é aí, que o Arquétipo entra, no nosso caso aqui, fundamentalmente o Herói, pois ele vai ter o potencial simbólico de te auxiliar nessa jornada

O herói nos fascina tanto porque pura e simplesmente ele personifica o desejo e a figura ideal do ser humano. Ele defende a nossa causa e por isso nos identificamos com ele. Reencontramo-nos nos seus medos e sofrimentos, nos seus combates, vitórias e derrotas, na sua luta pela sobrevivência. Ele é o nosso consolo nos tempos difíceis e nos dá esperanças de que, apesar de tudo, pode-se conseguir algo, de que não estamos entregues a um destino cego, ainda que tudo pareça em vão. Ele também nos serve de modelo. Quase sempre mostra-nos virtudes e valores humanos mais maduros, como por exemplo, a coragem civil e o desinteressado engajamento social e, dessa maneira, cumpre uma tarefa social muito importante. Nossa identificação com ele encoraja-nos a conservar esses valores, mesmo quando não vemos mais esperança e preferiríamos nos resignar (MULLER, 1992, p. 6).

A trilha do Herói

Imagem/Divulgação: Son Goku – Dragon Ball

Tem uma frase do Joseph Campbell, que vai definir muito bem como tudo isso se encaixa e começa a fazer sentido, caso ainda não faça pra você leitor. Joseph Campbell é simplesmente um dos maiores especialistas em mitologia da história da humanidade e os trabalhos dele são de apontar justamente as correlações simbólicas que existem ao longo das mitologias humanas, mesmo que essas possuam distâncias geográficas e temporais. O que o Campbell faz é nos apresentar justamente o caráter coletivo dessas construções, mesmo que essas etnias e povos nunca tenham se encontrado. Ele traz pra gente uma compilação de como esse elemento Arquetípicos, portanto não pessoal, aparece nas construções mitológicas e culturais. Entre esses conteúdos existem diversos elementos que são de caráter Arquetípicos, mas vamos focar no Herói para não nos desviarmos do caminho aqui proposto.

“Além disso, não precisamos correr sozinhos o risco da aventura, pois os heróis de todos os tempos a enfrentaram antes de nós. O labirinto é conhecido em toda a sua extensão. Tem-se apenas de seguir a trilha do herói, e lá, onde temíamos encontrar algo abominável, encontraremos um deus. E lá, onde esperávamos matar alguém, mataremos a nós mesmos. Onde imaginávamos viajar para longe, iremos ter ao centro da nossa própria existência. E lá, onde pensávamos estar sós, estaremos na companhia do mundo todo (CAMPBELL, 1990, p.137).”

Essa frase é muito potente, pois boa parte das experiências humanas gerais já foram experimentadas em algum momento. E através das imagens Arquetípicas nós podemos nos relacionar com essas questões, e a partir daí isso se movimenta dentro de nós mesmos.

Mas para tornar essa frase ainda mais potente, a gente pode pegar uma frase do Jung (2020) no volume 8/1 “ A energia psíquica”. Mas antes da frase, o contexto. Lá o Jung tá falando de possíveis fatores hereditários, muito possivelmente filogenéticos e epigenéticos, para que se faça interpretações simbólicas parecidas em contextos sócio-históricos diferentes. Para ele, essa possibilidade que o Arquétipo proporciona tem muita chance de ser um elemento genético (essa questão ficou em aberto), não tem nada de mirabolante e nem é uma coisa que simplesmente aparece, como se fosse um arquivo baixado da Matrix como às vezes se vê dito por aí, dito isso vamos à frase.

“Muito embora a carga hereditária seja constituída de trilhas fisiológicas, foram os processos mentais nas gerações dos antepassados que as criaram. Quando tais trilhas chegam a consciência do indivíduo, o que só pode ser feito através de processos mentais, e se esses processos só podem tornar-se conscientes pela experiência individual- com a aparência, portanto de aquisições pessoais- elas não deixam de ser trilhas preexistentes que foram apenas “preenchidas” pela experiência individual. Com certeza, cada experiência que nos impressiona é uma irrupção num antigo leito de rio, que até então tinha ficado inconsciente. As trilhas preexistentes são duras realidades, tão inegáveis quanto a realidade histórica de o ser humano ter construído uma cidade a partir da caverna, sua morada originaria”. (Jung 2020, 8/1-parágrafo 100).”

O aspecto coletivo do Arquétipo, e em consequente do Arquétipo do Herói, é, justamente, esse caráter de servir como um caminho a encontrar nessas narrativas construídas pelo inconsciente, respostas, projeções e movimentos psicológicos através dessas trilhas que estão presentes nas manifestações artísticas, religiosas, mitológicas e etc. Toda vez que temos contato com a imagem arquetípica do herói, nós caminhamos por essas trilhas,

O Herói como símbolo de transformação

Imagem/Divulgação: Itadori Yuji – Jujutsu Kaisen

Para Campbell (1993) “o Herói é uma figura que nos serve como modelo”, antes restrito às narrativas mitológicas, religiosas e folclóricas, atualmente eles são parte mais difundida e integral da cultura de forma geral. Atualmente, seria uma tarefa árdua encontrar alguém que nunca tenha tido contato com alguma dessas figuras, seja através das revistas, desenhos animados, filmes ou até mesmo propagandas. As imagens arquetípicas do Herói são uma parcela da sociedade que já está arraigada nos diversos grupos sociais. São parte da cultura pop, integrante e difundida mundo afora pela velocidade de circulação da informação e, seja lá como você se encontra com esse herói, ali reside uma possibilidade de um contato mais íntimo consigo mesmo.

Seja no anime, no mangá, no filme da Marvel, na novela que sua mãe assiste, na mitologia, na revistinha da turma da Mônica, nos textos religiosos ou naquele jogo de videogame que você tanto gosta, essa figura estará presente e tem sempre um potencial a te acrescentar algo.

Brandão (1986) aponta que os “Heróis, são símbolos fortíssimos de transformação e sempre dotados de forte carga emocional, além de grande potencial transformador, o que lhes concebe a capacidade de trazer vida nova e fertilizar, a partir do inconsciente, a consciência”. Para o autor obter o conhecimento das características dos heróis, aprender sobre a sua complicada e às vezes dupla origem, seu comportamento, que às vezes se mostra ora encantador, ora agressivo, destrutivo ou desonesto; compreender seus defeitos, sua morte trágica que serve como coroamento de sua vida, seus diferentes destinos após a morte, ora ajudando ora prejudicando os humanos, tudo isso nos enriquece e possibilita amadurecer para que com isso experimentem-se as infinitas possibilidades das transformações humanas.

Como aqui, é o Minuto Otaku, transfere isso daí pros animes, por exemplo, e tenta perceber em quantos deles essas narrativas aparecem representadas sejam com roupagens mais folclóricas da cultura oriental, ou seja, como uma abordagem mais moderna, sobre os temas. E com quantos personagens você já sentiu que, de alguma forma, havia uma espécie de conexão?

Jung, o psicólogo que pensou nessa relação

Imagem/Divulgação: Yusuke Urameshi – Yuyu Hakusho

Lá no início do século XX, Jung estava estruturando uma compreensão psicológica que englobava muito essa jornada individual de desenvolvimento psicológico dos sujeitos. Jung falava principalmente sobre aspectos simbólicos contidos na individuação, e como essa jornada representa um processo de aprimoramento e desenvolvimento do indivíduo.

Esse processo é um movimento relativo à vida individual, mas com elementos suprapessoais/coletivos (arquetípicos) , movimento no qual toda sua história poderia levá-lo, com o direcionamento correto, a uma superação, ou melhor entendimentos dos seus medos e traumas, a um maior entendimento sobre quem de fato ele é além de um amadurecimento da Psique e maior desenvolvimento de suas potencialidades.

A individuação é um processo de autoconhecimento e desenvolvimento, através do qual o indivíduo estabelece melhor contato com o seu Inconsciente, pessoal e coletivo. Eu não vou me alongar aqui, mas cabe dizer que Jung falava que a individuação se assemelhava exatamente ao processo do malho e da bigorna, e por isso algo bastante dificultoso pois engloba conhecer e reconhecer muitos aspectos que ignoramos e são dolorosos sobre nós mesmos.

Nas narrativas heroicas é basicamente esse o pano de fundo, uma metáfora para como a Psique funciona. E nessas metáforas encontramos o mesmo movimento que fazemos internamente com relação às nossas questões. Tem todo um rolê mais técnico sobre progressão e regressão da libido, que é a “energia psíquica”, mas isso não cabe explanar aqui. Mas cabe explanar, que toda vez que Jung fala de energia psíquica é somente uma abstração para pensar o modelo psicológico, não é uma energia que exista em si, como um chakra ou ki, é só uma facilitação para entender como os processos psicológicos funcionam.

Finalizando

Imagem/Divulgação: Uzumaki Naruto – Boruto

Então para encerrar essa breve contribuição, o que eu tô querendo apontar, pra você que se disponibilizou a ler até aqui, é que psicologicamente todo contato com essas imagens arquetípicas, acaba sendo um caminho para si mesmo. Reside no herói, ou anti-herói, um olhar que reflete aspectos do seu inconsciente e que podem te ajudar a se conhecer, se trabalhar, servir de guia e inspiração. Alguns exemplos:

  • Quando você se sente tocado por Sadness and Sorrow e a historia do Naruto.
  • Ao levantar a mão para ajudar o Goku a fazer uma Genki dama.
  • Recitando junto com a Sakura retorne à forma humilde que merece Carta Clow.

Temos varias outras possibilidades de exemplo possíveis aqui. Independente de como, estamos perante um elemento simbólico e potente. O símbolo é o motor da Psique, é sempre através do símbolo que o inconsciente se manifesta

Por isso, respondendo à pergunta que lancei no início do texto: Porque a imagem do herói nos fascina tanto? Ela nos fascina pois quando nos encontramos com essa figura estamos olhando para uma parcela de nossa alma refletida fora de nós .

Tem ali todo um potencial simbólico de transformação da Psique. Pois, existe um eco entre essa figura, que é mitológica e coletiva, e toda constelação de situações que você viveu e experimentou na sua vida e formam os teus complexos e estrutura como sujeito.

Não estranhe o uso do termo alma, na psicologia analítica ela é usada para quando queremos nos referir a subjetividade e a processos individuais. É que no original alemão, tanto a palavra seele, quanto geist que Jung utiliza tanto pra alma quanto para espírito, têm essas significações, que não religiosas mas podem se referir a processos culturais e subjetivos. Mas no fim, a psicologia deve ser isso mesmo, né? A ciência da Alma cultural e subjetiva.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega. Petrópolis: Vozes, 1986.

CAMPBELL. Joseph O Poder do Mito. São Paulo: Editora Palas Athena 1990

CAMPBELL, Joseph O Herói de Mil faces. São Paulo: Editora Cultrix 1993

C.G. JUNG. Obras Completas de Carl Gustav JUNG Volume VIII. A Dinâmica do Inconsciente. A energia psíquica VIII/I. 12 a. ed. Petrópolis: Vozes, 2020.

MÜLLER, Lutz. O herói – Todos nascemos para Ser Heróis. Tradução Erlon José Paschoal. São Paulo: Cultrix, 1992

Von Franz, Marie-Louise. Reflexos da Alma. Projeção e Recolhimento Interior na Psicologia de C. G. Jung. Cultrix/Pensamento. São Paulo: 1997.

Von FRANZ, Marie-Louise em conversa com Fraser BOA. O Caminho dos Sonhos. São Paulo: Cultrix, 2001.

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