Review | Minha Experiência Lésbica com a Solidão

Falar desse mangá é uma audácia, mas vale pelo estímulo às leitoras e leitores. Digo audácia porque não existe relato que o supere, é uma fala potente que ecoa para todos os adultos do século XXI (especialmente em pessoas com muitas e muitas cavernas dentro de si). Ganhei de aniversário no ano passado de um grande amigo, não conhecia e não esperava o soco que ia levar.

[ATENÇÃO: SPOILER ATÉ DIZER “CHEGA”]

Divulgação/NEWPOP: Minha Experiência Lésbica com a Solidão/Kabi Nagata

O título engana: “Minha experiência Lésbica com a Solidão” não é voltado para um público necessariamente lésbico. Fala da jornada de Kabi Nagata, que aos 28 anos, de dentro de um processo depressivo pesadíssimo vendo mais vantagens em estar morta do que viva, é tomada pela força do ódio e, já que não tem como piorar, decide se recuperar e se matar depois “só de raiva”.

A narrativa de drama e comédia é sensacional e entrega de cara a proposta do título: Nagata virgem aos 28 anos num quarto de motel derretendo de nervoso na frente de uma prostituta lésbica (sem nunca ter tido um relacionamento amoroso ou a carteira assinada). No entanto, como ela foi parar lá? Esse é o real conteúdo da história: a reflexão de Nagata quanto a sua trajetória na construção da sua vida adulta – as dores do crescimento.

A narrativa é dividida em cinco capítulos: “O início”, “Prólogo”, “A reserva”, “O dia”, “Epilogo” e os extras. O ponto alto da história, no caso “O dia”, é quando Nagata enfrenta seus medos e sai com uma prostituta lésbica para explorar sua sexualidade pela primeira vez na vida. A construção que se dá até lá é valiosíssima.

Em “O início”, Nagata mostra todos os transtornos físicos e mentais que se desdobram a partir da sua depressão desde que saiu do ensino médio, entendendo que os lugares em que tinha uma rotina eram sinônimos de si – mas na verdade não. Esse capítulo é rápido e super denso expondo a realidade de Nagata até a sua vontade de melhorar: automutilação, transtorno de compulsão alimentar (TCAP), ansiedade, arrancar fios da cabeça (até ficar calva), impotência e vergonha de si (se retroalimentando num ciclo vicioso), pensamentos suicidas e a necessidade de validação externa dão as caras aqui.

Divulgação/NEWPOP: Minha Experiência Lésbica com a Solidão/Kabi Nagata

No capítulo 2, no “Prólogo”, temos a grande reflexão de Nagata sobre o peso da opinião e da avaliação dos seus pais na sua vida. A busca por reconhecimento dos outros colide com a falta de noção do que quer para si. Seus pais apresentam posturas e valores pertinentes a sua vida e a sua geração, como a necessidade ideal do emprego de carteira assinada.

Enquanto ela se identifica com o seu sonho de criar mangás e busca uma rotina saudável para o seu corpo poder produzir isso, Nagata conflita com o fundo do seu processo depressivo que está diretamente conectada com a ideia avessa de agradar seus pais. É a batalha entre a “Eu natural” e a outra, a “Eu que faço tudo pelos meus pais”.

Divulgação/NEWPOP: Minha Experiência Lésbica com a Solidão/Kabi Nagata

Falta de empatia por si mesma (e a perda da capacidade de raciocinar direito), não querer crescer para continuar sendo amada pelos pais como criança e a consequente negação da própria sexualidade são temas dessa exploração. Nagata sabe que tem atração por mulheres, não quer se identificar como mulher (ou com qualquer gênero) antes de ser ela mesma, mas ao mesmo tempo pensar sobre sexo é errado porque “é coisa de adulto”.

Divulgação/NEWPOP: Minha Experiência Lésbica com a Solidão/Kabi Nagata

Nos capítulos 3 e 4, respectivamente “A reserva” e “O dia”, são o clímax que aquecem o nosso coração. Desde que Nagata se permitiu pensar sobre sexo, ela não consegue mais pensar em outra coisa enquanto não marca o encontro com a prostituta. Na verdade, deixar para trás o que os pais pensam ou deixam de pensar a permitiu ser ela mesma.

Divulgação/NEWPOP: Minha Experiência Lésbica com a Solidão/Kabi Nagata

Vencer na disputa pela decisão sobre si mesma, investir e cuidar de si gerando confiança são desdobres das decisões que a fortalecem. Não é um processo rápido, é lento, gradual e firme. É a magia do fazer e atrair o acontecer. Ela marca e vai ao encontro (VAI, NAGATA! <3).

Divulgação/NEWPOP: Minha Experiência Lésbica com a Solidão/Kabi Nagata

No último capítulo, “Epílogo”, Nagata identifica o conceito do “Doce Néctar” da vida adulta analisando seu estado atual de realização e controle de suas decisões. Ela não entendia como outras pessoas conseguiam lidar com as suas vidas todos os dias, acordando e indo trabalhar dentro de rotinas pré estabelecidas e acreditava que poderia existir um doce néctar motivador que todos tinham acesso, menos ela.

Divulgação/NEWPOP: Minha Experiência Lésbica com a Solidão/Kabi Nagata

O doce néctar de Nagata no passado eram os amigos do colégio, mas ela encontra um novo néctar: a realização a partir do seu trabalho contanto histórias, especialmente a sua, e sendo reconhecida por isso.

Conclusão

Esse mangá é perfeito, 10/10 e não tem como ser diferente. Não existe crítica cabível em cima da vida dos outros e, como toda boa autobiografia, olhamos imediatamente para dentro de nós. Como aprendizado e reflexo da leitura ficam a empatia que temos conosco e com os outros, o quanto nos permitimos ser quem somos e o quanto deixamos de seguir a nossa essência buscando por uma aceitação externa que só pode vir da gente (E COMO É BOM QUANDO VEM *-*, é um doce néctar mesmo). Embora seja um bombardeio de informações e conceitos complexos da vida adulta, a narrativa é coberta de esperança do início ao fim. A questão principal não é a depressão e a falta de confiança de Nagata, é ela querer se levantar disso tudo.

Divulgação/NEWPOP: Minha Experiência Lésbica com a Solidão/Kabi Nagata

Esse mangá é terapêutico, sem limites e todos os adultos deveriam ler. No Japão foi publicado em 2016 pela East Press e chegou ao Brasil pela NEWPOP em 2019 – volume único. Eu definitivamente não esperava pelo que estava por vir, como disse antes, mas esse mangá é um sonho que sempre sonhei sem saber. Me tocou e curou imensamente, cada vez que releio tenho novos insights. Obrigada por dividir as suas experiências com a gente, Nagata. Obrigada e mil vezes obrigada!

Minha Experiência Lésbica com a Solidão
  • Enredo
    (5)
  • Personagens
    (5)
  • Arte
    (4)
  • Ritmo de Leitura
    (5)
  • Edição
    (4)
4.6

Sumário

Com muito humor, Kabi Nagata fala de seu processo de depressão desconstruindo o conceito de validação dos pais para suas decisões e aprendendo a ter controle, firmeza e empatia consigo e com seus sentimentos. O mangá tem muitos temas sensíveis e os mostra explicitamente, mas com grande leveza que não choca o público e sim sensibiliza promovendo reflexão.

Pros

  • Autobiografia: conexão imediata com o leitor
  • Temática atual
  • Escrita terapêutica
  • Leveza em temas sensíveis
  • Drama e comédia andam juntas
  • Conteúdo LGBTQIA+

Cons

  • Numa leitura mais atenta, tem diálogos que não ficaram bem ajustados passando pro português mesmo na linguagem cotidiana
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