Sentidos de Ikigai no animê Cells at Work!

Representações dos sentidos de Ikigai na cultura japonesa

Numa determinada sociedade, onde nosso valor enquanto pessoa costuma ser classificado pelo  sucesso individual, podemos sentir que apenas alcançamos algum prestígio quando conseguimos a promoção no emprego ou algum lucro com determinado empreendimento. Podemos encontrar outras sociedades com valores e normas diferentes, onde o senso de comunidade e pertencimento perpassa os trabalhos de cada indivíduo. Inclusive, essa forma de sociedade está representada no animê Cells at Work! (はたらく細胞, Hataraku Saibō) lançado em 2018, dirigido e escrito por  Kenichi Suzuki. Essa produção também é uma adaptação do mangá homônimo produzido pela Akane Shimizu e publicado em 2015.

Essa animação japonesa representa os trabalhos especializados de diferentes células do corpo humano, na forma de personagens antropomorfizados, e apresenta como protagonistas um glóbulo vermelho e um glóbulo branco. A narrativa dessa animação japonesa pode provocar uma identificação com o interlocutor de forma que esse se aproprie dos conhecimentos apresentados. Dessa forma, o animê utiliza signos tanto da cultura ocidental, como as técnicas de enquadramento cinematográfico e animação para provocar movimento e passagem do tempo nessas histórias,  quanto utiliza os signos da cultura japonesa presentes na ausência de linguagem ou narrativa explicativa. Esses signos permitem ao interlocutor estabelecer uma relação com as expressões dos personagens, como o desenho acentuado dos olhos, proporcionando situações e sensações que remetem às emoções simbolicamente comunicadas. Dessa forma, essa narrativa também pode comunicar conhecimentos, valores e costumes da cultura japonesa e da cultura ocidental enquanto um produto de exportação que abarca diversos mercados como os dos Estados Unidos, México e Brasil. Nesse caso, quando temos o primeiro contato com essa animação japonesa, podemos pensar na seguinte questão: como os personagens podem sensibilizar o interlocutor inserido na cultura ocidental para refletir sobre questões do próprio cotidiano?

Signos da cultura japonesa e cultura ocidental na animação

Nessa animação japonesa Cells at Work! os personagens representam as funções de algumas células,  como se fossem pessoas que exercem funções profissionais situadas num corpo humano. Essas células também representam grupos sociais que possuem práticas, normas e expectativas. Compreende-se que o potencial de sensibilização  dessa arte acontece porque está operando com textos que consideram signos típicos tanto da cultura japonesa como também da cultura ocidental, provocando uma identificação com o leitor mediante os discursos do cotidiano sobre experiências possíveis ou desejáveis de serem vivenciadas pelo interlocutor. Esses textos podem ser apreensões sobre pensamentos, vontades e intenções que são comunicados pelos signos. Enquanto os signos podem ser instrumentos caracterizados em imagens, palavras e gestos que comunicam e medeiam a relação interpessoal dos indivíduos entre si.

A eficácia dessa linguagem típica das narrativas do animê e mangá está em transformar o texto e a imagem estáticos em um sistema dinâmico e representativo da realidade e, dessa forma, inserir o interlocutor nessa narrativa. Ainda como exemplo da construção desse processo de sensibilização e identificação com os possíveis interlocutores, o animê Cells at Work! proporciona o desenvolvimento das trajetórias de dois personagens principais:

A personagem AE-3803, desde quando era um eritroblasto situado numa fase de desenvolvimento representada como se fosse a sua infância, apresenta dificuldades para lidar com as etapas de maturação necessárias para se tornar um glóbulo vermelho. Apesar desses obstáculos, a personagem tende a considerar essas dificuldades como oportunidade para aprimorar suas funções e aprender lições com as hemácias já especializadas e experientes. Por causa desse histórico de dificuldades durante o seu desenvolvimento, ela tende a ser tratada como desajeitada pelos demais colegas. Como exemplo dessa dificuldade em se orientar e localizar os lugares onde precisar chegar, quando ela era apenas um eritroblasto e estava numa espécie de sala de aula, participou de uma simulação de fuga e perdeu-se na medula óssea onde ela encontrou uma bactéria que acreditava ser seu professor disfarçado. Contudo, ela descobriu que era uma verdadeira bactéria que queria atacá-la e, nesse momento, um mielócito apareceu para salvá-la.  Por fim,  também apareceu um neutrófilo que eliminou a bactéria e separou ambas as células imaturas. Nesse momento, eles combinaram entre si para se encontrarem novamente. Embora as chances fossem mínimas por causa da enorme quantidade de células que atuam no corpo humano.

Imagem/Divulgação – AE-3803, Glóbulo Vermelho/Kenichi Suzuki

Esse mielócito que buscou ajudar aquele eritroblasto se torna o glóbulo branco U-1146, especificamente um neutrófilo capaz de eliminar vírus e bactérias. Esse glóbulo também consegue tornar mais eficaz e seguro o processo de transporte de gás oxigênio e gás carbônico realizado pelos glóbulos vermelhos. Além desse papel, ele também realiza um papel de conselheiro e protetor da AE-3803 quando também a orienta sobre os caminhos mais acessíveis para que ela realize aquele transporte. Nesses momentos em que as células mais precisam de proteção, o glóbulo branco está sempre disposto a sacrificar sua própria vida para garantir que cada célula realize sua função especializada e mantenha a homeostase do corpo humano.

Imagem/Divulgação – U-1146, Glóbulo Branco/Kenichi Suzuki

Quando essa narrativa da animação se situa durante a infância de ambas as células, nota-se que aquela relação de cuidado e encorajamento tem sido construída desde quando eram células que não possuíam uma função especializada pelo processo de diferenciação e maturação conhecido como hematopoiese. Esse processo também representa o processo de amadurecimento dos personagens desde as fases categorizadas como a infância, a adolescência e a fase adulta, possibilitando um sentimento de empatia com esses personagens que durante essa trajetória também sentem medo, coragem, curiosidade, paixão e amizade enquanto experiências que podem ser verossímeis.

Imagem/Divulgação – AE-3803, Eritoblasto;U-1146, Mielócito/Kenichi Suzuki

Singularidades do Ikigai em diferentes trajetórias

A partir dessa descrição sucinta sobre as trajetórias de ambas as células, pode-se compreendê-las enquanto comunicadas por atitudes, crenças e valores representados na narrativa do animê e que se aproximam da noção cultural Ikigai. Para abordar essa concepção própria da cultura japonesa, podemos considerar como exemplo o fato de ambos os personagens realizarem trabalhos favoráveis ao bem-estar daquele corpo humano representado como uma forma de sociedade. O fato de realizarem esses funções pode ser justificado por uma motivação relacionada ao Ikigai, geralmente definido no senso comum como “aquilo que faz a vida valer a pena”. Esse Ikigai tem sido identificado por pesquisadores enquanto um fenômeno presente na ênfase da interdependência pessoal comunicada pelos japoneses, a partir de suas histórias de vida que foram analisadas em diferentes estudos que apontam a pouca ênfase atribuída à independência tão valorizada na cultura ocidental.

De acordo com o neurocientista japonês Ken Mogi, os sentidos de Ikigai podem ter a ver com experiências cognitivas e comportamentais pelas quais hábitos e valores são organizados para realização cuidadosa e gradual de determinado objeto de interesse. O antropólogo Gordon Mathews acrescenta que esses sentidos podem ser diferentes de acordo com as vivências de moças e rapazes japoneses, com diferentes faixas etárias, e os contextos históricos onde estão situados. Como exemplo desse fenômeno, estudos verificam que as mulheres japonesas tendem a considerar a família como o seu Ikigai enquanto os homens consideram o trabalho. No entanto, o aumento da expectativa de vida no Japão também influenciou outros possíveis sentidos de Ikigai ao mobilizar os aposentados e as aposentadas para construírem um senso de comprometimento e pertença para além das relações com a família, o grupo de colegas de trabalho e as empresas, prezando pelo exercício de hobbies como forma de realizar o seu Ikigai.

Independente dos diferentes sentidos que Ikigai pode apresentar nas diversas trajetórias dos japoneses, esses possuem em comum tanto o senso de compromisso do eu com a sociedade onde estão inseridos quanto a responsabilidade com a escolha individual em dedicar seus esforços ou não nesse compromisso. Ainda como exemplo desse compromisso e responsabilidade representado na narrativa de Cells at Work! tem o trabalho realizado coletivamente pelas plaquetas que, junto com a cooperação das células que exercem suas funções especializadas, conseguem formar coágulos para retenção de hemorragias.

Imagem/Divulgação – Plaquetas/Kenichi Suzuki

Diante de todo esse compromisso e responsabilidade das células com as suas funções especializadas, será que existe espaço para elas expressarem alguns desejos? Durante o desenvolvimento da narrativa dessa animação, acontecem alguns momentos entre o glóbulo branco e o glóbulo vermelho que remetem a uma declaração romântica quando, de repente, acontece alguma demanda que requer a ambos retomarem as suas funções.

Imagem/Divulgação – AE-3803, Glóbulo Branco;U-1146, Glóbulo Vermelho/Kenichi Suzuki

Percebe-se que durante o amadurecimento de ambas as células, as exigências para assumirem um papel nessa sociedade que atenda as normas e as expectativas sociais podem ter impossibilitado a concretização desse desejo amoroso que implica abrir mão das suas funções especializadas. Nesse caso, o animê Cells at Work! possibilita entender que as mudanças dos sentidos de Ikigai podem representar os esforços das pessoas para expressarem seus desejos e paixões. Nessas circunstâncias, embora as pessoas não possam controlar os fatos sociais, podem considerar as suas vivências enquanto possibilidades que ainda podem realizar seus sonhos.

Agradecimentos

Esse texto está repleto de sugestões e reflexões coletivas que motivaram a minha escrita sobre os diferentes sentidos de Ikigai! Agradeço pela oportunidade de ter essa inspiração nas atividades e discussões proporcionadas pela aluna e kaichou Alinne Citlali do Clube de Cultura Nipônica (Colégio Militar do Rio de Janeiro) que também indicou a leitura do livro “The Little Book of Ikigai” escrito por Ken Mogi.

Referências

BAKHTIN, M. M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2ª edição, 1997.

COÊLHO, C. T.; NASCIMENTO, E. L. Mangá: uma ferramenta didática para multiletramentos. In: Seminário de Pesquisa em Ciências Humanas, 8., 2010, Londrina, PR. Anais… Londrina: UEL, 2010. p.389-408.

FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. 31ª edição. São Paulo: Paz e Terra. 2005.

LUYTEN, S. Mangá – O Poder dos Quadrinhos Japoneses. 2ª edição. São Paulo: Hedra, 2000.

LINSINGEN, L. V. Mangás e sua utilização pedagógica no ensino de ciências sob a perspectiva CTS. Ciência & Ensino, v.1, n.p., 2007.

MOGI, K. The Little Book of Ikigai: The secret Japanese way to live a happy and long life. Quercus Publishing, 2017.

MATHEWS, G. The Stuff of Dreams, Fading: Ikigai and ‘The Japanese Self’. Ethos, v. 24, n.4, p. 718-747, 1996.

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Comentários

  1. Texto muito interessante Bruna. Realmente, quando vi Cells at Work! senti a força do ikigai abraçada por cada célula. Isso também nos sensibiliza a respeito dos níveis de dedicação e esforço que empreendemos em nossas vidas e como nossas ações contribuem para um todo. Além disso, ver esse nível de cooperação entre essas células mostra também como o nosso corpo é integrado, dinâmico e muito especial. Com certeza, não estamos sozinhos, temos trilhões de células e microoganismos atuando dentro de nós. Muito obrigada pelas reflexões! Parabéns pelo artigo!

    1. Querida Lorrayne, muito obrigada pela leitura e comentário tão enriquecedor! Feliz por ter gostado. Exatamente! Esse animê permite perceber o corpo de forma diferente daquela convencionada pela cultura ocidental, quando as células representadas valorizam mais essa relação de interdependência do que o trabalho independente de cada sistema do corpo humano ^^