Review | Yasuke: a negritude nos animes

Yasuke” é uma produção para a Netflix baseada na história real do primeiro samurai negro. A animação foi produzida e dirigida por LeSean Thomas – um diretor afro americano que também é animador, artista de quadrinhos, designer de personagens e de storyboards –  juntamente com o estúdio MAPPA (responsável por Yuri on Ice (2016) e pela última temporada de Attack on Titan).

Quem é Yasuke?

Ambientada no Japão Feudal (por volta de 1185 e 1603), conta a história de Yasuke, um escravo moçambiquenho que foi trazido ao Japão durante o século XVI pelos jesuítas. Por conta de sua altura, força, e cor de pele chamou a atenção de Oda Nobunaga, um daimiyo (algo semelhante a um senhor feudal) e passou a servi-lo, não como escravo, mas como samurai, recebendo o nome de “Yasuke”. E se tornou o primeiro samurai estrangeiro e consequentemente, negro do Japão.

Esteve a serviço de Nobunaga até 1582 quando, ao ser ver cercado pelo exército de um general rebelde, Nobunaga cometeu sepukku (suicídio por honra). Yasuke passa a servir o herdeiro de Nobunaga, seu filho, Oda Nobutada, que acaba sendo também derrotado. A vida de Yasuke é poupada, no entanto, não se sabe ao certo o que aconteceu com Yasuke depois disso, mas acredita-se que ele tenha sido entregue novamente aos jesuítas.

Ao assistir a série, o baque já veio logo nos primeiros minutos: não se tratava de uma animação histórica em estilo seinen (gênero mais adulto), mas sim, de uma mistura de elementos fictícios como robôs gigantes, magia, transformações e poderes psíquicos. E esse susto inicial me fez entender de maneira errônea a animação em uma primeira análise, mas conforme Fernando Alves aqui do Minuto Otaku, pesquisador de representações de ciência e cientistas, pude enxergar outra perspectiva.

Em um primeiro momento, achei que os elementos fantásticos em demasia apagavam um pouco o protagonismo de Yasuke. Por mais que o escravo moçambiquenho tenha se tornado um samurai, aprendido um idioma completamente diferente do seu, com força e tamanho superior à dos próprios samurais japoneses e trabalhado a serviço do daimiyo de maior destaque do Japão feudal, nada disso parece grandioso o suficiente quando se tem magia, metamorfose animal, poderes psíquicos e robôs gigantes na trama.

Mas, para Fernando, ao se pensar sócio-filosoficamente, chega a ser algo poético e reflexivo e este fato representa bem o que é ser negro ainda hoje em dia, onde mesmo o negro sendo maioria ainda é invisível ou minoria em muitos espaços.

Veja também: Pokémon e a representação de cientistas

As situações em que Yasuke se encontra na animação são sempre de desvantagem: um contra muitos, um contra algo ou alguém mais forte, um contra alguém com auxílio de forças ocultas ou alguém maior. E, no final, é o esforço e integridade dele que fazem ele se sobressair.

A atual situação de Yasuke me lembra a de um herói em estilo noir – um homem mais velho, assombrado por seu passado e com algum tipo de vício, cigarro ou bebida, que é levado através da jornada do herói a se reconciliar com os erros do passado em prol de um objetivo que o irá redimir–  afinal, vemos um Yasuke já com alguns cabelos brancos, assombrado por seu passado, trabalhando de barqueiro e bebendo ocasionalmente para apagar os traumas do passado e que é levado a voltar ao caminho da espada para proteger uma garota com poderes psíquicos.

Imagem/Divulgação

Novamente, temos outra mistura de gêneros, um personagem tipicamente seinen em uma animação shounen, e novamente precisei da ajuda do Fernando para entender essa mistura, porque eu creio que como a maioria, esperava um anime histórico com porradaria sincera e cabeças degoladas no melhor estilo de anime samurai e não foi isso que a Netflix nos entregou. Porém, meu veredicto foi: passada a expectativa inicial frustrada, o anime é bem produzido e bastante divertido e interessante uma vez que você se acostuma com o ritmo e elementos dele.

Sobre LeSean Thomas

LeSean Thomas possui algumas semelhanças com Yasuke: ambos são homens negros no Japão. Embora nascido em Nova York, Thomas vive atualmente em Meguro no Japão. Entre seus muitos projetos anteriores se encontram “A Lenda de Korra” da Nickelodeon e “Black Dynamite” do AdultSwin e a lista de participações de outros trabalhos também é bastante longa.

Imagem/Divulgação

Apesar de ter sido produzida também pelo estúdio MAPPA, é inegável pra mim a semelhança com animações americanas. Por mais que o estilo seja o mangá, enquadramentos, cortes, diálogos e design de personagens e a fluidez das cenas ainda me lembram muito mais o estilo ocidental do que oriental e me faziam lembrar constantemente de que o que eu assistia não era de fato um “anime”, mas sim uma animação com “cara de anime”. Novamente, nada que atrapalhe ou comprometa a qualidade da animação, que é ótima, diga-se de passagem, sendo apenas uma questão de gosto pessoal.

Negros nos animes

Se eu perguntasse a um fã de quadrinhos o nome de um super herói negro certamente eu ouviria nomes como “Pantera Negra”, “Blade”, “Nick Fury”, “Tempestade”, entre outros.  Agora, se eu perguntasse a qualquer apreciador de animes o nome de algum personagem negro de um anime, com alguma dificuldade, surgiriam nomes como Bob Makihara de Tenjou Tenge, Chocolove McDonell de Shaman King, Pyunma de Cyborg 009 e Carole de Carole e Tuesday.

E se eu perguntasse dos mangás? Afro Samurai (que não tem nome, é somente chamado de “Afro Samurai”) do mangá de mesmo nome, e quem mais?

Você até pode lembrar-se de alguns personagens de pele mais escura, mas seriam estes personagens mesmo negros? Ou seriam apenas personagens de pele não branca? Por exemplo, Setsuna Meiou de Sailor Moon tem a pele morena, característica de japoneses do sul do Japão, principalmente da ilha de Okinawa. Setsuna tem nome japonês, mas é alienígena (princesa do planeta Plutão) então como sabemos sua etnia ou identidade cultural? Ficou confuso? Tudo bem, isso se deve ao personagem ser “mukokuseki”, que significa “sem estado” ou “sem nacionalidade” (GALBRAITH, 2009). “Mukokuseki” pode tanto ser aplicada, quando personagens de uma mesma raça parecem completamente diferentes, ou quando personagens de raças diferentes parecem essencialmente iguais.

Porquê isso ocorre?

Existem muitas possibilidades: economia de tempo com uso de retículas já que muitos mangakás (autores de mangás) não tem assistentes e o uso de retículas pode comprometer prazos. Simplificação para o character design ou ainda simplesmente a falta de contato com outras raças e culturas.

Dados coletados por Ramos (2020) apenas 1,7% da população japonesa é composta por estrangeiros, sendo nativos todo o restante. A falta de contato com outras nacionalidades faz com que a sociedade japonesa tenha dificuldades ao se relacionar com questões raciais, seja retratando negros com estereótipos derivados de filmes de Hollywood ou embranquecendo-os, em suas produções.

Enquanto o anime é um produto a ser exportado, o mangá ainda segue sendo um produto mais voltado ao consumo interno, já que é parte fortíssima da cultura japonesa enquanto é de certa forma recente em outros países e como tal, reflete fortemente ainda a cultura nacional.

Ficou interessado e quer saber mais sobre negritude nos quadrinhos? Confira o livro “Negritude, Poderes e Heroísmos” organizado por Elbert Agostinho e saiba mais sobre representações e imaginários nas histórias em quadrinhos, livro o qual tive o prazer de participar com um artigo sobre identidade negra nos mangás.

O livro pode ser adquirido pelo site da editora através deste link.

Bibliografia

AGOSTINHO, E. Que “negro” é esse nas histórias em quadrinhos? Uma análise sobre o Jeremias de Maurício de Sousa. Anais Eletrônicos das 5as Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos. São Paulo: 2018.

NEGRITUDES, Poderes e Heroísmos: Estudos sobre representações e imaginários nas histórias em quadrinhos. 1. ed. Rio de Janeiro: Conexão 7, 2021. 239 p. v. 1. ISBN 97865862559155.

RAMOS, A.P. Como é ser negro no Japão, país onde 98% da população é nativa. BBC,18 jul. 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-53367241. Acesso em: 8 de Setembro de 2020.

RANGEL, E. A. Afrosamurai: Uma Análise Sobre a Representação de um Herói e Protagonista Negro na Narrativa Transnacional do Anime. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Territorialidades), Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2016.

Yasuke
  • Animação
    (5)
  • Enredo
    (3)
  • Trilha Sonora
    (4)
  • Personagens
    (3)
  • Desenvolvimento
    (4)
3.8

Sumário

Apesar das críticas negativas que tem recebido, Yasuke é uma animação linda que demanda uma leitura mais profunda sobre a representatividade negra nos animes ao retratar a história do primeiro, e talvez único, samurai negro da história.

Pros

  • A animação está linda, especialmente os cenários
  • Como existem muitos elementos de ficção científica, a série fica imprevisível em vários momentos e isso prende o espectador
  • Representatividade: é raro termos um personagem negro de destaque em algum anime

Cons

  • Mesmo a animação sendo bem fluída, o design de personagens, diálogos e enquadramentos entrega que se trata de uma produção americana e não japonesa em vários momentos.
  • É difícil se acostumar com os vários elementos de ficção científica quando se tinha a expectativa de assistir a um anime histórico.
  • Em um primeiro momento, o personagem principal fica bastante apagado perto de coadjuvantes tão fantásticos e demora até que Yasuke comece a se destacar.
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